Estilo de Vida

O efeito Covid-19 na carteira e 7 passos para um planejamento financeiro

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A pandemia do coronavírus suspendeu nossos planos e está arrasando com a economia de todos. Saiba como enfrentar esse cenário e manter o planejamento financeiro sob controle

Um dia você acordou e o mundo não era mais o mesmo. A pandemia do novo coronavírus havia chegado ao Brasil e com ele, a realidade do isolamento social. 

O impacto dessa medida no aspecto emocional é imensurável, mas nas finanças o baque foi bem objetivo: muitas pessoas perderam a única fonte de renda enquanto outras tiveram cortes salariais. E mesmo quem continua empregado, sente a pressão do futuro incerto. 

“Diante de tantas mudanças, nosso espaço mental está tentando entender o que aconteceu. E é claro que pensar em como se organizar financeiramente é uma tarefa que exigirá ainda mais energia. Mas, acredite, ter clareza é o melhor norte para criar soluções”, afirma Jacqueline Ramos, economista  e consultora em planejamento financeiro, do Rio de Janeiro.

Como pontua o pós-doutor em finanças e professor da Escola de Negócios e Seguros (ENS) e do Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Heitor Campani, não temos a cultura de educação financeira o que acaba refletindo no desenvolvimento de hábitos financeiros ruins e decisões prejudiciais que impactam o bem-estar psicológico do indivíduo. 

Se até hoje você não teve sucesso em anotar os gastos ou guardar uma reserva financeira, a hora de agir é agora. “Nunca é tarde para uma nova tentativa. Estamos enfrentando um momento difícil, que pede auto reflexão. Precisamos nos acolher. O julgamento não trará nenhuma solução”, aconselha Jacqueline Ramos. 

Emoção e a relação com dinheiro

As finanças são um reflexo das emoções. Administrar o dinheiro depende de um conjunto de fatores, de como cada um direciona os pensamentos. Existem dois modelos predominantes de pensamento:

  • o automático, emocional, que usa memória associativa buscando explicações coerentes na memória e usa menos energia mental e age.
  • o racional, mais lento, domina os impulsos e demanda bem mais energia para ser acionado – “ele é mais sofisticado e é responsável pelo autocontrole”, diz Jacqueline. 

Por isso, não existe uma receita de bolo do tipo “é só gastar menos do que o dinheiro recebido e poupar”. As finanças são um reflexo das emoções e administrar a renda depende de um conjunto de fatores; de como cada um direciona os pensamentos. 

Reflita sobre os últimos meses e relembre os momentos de estresse, ansiedade, tristeza. Possivelmente compras impulsivas, indulgências – “eu mereço! Hoje foi um dia daqueles” – vão aparecer no extrato bancário.

7 passos para um planejamento financeiro

O plano de ação a seguir é prático e efetivo para ajudá-lo a enfrentar com menos turbulência a quarentena. De quebra, trará ainda autoconhecimento e novos hábitos financeiros.

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(Unsplash/Reprodução)

1. Sinalize as três maiores despesas

Identifique quais são as três grandes contas que você tem que pagar atualmente. Carlos Heitor aconselha começar a partir daí. Aluguel, financiamento imobiliário, IPVA, financiamentos, educação, entram nessa lista. Em seguida, elenque todos os demais gastos.

2. Analise o extrato bancário e a fatura do cartão

“O maior desafio é sempre alocar os gastos dentro da receita. É preciso rever minuciosamente cada compra, principalmente quem teve um corte brusco nas finanças”, diz Carlos Heitor. Separe cerca de uma hora e olhe os extratos bancários dos últimos dois, três meses. Agora, anote tudo. Supermercado, delivery, aplicativos de transporte, higiene e cuidado pessoal e lazer. 

3. Faça uma projeção

Com base nos últimos meses, de quanto você precisaria para se manter confortável, no mesmo padrão de vida? Calma, não se assuste. 

4. Corte as despesas

Feche a torneira de gastos. Reavalie, repense: se você tem Wi-Fi e está trabalhando em home office, ainda precisa de um pacote de dados 4G gigantesco? E o pacote de canais da TV por assinatura, é mesmo indispensável com tantas opções de streaming por demanda? Cozinhar é mais barato que o delivery, e assim por diante.

Para ajudá-la a ver com clareza para onde tem ido seu dinheiro, não tem como fugir dela, a temida planilha de despesas. “A tarefa não é das mais prazerosas, é verdade. Mas basta preenchê-la a cada duas semanas. Não é preciso fazer isso diariamente, seria exigir demais. Existem modelos prontos, que você pode adaptar às suas necessidades, ou crie uma do zero.”, ensina Annalisa Blando Dal Zotto, planejadora financeira pessoal e embaixadora da Associação PLANEJAR, de Santa Catarina. Para manter o controle, evite usar moedas físicas e utilize apenas os meios digitais, que mantém tudo registrado, seja no débito ou no crédito.

5. Compre apenas o essencial

“Com a sensação de impotência que o cenário atual gera é fácil perder a capacidade de pensar em como pagar as contas e cometer deslizes que acabam sendo justificados mentalmente por aliviarem o sentimentos negativos”, diz Annalisa. A ansiedade, o medo do futuro e até mesmo o tédio são estopins para compras impulsivas. O antídoto é só um: racionalizar. Você pode encher o carrinho virtual, mas espere um dia, ao menos algumas horas, antes de clicar em comprar. “70% das pessoas que usam essa técnica desiste”, diz a especialista. 

Veja bem, de forma pragmática, quem pôde fazer home office e está em isolamento social, não vai precisar dos lançamentos de sapatos da nova coleção. “Existem três perguntas a serem feitas: eu posso? eu preciso? eu quero? Muitas vezes precisamos e queremos, mas não podemos pagar pelo produto. E teremos que lidar com a frustração”, fala Carlos Heitor.

Crie barreiras que deem ao cérebro alguns segundos a mais para a tomada de decisão: exclua o cartão de crédito dos aplicativos de delivery e de aplicativos de pagamentos por aproximação digital e leitura de QR Code (Apple Pay, PicPay, Iti). Sim, eles facilitam a vida, mas são armadilhas para os momentos de impulsividade também.

6. Não atrase os pagamentos. Renegocie

“Esqueça a vergonha, isso é bobagem. Muita gente acha que é melhor atrasar os pagamentos e que o ato gera argumento para negociar, mas é exatamente o contrário. Pague as parcelas, apólices, boletos do mês e entre em contato com o banco, com a empresa, o que for, e seja honesta: as finanças encurtaram, ´não consigo mais esse valor. O que podemos fazer?´ Quando seu perfil é passado para o de devedor o tratamento é diferente”, ensina Carlos Heitor. 

Essa é uma prática comum, e é possível até mesmo espaçar as parcelas de financiamentos e “jogar” uma, duas parcelas para o fim do contrato, explica Annalisa. Negociar contrato de aluguel e pedir um desconto pelo tempo que a situação de calamidade pública, como é a pandemia, durar no país, é outra atitude possível. 

Outra dica dos especialistas é a possibilidade de portabilidade de financiamentos. É possível transferir o contrato de um banco para outro, que ofereça condições e juros menores, por exemplo.  O que não dá é esperar que as instituições te procurem. A atitude tem que partir de você.

7. Fuja do pagamento mínimo e do cheque especial

Vá agora para a frente de um espelho e repita: “nunca, jamais, vou pagar apenas o valor mínimo da fatura do cartão de crédito. Os juros são altíssimos e o meu eu do futuro vai agradecer”. Como falamos lá no começo, nosso cérebro quer nos proteger, evitando o desconforto a todo custo. O economista Herbert Simon foi laureado em 1978 pelo Prêmio Nobel de economia pela Teoria da Decisões, que explica que a racionalidade é limitada. Em resumo, nossas decisões tem o objetivo de alcançar o máximo de bem-estar. Por isso o cartão de crédito deu tão certo na sociedade: temos o prazer de compra imediata enquanto a dor do pagamento é jogada para o futuro. 

A armadilha são os juros. 

Para não cair na tentação, converse com o gerente e diminua (ou melhor, elimine) o cheque especial da conta bancária e mantenha o pagamento da fatura do cartão em dia, sempre o valor total.