Recentemente, fizemos, no site de BOA FORMA, um chat sobre auto-estima com o psicólogo Marco Antonio de Tommaso. No primeiro minuto do bate-papo, alguém entrou na sala com o pseudônimo de Deprimida. E enquanto a conversa seguia, outras internautas relataram problemas, seguidos da pergunta: “Será que estou com depressão?” O fato de tantas leitoras terem a mesma dúvida mostra que é hora de colocar os pingos nos “is” e apontar a grande diferença entre um momento de tristeza e um quadro real de depressão.
Não é de estranhar que você conheça uma pessoa deprimida. As estatísticas sobre a doença apontam que 15% da população mundial teve, tem ou terá a doença algum dia. Além denão ser rara, ataca mais as mulheres (são duas com depressão para cada homem). “É preciso, porém, fazer um diagnóstico correto. Uma pessoa absolutamente saudável pode estar triste porque perdeu o emprego. A doente sente-se triste mesmo sem ter um motivo”, diz Tommaso. A tristeza passa. Na depressão, é fundamental o tratamento com psicoterapia e remédios.
Permissão para ficar tristinha
Estamos tão pressionadas a buscar a felicidade que, quando alguma coisa acontece fora do planejado, esquecemos de cogitar a possibilidade de ficar triste, simplesmente. “Quem acabou de ser abandonada pelo namorado pode ter, durante um tempo, sintomas muito parecidos com os da depressão: dorme mal, perde a fome e a vontade de sair de casa – o que é absolutamente normal. Mas em poucos dias começa a mesclar esses sinais com a rotina habitual, vai ao trabalho, encontra as amigas. Continua de baixo-astral, mas a vida segue.Na depressão, os sintomas estão presentes na maior parte do dia, por pelo menos duas semanas consecutivas”, explica Geraldo Possendoro, psiquiatra, psicoterapeuta e professor de medicina comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Ficar triste de vez em quando é necessário. Por mais que a gente goste da felicidade, estranho seria levar uma bronca do chefe, brigar com a melhor amiga e continuar feliz, como se nada tivesse acontecido. “Todas as emoções têm uma função. A tristeza é importante para ajudá-la a refletir sobre um problema e a encontrar um caminho para dar a volta por cima”, diz Suzy Camacho, psicóloga de São Paulo. Por mais chato que seja encarar o período nebuloso, depois dele tudo se renova. so, depois dele tudo se renova. “Pode esperar. Após uma fase triste, vem um novo amor, um novo emprego, uma nova amiga”, fala Suzy.
Quando a tristeza não passa
Ter depressão não é necessariamente o desfecho de uma fase complicada. Porém perdas importantes podem, sim, desencadear o processo. “O quadro não tem uma única causa, mas está relacionado com predisposição genética e histórico de vida. Em alguns casos, é comum a paciente ter passado por uma perda importante, de trabalho, de amor ou de dinheiro, mais ou menos um ano antes de os sintomas aparecerem. Mesmo assim, não é necessário ter uma situação limite para a doença surgir”, diz Tommaso. Sabe-se que nesse estado há a carência de neurotransmissores como serotonina e dopamina, responsáveis pela sensação de bem-estar. Mas o que acontece exatamente dentro do cérebro da mulher deprimida ainda é objeto de estudo.
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Sintomas que dão o alerta
O diagnóstico preciso de depressão só pode ser feito por um médico, um psiquiatra ou um psicoterapeuta. “O primeiro passo é descartar doenças físicas, como anemia e hipotiroidismo, que têm sintomas semelhantes”, explica Marco Antonio Brasil, psiquiatra, consultor do conselho da Associação Brasileira de Psiquiatria. No entanto, a presença de tristeza sem motivo, perda de prazer e mais três dos outros sintomas citados abaixo indica que é hora de procurar um profissional para avaliá-la.
1. Tristeza sem motivo: é diferente do sentimento que você tem quando alguma coisa muito desagradável acontece na sua vida, como perder o emprego ou terminar um relacionamento. Na depressão, você fica triste sem uma causa aparente.
2. Perda de prazer: há um desinteresse por atividades que antes eram apreciadas. Quem gostava de malhar fica longe da academia.
3. Dificuldade para dormir: pode ser para iniciar ou manter o sono, a insônia convencional, ou ainda o que os médicos chamam de insônia terminal, ou seja, você passa a acordar muito mais cedo do que de costume.
4. Alteração de apetite: a fome diminui ou aumenta muito.
5. Queda da libido: cai a vontade de fazer sexo e trocar carinhos íntimos.
6. Cansaço: você fica sem energia, como se estivesse com a pilha fraca.
7. Desinteresse nas relações pessoais: telefonemas dos amigos não são mais atendidos, você não vai aos encontros marcados e dá desculpas para não sair de casa.
8. Acha que a vida não vale a pena: tem idéias suicidas.
Está vendo como depressão é coisa séria? Então risque essa palavra do vocabulário e, quando a tristeza aparecer, tudo bem: você vai conseguir sair dessa.
Depressão pós-parto
Imagine os sintomas da depressão em uma mulher que acabou de ter um filho. Some a eles um mal-estar ao olhar para a criança que foi aguardada durante nove meses. Pense agora como essa mãe se sente. Essa é a depressão pós-parto, doença que atinge de 15 a 20% das mulheres. “A gestante espera que o nascimento de um filho seja um momento feliz. Quando isso não acontece, fica difícil administrar a culpa por não estar apegada ao bebê. É uma situação delicada, que dá vergonha, e por isso muitas pacientes demoram para procurar ajuda, o que atrasa o tratamento”, diz Joel Rennó Junior, psiquiatra, diretor do Programa de Atenção à Saúde Mental da Mulher, da Universidade de São Paulo (USP).
Embora existam alguns fatores de risco, como TPM acentuada, gravidez indesejada, uso de álcool, antecedentes de depressão, conflitos conjugais e primeiro parto, a doença pode ocorrer em quem vive bem com o marido e teve uma gestação normal. “A oscilação hormonal em algumas mulheres contribui para variações de humor. Mas não dá para saber exatamente qual é a causa”, diz Joel. Ao perceber os primeiros sinais, converse com seu ginecologista, que deverá encaminhá-la a um psiquiatra. São importantes o diagnóstico e o tratamento para preservar a saúde da mãe, do bebê e a tranqüilidade da família toda.
Produção: Giuliana Rocha. Cabelo e maquiagem: Rodolfo Silveira. Modelo: Grasiele Grassone / Ford Models.
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