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O dia depois da pílula

A julgar pelo uso rotineiro, sobretudo pelas jovens, a pílula do dia seguinte tem sido encarada como um quebra-galho. Grave erro. O contraceptivo nasceu para evitar a gravidez quando outros métodos falharam e não para tirar de uma fria quem transa sem a menor proteção

Por Thais Szegö

casal abraçado

A pílula do dia seguinte

Contracepção de emergência. O nome já diz tudo e se refere a um método que só deve ser usado em episódios extremos se a camisinha estoura ou, pior, em caso de violência sexual. Mesmo assim, muitas mulheres, principalmente as adolescentes, ignoram essa indicação e exageram na dose. Literalmente. Engolem a badalada pílula do dia seguinte a torto e a direito, fazendo dela a substituta dos contraceptivos tradicionais. "Já tive pacientes que tomaram oito doses no mesmo mês", revela, sem conter a perplexidade, a ginecologista Albertina Duarte Takiuti, que também é coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente do Estado de São Paulo. "Acompanho casos assim no hospital público e no meu consultório", endossa o hebiatra Maurício de Souza Lima, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Os números confirmam a suspeita de exagero: as 550 mil unidades vendidas em 2000 saltaram para 3,4 milhões até setembro de 2004.

Mais do que uma atitude imprudente, é um verdadeiro atentado à saúde. A pílula do dia seguinte chega a ter dez vezes mais hormônio que as convencionais. Abusar dela pode causar danos graves, como câncer de mama e de útero, problemas em uma futura gravidez, além de trombose e embolia pulmonar. "Um estudo de minha autoria com 136 meninas entre 11 e 20 anos que fizeram uso do remédio e acabaram sendo atendidas no Hospital das Clínicas de São Paulo mostrou que 48% delas tiveram algum tipo de efeito colateral. Apesar disso, 67% consideraram o método seguro", conta Albertina.

O ginecologista e terapeuta sexual Amaury Mendes Júnior, do Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática, tampouco doura a pílula: "Entre o hipotálamo, localizado no cérebro, e os órgãos genitais há um eixo que mantém o compasso do funcionamento do corpo. Hormônio em excesso interfere nesse ritmo". Considere, ainda, que o medicamento só está sendo usado em grandes quantidades há cinco anos. Se nesse espaço de tempo já se conhecem tantos efeitos colaterais, pode se imaginar que muitos mais ainda virão à tona. "São necessários pelo menos outros cinco anos para que todos os prejuízos sejam revelados", estima Albertina Duarte Takiuti.

Ainda não há estudos determinando o que é uma superdosagem, mas a experiência clínica sugere que tomar mais do que uma pílula desses por mês já seria um abuso, apesar de o efeito não ser assim tão acumulativo. "Depois de dois a três dias, a droga é eliminada do organismo", garante a farmacêutica Julieta Ueta, da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, no interior paulista.

A contracepção de emergência encerra, ainda, a discussão sobre um suposto efeito abortivo. Será que engolir a pílula do dia seguinte seria interromper uma vida? O Ministério da Saúde, que distribui o comprimido e uma cartilha sobre o assunto, defende por mais confuso que possa parecer que a vida não começaria com a fecundação, ou seja, com aquele encontro do óvulo com o espermatozóide. Reza sua cartilha, a gravidez só existe pra valer a partir do momento em que o ovo se implanta no útero para o embrião se desenvolver. A discussão é cheia de nós, até porque mexe com antigos laços da igreja católica.

Outra polêmica, acirrada depois que o Sistema Único de Saúde começou a distribuir gratuitamente a pílula do dia seguinte, refere-se à redução dos abortos clandestinos. E isso seria, em tese, ponto positivo. Não podemos fechar os olhos: a Organização Mundial da Saúde estima que, no Brasil, eles atinjam a cifra de 1,4 milhão de procedimentos anuais,. Só no ano de 2004, 243 998 brasileiras se internaram no SUS para uma curetagem a raspagem do útero a fim de retirar vestígios de embriões abortados.

No mundo ideal, os adolescentes se protegeriam na hora da relação sexual. "Eles conhecem os métodos anticoncepcionais, mas não usam", diz Albertina Duarte Takiuti. E aí vem aquela velha história sobre a importância de se sentirem à vontade para uma boa conversa com os pais sobre sexo. "Não vale um papo careta, com direito a lição de moral, nem forçar intimidade de uma hora para outra", diz Maurício de Souza Lima. "A relação de confiança se constrói no dia-a-dia."

 
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