Sempre fui gordinha e, na escola, acho que fui vítima do que hoje chamam de bullying. E isso me fez muito mal. Era chamada de baleia, rolha de poço e outros apelidos agressivos, que nunca mais saíram da minha cabeça. Para me enturmar, procurava ser engraçada e dava uma de cupido, apresentando os meninos para as outras meninas. Tentava ser feliz com isso, mas no fundo me sentia feia e triste. Na faculdade, estudava muito para me manter distante da turma. As pessoas até me chamavam para participar dos grupos de estudo, mas nunca me convidavam para as baladas. Isso aconteceu uma ou duas vezes e eu inventei uma desculpa para me afundar na comida. Cheguei a comer uma pizza inteira e uma banana split de sobremesa, dando fim a mais uma dieta que mal eu havia começado. A única vez em que quase namorei não deu certo por causa das minhas crises de ciúme. Hoje tenho 26 anos, 1,71 metro de altura e 68 quilos. Quero emagrecer, mudar meu corpo e, finalmente, encontrar um namorado e ser feliz. Renata*
* Nome trocado para preservar a identidade da leitora.
Renata,
Você tem razão: o bullying pode ter um efeito devastador na vida de qualquer pessoa. Apesar de ser um termo novo, revela uma situação antiga e comum nas escolas. A palavra em inglês, sem tradução para o português, caracteriza agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva por um ou mais alunos contra um colega. A pessoa-alvo se sente intimidada, maltratada e humilhada. Para ser aceita pela turma, você criou uma personagem: a gordinha feliz. Mas, ao incorporá-la, se anulou e destruiu a autoestima. Sem conseguir dar a volta por cima, levou esse sentimento para a faculdade. Dessa vez, a estratégia de defesa foi se isolar dos amigos. Resultado: a falta de relacionamento social reforçou a insegurança e o medo da perda - por isso, o ciúme excessivo do primeiro pretendente. Não é preciso dizer que a comida foi usada para amenizar as tristezas. Em contrapartida, fez com que sentisse culpa por estar fora de forma, embora o peso atual não esteja proporcional às suas queixas. De qualquer maneira, emagrecer pode ser um começo para ajudá-la a superar o passado. Mas vá além da dieta adequada e dos exercícios.
Ponha para fora as lembranças ruins - revele para as pessoas ao seu redor ou profissional competente, evitando guardá-las só para você. É um bom caminho para reconstruir a autoestima. E não só para arrumar um namorado, mas seguir em frente com todos os seus projetos de vida.
O psicoterapeuta Marco Antonio De Tommaso vai ajudar você a se conhecer melhor