Samorai: o educador físico é o novo colunista da BOA FORMA Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

Se coloco sal na água, quero ela salgada

Se algo não dá certo, devemos checar

Por Samorai 5 Maio 2022, 12h35

Hey, folks! Imagine você colocando açúcar no café e ele não ficando doce. Ou sal na água e o gosto nunca muda. Uma pimentinha naquela moqueca e o gosto permanece o mesmo. Qual seria a sua reação? Provavelmente diria que alguma coisa está errada. Esse sal ou esse açúcar não são nem uma coisa, nem outra. Essa pimenta então, fraca demais. Qual seria então sua reação a isso? Possivelmente checar o sal, o açúcar e a pimenta e usar outro que te entregasse o que você deseja, um café mais doce, uma água mais salgada ou uma moqueca mais apimentada.

Isso pode parecer óbvio e claro, mas o fato é que isso não acontece assim sempre. Em boa parte das situações da nossa vida não pensamos dessa forma. Muitas vezes seguimos fazendo ações, aplicando estratégias, utilizando técnicas e terapias que não estão entregando nada, porém continuamos fazendo e, pasme, defendendo-as! E, inclusive, fica do bravo com quem tenta te mostrar o contrário. E isso é muito mais comum do que o bom senso pode sugerir.

Outro dia, uma senhora marcou uma consulta no meu estúdio para que eu avaliasse a filha dela, que ainda adolescente já desenvolveu uma escoliose muito grande. Conversando com ela, eu soube que ela está sob os cuidados de um médico, que segundo ela é a maior autoridade em postura, há 4 anos. Desde que ela está sob esses cuidados e esse tratamento, os graus da escoliose dela aumentam todos os anos. Ano passado foram 15 graus. Após a minha avaliação, propus um trabalho 3Dimensional a ela, que de alguma forma era o oposto do que ela vinha fazendo.

Esse modelo de trabalho já testei milhares de vezes com diferentes clientes e sempre funcionou. Porém, por serem trabalhos concorrentes, não é possível que sejam feitos os dois simultaneamente. Se eu faço uma técnica que te faz dar um passo à frente e outra técnica um passo atrás, estamos sempre no mesmo lugar. Para podermos avaliar a eficácia de algo, não podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo, até porque toda técnica em um ser humano singular carece de ajustes, e se estamos fazendo muitas coisas perdemos a referência desses ajustes.

Conversei com ela e disse que esse trabalho poderia ser muito benéfico para a filha dela, mas que teria que parar o que vinha fazendo. Ela disse que não poderia porque já faz há anos. Ela não conseguiu perceber que essa estratégia não está funcionando com a filha dela, que todo ano ela piora. E isso não quer dizer que a estratégia é ruim. Quer dizer que não está atingindo o resultado esperado. E isso é óbvio. Mas o óbvio não é tão fácil de ver. A resposta dela foi que não fazia sentido o que eu estava falando porque o médico dela é o melhor do mundo. Quando a gente não quer ver, a gente usa argumentos até infantis. Porém o fato é que até hoje a filha dela sofre com esse problema, piora todo ano, e ela bate de porta em porta para buscar uma alternativa e sai de lá defendendo “o melhor médico do mundo”.

Casos como esses são comuns. No entanto, às vezes o cliente consegue ver o óbvio, mesmo que com uma ajudinha. Uma vez, uma pessoa tocou minha campainha e me perguntou se eu fazia RPG. Eu disse que não, mas que trabalhava com reabilitação de coluna, porém com treinamento 3Dimensional. E na sequência perguntei se ela queria RPG porque ama essa técnica ou se ela a queria como um meio de reabilitação. Porque se ela quer reabilitação eu posso oferecer, mas se ela faz questão de RPG, aí não posso enganá-la. Ela me disse que as duas coisas. Que ela faz RPG há 6 anos, gosta muito e que se não fosse isso estaria muito pior. Isso me acendeu uma luz. Disse que não tinha entendido. Perguntei por que ela começou o RPG há 6 anos. Ela me disse que tinha uma dor de coluna muito grande e que adorava correr. Começou o RPG e parou a corrida. Desde então continua tendo dores, mas elas não pioraram.

Perguntei se era esse o resultado que ela estava buscando. Ficar sem correr e ainda ter as mesmas dores. Ela me disse que não. Foi aí que ela caiu na realidade. O que ela estava fazendo não estava funcionando. Ela queria melhorar e voltar a correr. E talvez não tivesse mais tendo tanta crise, não pelo RPG, mas sim por não correr mais. Disse que se ela quisesse outro resultado teria que fazer algo diferente, porque o que ela estava fazendo não estava atingindo os resultados esperados. Por mais que isso estivesse na cara dela, até essa conversa ela não tinha percebido.

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Convencida pelo terapeuta que era assim mesmo, que ela não poderia correr mais, ela simplesmente aceitou. E como diz a frase que fica bem no meio da sala do meu Instituto, “se você acha que pode ou que não pode, de toda forma você está certo”. Ela achou que não podia e estava colhendo justamente isso. O “não pode”. Bem, diferentemente da menina com escoliose, hoje ela se diverte muito correndo provas de rua, não tem mais dor e entendeu o conceito de que uma coisa que funciona, traz o resultado desejado. Não é necessário espremer as palavras para tentar explicar o inexplicável.

Uma outra vez, uma mulher veio, por indicação de uma amiga, porque estava há muitos anos com dores nas costas. No dia da consulta ela veio com o marido que é médico. Começamos a conversar e eles me falaram de todos os tratamentos que ela já tinha feito nos últimos 12 anos. Que todos os melhores tratamentos disponíveis ela já tinha realizado. Que ele traz sempre o que é de mais atual na ciência e etc. Entretanto, ela mal saía da cama. Vivia dopada de remédios para dores e, nessas condições, ficava acordada umas 6 horas. Já não namoravam mais, não saíam, não viajavam. As dores dela estavam afetando até o relacionamento deles.

Da minha parte, mostrei como eu pensava o treinamento sob esta ótica 3D. Você, leitor já familiarizado com nossa forma de pensar, já absorveu que é muito diferente do modelo clássico de pensamento. Com alguém tão metódico como esse médico, marido da mulher em questão, essa forma de pensar o incomodou. Na mesma hora ele disse que isso não ia funcionar, que ele fez tudo que tem de mais de ponta com ela. Que aquilo era o certo e isso não. Depois de uma boa discussão, eu disse que ele deveria estar feliz por eu estar falando algo que ele desconhecia, porque tudo que ele conhecia, ele já tinha aplicado e claramente não funcionou, e se eu propusesse a mesma coisa, qual resultado ele esperava colher? De novo, o óbvio. Ele continuava muito resistente, porém a esposa, que é quem sentia as dores, ao ouvir aquilo disse que queria tentar. Começamos o nosso tratamento e ao final de 2 semanas eles foram fazer uma trilha em Itatiaia e em 1 mês parou de tomar remedos. Nada mal para quem não conseguia nem andar e vivia dopada, né? Se quiser saber mais dessa história, clique nesse link aqui.

Você deve estar pensando que eu estou aqui falando que o treinamento 3D é melhor que todas essas técnicas já citadas acima. E de certa forma estou mesmo. Mas não porque as técnicas 3D são superiores, mas porque a ciência 3Dimensional tem um olhar que essas não têm e um desapego dela própria. Para nós, nosso compromisso é com o resultado. Não com a nossa técnica. Esse é um olhar importante. Se algo não funcionar desde o começo precisamos mudar, porque se coloco sal na água, mesmo que não seja a quantidade que eu quero ainda e precise colocar mais, ainda assim ela já tem que me mostrar que estou no caminho certo. Com a reabilitação e com tudo que fazemos na vida também.

Certa vez uma senhora, mãe de um grande amigo meu, sofria de dores horríveis na coluna. Começou o tratamento aqui conosco e fiz mais ou menos o que sempre fiz. Resultado: nada. Mudei um pouco e… nada. Fiz outra tentativa e nada. Fui tentando diversas coisas e nada dava certo. Comecei a reduzir o treino a quase nada e de lá começamos o ponto de partida.

Hoje ela não sente mais dores e desfila com seu salto alto feliz e contente para todos os lados. E de quebra ainda perdeu uns 10kg. E esse é o ponto. Nenhuma técnica é uma bala de prata infalível. E nosso compromisso nunca pode ser com a técnica, e sim com o resultado. Esse é o olhar 3D. Quando me perguntam se eu faço yoga ou pilates, respondo que faço o que é preciso e não o que eu quero. Se precisar de yoga, será yoga, se precisar de pilates, será pilates. E se precisar de um abraço, será um abraço. Então não me prendo a nada. Apenas ao resultado, que no fundo é o que o cliente veio buscar. Uma vez coloquei uma cliente até para dormir porque era isso que ela precisava. Você pode conferir essa história aqui.

Isso é uma constante. Não só no meu trabalho, mas nas nossas vidas. Albert Einstein, uma das minhas maiores inspirações, costumava dizer que loucura é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes. Nesse caso podemos ir além. É fazer a mesma coisa e sequer perceber o resultado. Será que não fazemos isso nas escolhas dos nossos trabalhos, relacionamentos, cuidados com nossos filhos, escolas para eles, terapias e tal? Será que nosso valor está em todos os lugares menos no resultado do que estamos fazendo? Será que, se colocamos sal na água e ela não fica salgada, alguma coisa pode estar errado com nosso sal? Será que após ler esse texto eu vou tentar enxergar alguma outra solução e fazer algo diferente ou vou defender minhas escolhas, mesmo que elas tenham se mostrado equivocadas, muitas vezes por mero orgulho? Será, será…

Forte abraço,
Samorai

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