Tempos modernos
A vida de hoje, lotada de estímulos e cobranças por todos os lados, é um convite à ansiedade. Pelas estimativas da Associação Brasileira de Psiquiatria, cerca de 20% da população sofre dela em algum grau – e esse número só cresce. “A valorização da pressa e do consumo nos faz criar novas necessidades todos os dias”, analisa o psicólogo Julio Peres, de São Paulo. “Elas criam uma falsa promessa de bem-estar e de conforto que acaba fazendo você deixar de olhar para suas angústias, os seus desejos verdadeiros e o que realmente faz sentido na vida.” Em outras palavras, você se distancia de si mesma e da própria força para enfrentar os desafios que aparecem, fica insegura e abre espaço para o fantasma da ansiedade se aproximar.
Ainda tem a febre da tecnologia, que derrubou a barreira entre trabalho e vida privada e instalou na nossa mente a ideia de que podemos – e devemos – estar em vários lugares ao mesmo tempo, ter mais amigos (ainda que virtuais) do que a vizinha, saber primeiro da última novidade hi-tech (e comprar também)... Haja pressão.
Presa fácil
Quantos homens ansiosos você conhece? As chances de o número ser bem menor do que o de mulheres é grande, pois somos mesmo presas em potencial dessa inimiga. A explicação é cultural: com uma lista de afazeres cada vez mais extensa – trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, malhar, ficar bonita, sair com as amigas, dar carinho para o parceiro e, claro, ser excelente em tudo –, a gente precisa se policiar para não ficar à beira de um ataque de nervos nem ser dominada pelo medo de fracassar. Para piorar, somos menos práticas e mais vulneráveis a ruminar os problemas e as dúvidas em vez de resolvê-los.
Mas também há a armadilha biológica, que contribui para que a doença seja subestimada. Como a gente está acostumada com o rótulo de ansiosa pelo fato de ser mulher (e passar mensalmente pela TPM, que confunde nossa avaliação do que sentimos e de como nos comportamos), muitas vezes acaba adiando a busca por uma solução definitiva.