Samorai: o educador físico é o novo colunista da BOA FORMA Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

Coragem

Sem coragem só tem reclamação, fraqueza e esperança de que no ano que vem vai ser melhor. Mas como vai ser diferente se você está fazendo a mesma coisa?

Por Samorai 23 nov 2021, 20h29

Hey folks! Se tem algo que acredito é que tudo que o mundo te pede é coragem. Todas as pessoas que eu admiro têm a coragem como característica. E não pense que coragem é algo nato. Como tudo na vida, é algo que se adquire por meio de treinamento, foco e consistência, e sobretudo, com experiência. Posso falar por mim. Hoje acredito ser alguém muito ousado e corajoso, mas eu era bem medroso quando criança. Tão medroso que isso me incomodava. Tudo que eu queria ser quando criança era corajoso. Acho que a criança Samorai, o Junior, se orgulha de quem me tornei. O mais interessante é que coragem não é ausência de medo, mas ir mesmo com medo. É o seu controle sobre o medo. Ou o gerenciamento dele.

Uma vez, lendo a biografia do Kelly Slater uma coisa me chamou muito a atenção. O maior campeão da história do surfe mundial confessou ter medo de onda grande. Recentemente, li os 13 livros das crônicas saxônicas que narram a formação do que hoje conhecemos por Inglaterra. Ali é narrada a história dos reinos saxões e britânicos no século IX e uma coisa ficou muito clara. Naquela época, para viver era necessário ter coragem.

Pensando na história da humanidade, quase todo tempo a coragem foi um dos elementos fundamentais. Você saía de casa sem nenhuma garantia de voltar ileso. Os riscos e a insegurança eram tão naturais que a coragem talvez não fosse uma habilidade ou característica relevante e que chamasse atenção nas pessoas porque era inerente a todo mundo, quase um pré-requisito da vida. Isso me lembra aquele provérbio oriental: “Tempos difíceis fazem homens fortes; homens fortes fazem tempos fáceis; tempos fáceis fazem homens fracos; homens fracos fazem tempos difíceis; tempos difíceis fazem homens fortes”. Poderíamos trocar a força pela coragem. Tempos difíceis fazem pessoas corajosas; pessoas corajosas fazem tempos fáceis; tempos fáceis fazem pessoas medrosas; pessoas medrosas fazem tempos difíceis. Tudo que a vida pede é coragem.

Em 2002 eu era personal de um aluno muito querido que me recordo até hoje. O nome dele é Maurilio Lobo Filho. Não tenho mais contato, infelizmente. Eu era um garoto começando a dar meus primeiros passos profissionais, mais errando do que acertando, e ele já era um senhor, presidente de uma multinacional importante. Nossas aulas eram riquíssimas. Ele me ensinava tanta coisa. Adorava dar aula para ele porque quem mais aprendia era eu. Naquela época eu estava tentando me enquadrar a tanta coisa que não fazia sentido para mim. E ele me mostrava o mundo profissional. Ele me dava uma orientação e, acima de tudo, sempre me dizia para ser sempre eu mesmo.

No final do ano, em virtude do Natal, ele me deu um livro de presente. O livro se chama “Funky Business”. Esse livro mostrava, já naquela época, como o mundo mudava tão rápido e que a lógica do mundo que conhecíamos até então estava de cabeça para baixo. Isso foi muito inspirador para mim. Entretanto, junto com o livro veio um cartão de Natal, produzido pela própria empresa que ele era presidente, a Sara Lee Cafés, para presentear seus clientes e fornecedores.

No cartão ele escreveu alguma coisa bacana como votos de Feliz Natal e tal, mas o que estava como mensagem principal naquele cartão era uma frase que nunca mais esqueci: “Toda vez que você ver uma empresa de sucesso, saiba que ali, em algum momento, uma decisão corajosa foi tomada”. Esta frase me marcou. E muitas vezes na minha vida, quando precisei fazer uma escolha difícil de verdade (não aquela que nem era tão difícil assim, né), ela veio na minha cabeça. E no meu coração. Porque decisões difíceis não são racionais. São 3D.

Viagem no tempo e o ano agora é 2013. Decidido a fazer o GIFT Program do Gray Institute, entro na internet e consulto os valores e as condições. A entrada era 3.800 dólares, o que na época representava 10.800 reais. Olhei a minha conta bancária e tinha guardado 11.000 reais. Era tudo que eu tinha. E isso era só a entrada. Ainda teria que gastar uns 90.000 reais para quitar todas as despesas. Eu não tinha a menor ideia de como faria para pagar, mas eu tinha muito claro que seria um diferencial na minha vida. E se estou aqui escrevendo na Boa Forma é porque tomei a decisão corajosa na vida de me inscrever, e uma vez inscrito, só havia agora uma possibilidade. Fazer acontecer.

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Qual seria a chance de juntar 90.000 reais para poder fazer o curso se eu não estivesse inscrito e, como os americanos gostam de chamar “put skin in the game”, ou colocado a pele no jogo, uma versão mais elegante, mas não menos precisa do nosso colocar o traseiro na reta? Sem compromisso não há disciplina e eu queria muito fazer. Sem coragem não haveria quase nada no mundo. Sem coragem eu estaria ainda reclamando das poucas aulas que eu conseguia dar, dos poucos clientes, de pouca grana como consequência. Sem coragem não tem coluna na Boa Forma, não tem entrevista na TV, não tem workshops pelo Brasil. Sem coragem só tem reclamação, sentimento de impotência, fraqueza e esperança de que no ano que vem vai ser melhor. Mas aí eu te pergunto, como vai ser diferente se você está fazendo a mesma coisa porque não tem coragem de dar um passo diferente, ousado, decisivo? Albert Einstein chamaria isso de insanidade, fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes.

Muitas pessoas esperam muita segurança na vida. Para andar na corda bamba precisa de umas quatro cordas de segurança, uma rede de proteção embaixo, um corrimão do lado e que a corda não esteja em mais de um metro do chão. Isso efetivamente pode ser mais seguro, mas não te transforma, não te realiza, e não receberá aplausos. Muitas vezes, o que nos impede de dar um passo é o medo do fracasso. Já escrevi aqui sobre a benção do fracasso. Se estamos nessa vida para sairmos melhor do que entramos, precisamos avançar em searas que não dominamos e, para isso, precisamos aceitar que vamos errar, porque sem erro não há aprendizado.

Diversas vezes buscamos estar demasiadamente preparados antes de darmos o próximo passo, sem entender que o caminho se faz caminhando. Muitas pessoas gostariam de ter filhos, por exemplo, mas acham que não estão preparados para isso e vão adiando esse sonho, adiando esse sonho, até que a vida se encarrega de terminar com eles de vez. Acho que por isso que temos uma época de fertilidade durante nossa vida, senão procrastinaríamos a vida toda esperando estarmos “preparados”. Mas o fato é que o caminho te ensinará a caminhar. Ser pai ou mãe vai te ensinar a ser pai ou mãe. O seu filho vai te ensinar. Abrir uma empresa vai te ensinar a gerir uma empresa. Pilotar um avião vai te ensinar a pilotar um avião. Lutar te ensinará a lutar. As coisas não podem ser aprendidas apenas na teoria.

Sou expert em pilotar avião, mas nunca entrei em um. Manjo tudo de luta, mas nunca lutei com ninguém. Sei tudo sobre filhos, não tenho, mas tenho cachorros e sobrinhos. Quem tem filho acabou de dar risada de tamanha bobagem. Autoengano. Medo disfarçado de razão. Claro que não estou falando para sair se jogando na louca e caminhar na corda bamba sem nenhuma proteção, no alto de duas montanhas e vendado. Esse é outro tipo de insanidade. A preparação é muito importante. E a base de tudo. Para escrever essa coluna eu precisei aprender a escrever antes, mas para aceitar o convite de escrever uma coluna semanal, o pré-requisito mais importante não foi o português. Foi a coragem.

Para lutar um campeonato mundial de Jiu Jitsu e vencer, conhecer e masterizar as técnicas é muito importante, no entanto sem coragem não há possibilidade de êxito. Para existir a Inglaterra, o chá das cinco pode ser uma tradição, porém o que foi decisivo foi a coragem. Para sair daqui melhor do que entrou, não basta viver, tem que errar, cair, levantar, observar, amar, sofrer, sentir, sorrir, chorar e para tudo isso muitas capacidades, habilidades e técnicas são importantes e serão desenvolvidas no caminhar, mas definitivamente, sem coragem, não há evolução.

That’s all, folks!

Esse texto é uma homenagem a todos os alunos do Mentorship Samorai que um dia tomaram uma decisão de coragem e hoje colhem frutos dessa decisão. E também uma lembrança com carinho do querido Maurílio, que com aquele cartão me inspirou a ir mais longe.

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