Samorai: o educador físico é o novo colunista da BOA FORMA Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

Reabilitação não é linear

Por Larissa Serpa 6 abr 2022, 09h46

Hey, folks! Todo mundo que trabalha com reabilitação ou que tem alguma lesão para reabilitar (ou seja, quase todo mundo), já se deparou com esse cenário. A pessoa tem uma dor em algum lugar e começa um processo de reabilitação. Se ele funciona (que não são muitos em função da maioria deles tratar apenas os sintomas), a pessoa começa a melhorar, volta gradativamente a fazer as coisas que havia parado, vai tendo esperança da melhora, até que um dia: POW! A dor volta, como há muito tempo não acontecia. Na mesma hora vem a desesperança. Toda vez que penso que vou melhorar, a dor volta. Isso se dá por alguns fatores.

O primeiro deles é porque, muitas vezes, por sentir dor a pessoa se priva de tudo que gostava de fazer. Para de surfar, de dançar, de jogar bola, de caminhar pelas ruas, de brincar com os filhos. O estágio é tão crítico que tudo isso, por mais que ela ame fazer, está completamente fora de cogitação. Porém, se ela entra em um programa eficiente de reabilitação 3Dimensional, ela começa a melhorar dia após dia e vai percebendo que a dor está melhorando, vai se sentindo capaz de retomar a vida normal e, um dia, ela faz aquela tão sonhada tarefa novamente.

Normalmente, dado o histórico recente, ela começa com cuidado. Volta para casa e percebe que foi tudo bem. Que ela se sentiu bem. Fica feliz e pensa que amanhã vai fazer novamente. Entretanto, como ela já viu que melhorou, agora ela enfia o pé no acelerador. Depois de tanto tempo se privando, agora ela quer recuperar o tempo perdido. E de uma só vez. Então “bora” surfar por 5 horas, se acabar a noite toda dançando de salto, jogar três partidas de futebol. No dia seguinte, a dor vem e a pessoa pensa que ela nunca vai se curar. Quando acha que vai dar, vem a dor e esmaga todas as esperanças.

A questão aqui é que reabilitação é progressiva. Quando algo está doendo, significa que a harmonia de seu corpo foi quebrada e algumas capacidades 3D foram perdidas. Sendo assim, para algumas tarefas, a perda dessas capacidades inviabilizará o corpo de desempenhá-las. E se mesmo assim insistimos em fazer, a resposta do corpo a essa desarmonia será a dor. Porém, com o passar do tempo e com a reabilitação 3D, essas capacidades vão ganhando performance, possibilitando realizar algumas tarefas que antes estavam inviabilizadas.

Por exemplo: ontem doía para andar, aí você inicia o processo de reabilitação, vai ganhando as capacidades perdidas e agora é possível voltar a caminhar sem dor. Inicialmente alguns passos e muito em breve, o tempo todo. Com a progressão da reabilitação a corrida começa a aparecer. Um pouquinho por vez até que seu corpo está livre para correr. Então chega o dia tão sonhado. A volta ao futebol. Você joga 15 minutos, meio sem saber que seu corpo tem capacidades para pouco mais que isso. Ele ainda está em um processo de reabilitação. Tudo dá certo, você volta para casa feliz. No dia seguinte, você tem certeza que tudo está bem e joga por 1h30. E acorda cheio de dor. A mesma que você sentia quando começou o processo de reabilitação. E você desanima e acha que sua reabilitação não está funcionando. A questão é que ela é gradativa e progressiva e sua volta às atividades também tem que ser.

O segundo fator é pelo fato de que reabilitação não é linear. Isso significa que todo processo de reabilitação não sobe e nem desce em uma reta, mas em oscilações, como um gráfico de ações. Você já viu um? É um zigue-zague, para cima e para baixo. E por que isso é assim? Essencialmente porque os valores de uma ação são definidos e influenciados por infinitas variáveis. E muitas delas nem estão no seu controle. Uma ação sofre impacto de muitas coisas. Uma política econômica do governo pode aumentar ou diminuir o valor de uma ação, assim como a entrada de um novo concorrente nesse mercado, uma nova política de governança, a criação de uma nova tecnologia, guerras e até uma pandemia.

Pense em como valorizou o mercado de produção de ventiladores hospitalares e empresas de entregas durante a quarentena. Por outro lado, o mercado de turismo sofreu uma baixa histórica. E quem poderia antecipar isso? Pois bem, isso tudo para te mostrar que sempre que algo sofre influência de muitas variáveis, ele nunca será linear. E a reabilitação é assim. Mas para entender sobre reabilitação, vou reforçar a minha definição sobre ela que sempre abordo aqui, visando um melhor entendimento do tema.

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O que é reabilitação? Para mim, reabilitar é dar autonomia. E para prover mais autonomia precisamos ganhar performance em corpo, mente e espírito. Isso quer dizer que para ganhar essa autonomia, toda melhora de qualquer capacidade me possibilitará caminhar em direção a esse objetivo. Por exemplo, se eu tenho uma dor no joelho, aumentar a mobilidade, a força, o controle de movimentos, a coordenação, a resistência, a resiliência, a confiança, a coragem, a autoestima, as estratégias para obtenção de algum resultado, a felicidade, a segurança e qualquer outra capacidade me prove mais autonomia e, por consequência, reabilitação.

Entretanto, o contrário se faz verdadeiro. Qualquer perda de capacidade me limita. E assim como as ações de uma empresa, em muitas dessas variáveis eu não tenho controle. Como uma empresa, posso melhorar minha governança, mas não posso controlar uma pandemia. Na reabilitação também. Posso fazer um treino 3Dimensional, que trabalha muitas dessas capacidades, mas não posso impedir que um ente querido venha a falecer ou que eu pise em falso em um buraco e perca capacidades do meu tornozelo em função de uma torção. Essa torção, inclusive, pode me gerar perda de capacidades emocionais, visto que comprometerá minha viagem de férias tão programada e desejada há muito tempo. Ou me impedir de participar de um campeonato que venho treinando fortemente todos os dias. O que quero dizer aqui é que infinitos fatores influenciam nossas capacidades e também nossas dores. Uma pessoa com dor nas costas pode ter sua dor agravada se recebe uma notícia ruim ou se faz frio. Por isso, por melhor que seja um processo de reabilitação, ele sempre caminhará com altos e baixos. Essa é sua natureza.

Um terceiro fator tem a ver com a percepção de melhora. Quando uma pessoa tem dor e procura um profissional para lhe ajudar, o desejo dela é que ela não sinta mais dor. Dessa forma, se não sentir mais dor, significa que está bem e se vier a sentir dor, significa que está mal. Como se a vida fosse assim, binária. Porém, é impossível, e até não desejável, que a pessoa nunca mais sinta dor. A dor faz parte de nós e precisamos ressignificá-la para termos a autonomia que buscamos. Já falei sobre a benção da dor aqui. Para facilitar esse entendimento vou fazer uso de um exemplo.

A pessoa te procura com uma dor na lombar. A primeira coisa que ela diz é que sente dor lombar e gostaria de não mais senti-la. Da forma como é colocado, parece que a lombar dela está sempre doendo, mas não é verdade. Quando a pessoa diz que a lombar dela dói, precisamos limpar essa informação. Muito provavelmente ela dói em determinados movimentos ou posições e não dói em outras. A primeira coisa a fazer então é definir quando ela dói. Ao fazer isso já caminhamos no processo de reabilitação de uma lombar que dói para uma lombar que dói quando eu abaixo ou sento, por exemplo. Entretanto, é importante ressaltar aqui que conseguimos auferir isso em cenários que conhecemos e podemos simular na avaliação, mas existem muitos que não temos essa informação. Por exemplo, não sabemos se a lombar desta pessoa dói quando ela dirige por 10 horas.

Então, o aluno vai percebendo e tendo uma qualidade de vida melhor, porque conforme o processo de reabilitação evolui, ele ganha performance nas suas capacidades que vão permitindo realizar tarefas que antes não estavam sendo possíveis. No entanto, ele ainda não pode dirigir por 10 horas e não sabe disso. Até que um dia, por uma necessidade, ele precisa fazer uma viagem a trabalho e dirige por muito tempo. Após 3 horas de viagem ele começa sentir uma dor e 2 horas depois esta se torna insuportável, tornando o restante da viagem um sofrimento. Nesse momento, o mundo cai sobre a cabeça dele, porque ele imaginava que não sentiria mais essa dor aguda e inviabilizante e, como voltou a sentir, acredita que nada no tratamento esteja funcionando. E que ele está condenado a sentir essa dor para sempre.

Essa perda de performance emocional agora (falta de esperança) torna esse cenário pior. Ele começa a faltar na reabilitação, se entope de remédios e seu processo anda muito para trás. O fato que ele não percebeu: que essa dor pode ter tanta intensidade quanto a dor que ele sentia antes, mas não tinha a mesma natureza. Antes da reabilitação ele sentia essa dor sempre. Quando andava um pouco, quando transportava algo, quando sentava por 10 minutos. Dessa vez, ela apareceu em uma tarefa que, pode parecer simples, mas dirigir por 10 horas exige muito da coluna. Hoje ele já pode correr, carregar coisas pesadas e fazer muitas outras atividades que antes estava limitado. Pode até dirigir por umas 3 horas sem dor, mas não por 10 horas. Ou não ainda. Mas como ele não faz essa avaliação, para ele, antes da reabilitação ele tinha dor e agora também, logo não está funcionando.

Dor sempre vamos ter. Nosso corpo sempre vai encontrar seu limite em alguma atividade ou movimento. A dor, inclusive, é essencial a ele. Por isso, para que uma reabilitação funcione, é necessário que as pessoas envolvidas entendam que esse é um processo gradual e progressivo. Não um interruptor on/off. Precisamos saber se estamos caminhando, se fazemos mais coisas que ontem e trabalhar para sempre empurrar esses limites, mas sempre sabendo que esse é um processo que não é linear, que sofre muitas interferências e, como uma pandemia, muitas vezes não podemos prever.

Forte abraço,
Samorai

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