Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

As 8 ciências da vida

Como ficar confortável no desconforto e outras lições aprendidas com um velho samurai

Por Samorai Atualizado em 12 Maio 2021, 17h25 - Publicado em 11 Maio 2021, 23h44

Eu não podia acreditar que o monge Takuan faria isso com Takezo. Ele o prendeu em um quarto, em uma solitária onde ele podia apenas ler. Achei uma injustiça muito grande e me coloquei no lugar dele. Um guerreiro muito habilidoso agora trancado. Mas depois entendi que o que ele aprendia ali é que não bastavam as habilidades com as armas, era preciso paciência e preparo espiritual. Precisava entender, além da ciência da espada, as ciências da vida. A espada seria o meio e isso muda tudo.

Estudar me fez crescer. Me fez aprender. Mas, os resultados só apareceram quando eu entendi a correlação desses estudos com o universo, e isso se dá através de princípios que estão tanto no movimento, minha ferramenta de trabalho, quanto na vida. A minha espada, ou meu caminho, foram vários, mas aqui quero destacar o trabalho com a reabilitação física por meio do treinamento 3Dimensional e a arte suave, o Jiu Jitsu. E vou usar os princípios e ensinamentos destes para explicar o que acredito neste universo.

Singularidade e Similaridade

Dois princípios fundamentais do movimento humano. O primeiro diz que todos somos únicos, isso faz com que cada processo de reabilitação também seja único, cada treinamento de performance, cada interação entre nós seja inédita, trazendo a correlação para vida. Esse principio aprendemos desde cedo com nossas mães na célebre frase: você não é todo mundo. Mais autoexplicativo impossível. O principio da similaridade diz que, embora singulares, somos mais parecidos que diferentes. Todos temos dois olhos e estão sempre no mesmo lugar. Duas orelhas, um coração, ou seja, temos uma humanidade que nos define, o que faz com que experiências de um encontro também sejam transferidas para outro. O que aprendi em uma reabilitação me nutre para a próxima, desde que eu não esqueça a singularidade. Logo, por mais que opostos, esses princípios coexistem. Nossa singularidade nos define, mas é a Similaridade que nos torna humanos.

Forças físicas

O princípio das forças físicas influencia o movimento afirmando que vivemos em um mundo regido por leis naturais que não podemos desprezar. Forças como a de reação do solo, a gravidade, a massa, o empuxo, o atrito, a ótica, todas elas afetam a maneira como o movimento acontece, e o não entendimento disso pode, muitas vezes, fazer com que forças que poderiam nos auxiliar sejam obstáculos e isso cause lesões. A vida também segue esse princípio de forma mais ampla, porque além destes impactos que já citei, ela sofre forças da sociedade, do mercado, da indústria, da natureza, do universo. Forças essas que não temos como mudar na maioria dos casos e para viver bem precisamos nos harmonizar com elas, a fim de que continuemos nosso processo de evolução e que elas não se transformem também em obstáculos. A ótica, por exemplo, nos ensina que todo ponto de vista é a vista de um ponto. E isso é uma enorme sabedoria em tempos tão polarizados.

“Load / Explode”

No movimento, esse princípio afirma que para nos mover o sistema precisa ser antes carregado (load) para depois explodir, acontecer, movimentar (explode). Então, se quero saltar e ir o mais alto possível, eu carrego esse sistema indo para baixo primeiro. Todos os movimentos são precedidos de carregamento e quanto maior for o “explode”, tão maior e mais eficiente deve ser o “load”. Na vida real é a mesma coisa. Para qualquer acontecimento devemos nos preparar antes. E assim fazemos com relacionamentos, montando negócios, na escolha das nossas profissões, em suma, durante toda a jornada. Somos livres para plantar (load), mas apenas colhemos o que plantamos (explode).

“Drive” e cadeia de reação

Todo movimento nasce a partir de um drive (guia) e dele parte uma sequência que chamamos cadeia de reação. Por exemplo, se eu estendo minha mão direita para te cumprimentar, minha mão direita seria o drive e, a partir da movimentação dele, toda uma cadeia de movimentos aparece. Nesse exemplo, porque quero estender a mão até você para o cumprimento, meu cotovelo se estende também, meu ombro flexiona e meu tronco roda para a esquerda. Se eu trocasse o drive para a mão esquerda, agora seria meu cotovelo e ombro esquerdo que se movimenta e meu tronco roda para o outro lado. Se ao invés de usar minha mão eu te cumprimentasse como se faz no Japão, o drive mudaria para a minha cabeça e toda a reação em cadeia também mudaria. Então se eu quero uma reação, eu preciso mudar o drive. E como isso se manifesta na nossa vida? O drive seria o nosso “mindset”, palavra em inglês que significa configuração da mente. De grosso modo, seriam os óculos com o qual vemos o mundo. Se usamos lentes de amor, a cadeia de reação será em função desse “drive”, mas se os óculos são de ódio, nossa reação assim será. Seguindo a mesma premissa, se quer mudar o movimento da sua vida, mude seu “drive” e a cadeia de reação sempre vai segui-lo.

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Outros princípios

Vários outros princípios acompanham o movimento e a vida. Temos o da mostabilidade, que diz que movimento e estabilidade devem caminhar juntos para maior eficiência. Na vida real também, cada mudança na sua vida vai exigir maior ou menor estabilidade, dependendo do tamanho dela. Pense em ter um filho, montar uma empresa ou mudar de país. Seguramente, sem estabilidade necessária, o risco aumenta, e mesmo que em um primeiro momento você não a tenha, entendendo ser um princípio, isso se torna um enorme motivo para buscá-la.

Temos também o Econcêntrico, que diz que o movimento acontece sempre por ações múltiplas de diversas partes do corpo e com isso um mesmo músculo pode experimentar contrações excêntricas e concêntricas ao mesmo tempo no mesmo movimento, por exemplo, o glúteo direito pode estar em uma ação concêntrica no plano sagital e excêntrica no plano transverso, basta para isso haver uma extensão do quadril associada a uma rotação interna deste. E isso acontece ao mesmo tempo. Todos sabemos que nossa realidade é assim também. Na nossa rotina diária coisas nos pressionam e nos expandem ao mesmo tempo. Agora mesmo, a pressão de escrever essa coluna no prazo está associada à descompressão da minha filha fazendo algum gesto de amor que me faz parar e curtir, porque sei que o tempo passa e alguns momentos não voltam mais. Na verdade, nenhum.

Água. Nosso corpo é na sua maioria água. Logo, água é nossa essência e seremos mais harmônicos quanto mais fluidos somos, mais adaptáveis, mais flexíveis. Em ultima análise, mais nós mesmos.

Retração e expansão também são da natureza do nosso universo e, por consequência, nossa também. A vida não é linear e quem já viveu já percebeu isso. Mas quem entendeu a natureza disso, não sofreu. Entendeu que para ter luz é necessário a sombra e abençoou todos os acontecimentos da vida.

Jiu Jitsu

Muitos esportes me ensinaram muito, mas nenhum como o Jiu Jitsu. A arte suave nos ensina que não importa se você está por cima ou por baixo, sempre há um meio de lutar e melhorar sua posição, e que em momentos difíceis não será na “brabeza” que você vai sair dali, mas colocando a cabeça no lugar, criando uma estratégia e esperando o tempo certo das coisas. E para isso, uma habilidade se faz necessária. Ficar confortável no desconforto. Essa, talvez, umas das maiores lições que usei na vida e que foi aprendida nos tatames do mundo todo.

Agora, quando olho para trás, entendo que Takezo só virou Musashi, o maior samurai do Japão, por causa do monge Takuan. Eu demorei para entender isso. Porque eu também era cheio dessa energia guerreira, que mal usada será sua tragédia. O mundo é como é e você deve se harmonizar com ele. E para isso, todos os momentos da sua vida são fonte de aprendizado sobre o mundo, o universo e você. Entender os princípios te conectará a esse todo e a Deus. Ou a qualquer força que existe, porque em uma observação rápida, o mundo também te mostra que ela existe. Ao longo da minha vida tive vários “Takuans”, que em um primeiro momento só me trouxeram mais revolta. Mas hoje, quando completo 44 outonos, consigo, como um velho samurai, olhar para trás e ver todos esses “ontens”, todas as primaveras, que muitas vezes pareceram inverno. E uma coisa fica claro, como ensina Eddie Vedder, outro dos meus “mentores”. Não importa quão frio seja o inverno, a primavera sempre chega. E esse é mais um dos milagres da vida. Muito obrigado, Takuan.

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