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Amor (próprio) sem tamanho, por Amanda Souza

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A consultora de moda e influencer Amanda Souza faz reflexões acerca de autoestima e amor próprio

Nós nunca estamos seguras

Está intrínseco no meu ser feminino acreditar que a culpada sou eu? Nascemos assim? Com a culpa na carne?

Por Amanda Souza
27 fev 2026, 09h00 •
Nós nunca estamos seguras
Nós nunca estamos seguras | (freepik/Freepik)
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  • Nós nunca estamos seguras. E viver num corpo feminino é assustador demais.

    Vivi, em um ambiente que eu considerava seguro, uma situação muito desconfortável, daquelas que só um corpo feminino pode entender.

    Em meio a tantos discursos de liberdade, da geração de mulheres que pode muito e deve poder muito, que nossa roupa não nos define, que podemos e devemos ir e vir como bem entendermos, que NÃO É NÃO, que TALVEZ TAMBÉM É NÃO, e que o sim, se acontecer, será bem nítido, sonoro e claro… um homem qualquer invadiu meu espaço.

    Ainda não entendo o que o fez pensar que ele podia fazer aquilo. Nenhuma justificativa me parece válida. Ele não tinha intimidade comigo. Eu estava acompanhada do meu namorado.

    Era um ambiente familiar. Minha roupa era curta. Minha guarda estava baixa. Eu estava sorrindo, porque ousei estar feliz e me sentir livre dentro do meu próprio corpo.

    Mas parece que talvez esse tenha sido o problema.

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    Já revisitei essa situação inúmeras vezes na minha cabeça, buscando, por incrível que pareça, o erro em mim. Levei para a terapia. Tirou meu sono. E agora está aqui, neste texto.

    Por que, cargas d’água, eu, a vítima, passei tanto tempo buscando um erro meu para justificar uma violação gratuita do meu direito de ser eu?

    Está intrínseco no meu ser feminino acreditar que a culpada sou eu? Nascemos assim? Com a culpa na carne?

    Eu deveria estar procurando justificativas para o que aquele homem achou que tinha permissão de tentar fazer?

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    Eu, uma mulher que cresceu, vive e trabalha em prol da liberdade feminina, caí na armadilha de acreditar que minha roupa, minha simpatia, minha desenvoltura são um chamariz para o abuso?

    Esse sentimento não deveria ser meu. Eu sinceramente não sei de onde ele veio. Mas, automaticamente, tomou conta de mim e segue sendo motivo de reflexão.

    Será que esse homem tem noção da violência que cometeu? Talvez não.

    Eu não consegui reagir como gostaria. Não devolvi o constrangimento. Não fiz um escândalo para deixar claro o tamanho do que estava acontecendo ali. Eu só fiquei chocada. Paralisada. E, imediatamente, senti culpa.

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    Não lembro exatamente do rosto dele. Nem do nome. Mesmo horas antes tendo sido apresentada àquele infeliz.

    O que me vem à cabeça é a invasão do meu espaço, do meu corpo, a vergonha, a culpa e a dúvida. Essas emoções deveriam estar com ele e não comigo.

    Eu só estava feliz. Pulando carnaval. Mas, na mala de volta, além do glitter que não sai depois de inúmeros banhos, trouxe também essa memória horrível.

    Uma bagagem que não deveria ser minha, mas que virou mais uma marca no meu corpo feminino, preto, curvilíneo, gordo, que é sempre hipersexualizado e marginalizado, consciente e inconscientemente.

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    Não posso, não vou e me recuso a me desculpar por existir. Tampouco vou revisitar essas situações buscando falhas minhas.

    A culpa é de um sistema que cria meninos para não serem meninas, justamente porque mulheres são vistas como objetos: de desejo, de poder, de dominação, tanto faz, mas nunca igualdade, humanas, dignas de respeito.

    A culpa é da cultura do machismo.
    Não é da minha roupa.
    Não é do meu sorriso.
    Não é da minha liberdade.

    Eu estava vivendo.
    Livre.
    Feliz.
    No meu direito.

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    E isso JAMAIS SERÁ UM CONVITE.

    Que este texto encontre quem viveu algo parecido e possa amenizar essa sensação. Você não está sozinha. E você não tem culpa.

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