Equilíbrio

COVID-19: Flexibilizou geral — será que já é seguro, mesmo, sair?

Como deve ser nossa vida social de AGORA até uma vacina, mantendo relações com segurança

por Thaís Valverde | Ilustração Erika Lourenço Atualizado em 9 nov 2020, 16h17 - Publicado em 9 nov 2020 09h00

Chegamos ao marco de quase oito meses de pandemia, dividida em alguns períodos com mais restrições e até medidas de lockdown em algumas cidades do Brasil. Mesmo diante de algumas flexibilizações de atividades, o medo e isolamento social permanece na rotina de muitas pessoas. A gente foi bombardeado de informações sobre como se proteger mas, a cada semana, as orientações parecem que vão mudando, à medida que descobrimos mais sobre o Covid-19. Ao mesmo tempo, a necessidade de contato pessoal permanece. A dúvida que fica é: com a flexibilização, será que já é seguro, mesmo, sair agora?

O medo do exterior te persegue?
O medo do exterior te persegue? Klaus Vedfelt/Getty Images

A jornalista e produtora de conteúdo Gabriela Bávaro têm saído para trabalhar duas vezes por semana. Apesar disso, ela não se sente confortável para fazer nenhuma outra atividade fora de casa, ainda mais as que envolvem encontrar outras pessoas. “Quando preciso sair de casa e vejo na rua pequenas aglomerações, em que as pessoas estão em bares, sem máscara, me dá muita agonia.”

Gabriela, como muitas pessoas, tem sentido a pandemia dividida em diferentes fases: no início com muito medo, ansiedade, tristeza. Mas, hoje, tenta, com ajuda da terapia, lidar com os novos sentimentos, de insegurança e até mesmo cansaço da pandemia (o famoso “de saco cheio disso tudo”).

Covid-19 e saúde mental

Segundo uma pesquisa feita na Europa pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a Covid-19 está cobrando um alto preço emocional, gerando níveis crescentes de apatia em algumas populações — estima-se que essa “fadiga da pandemia” chega a 60% da população em alguns grupos. Mas a organização alerta que, apesar de cansadas, as pessoas devem manter os esforços para combater o vírus — lavando as mãos, cobrindo o rosto com máscaras e adotando o distanciamento social.

“Às vezes, fico me questionando se estou exagerando em ainda ficar restrita com algumas coisas”

“Às vezes fico me questionando se estou exagerando em ainda ficar restrita com algumas coisas, mas prefiro respeitar o meu tempo. E estar em casa me trouxe coisas boas, a de se conectar com o meu lar e comigo mesma”, conta a Gabriela.

É preciso ir se adaptando, aos poucos, à ideia de sair de casa
É preciso ir se adaptando, aos poucos, à ideia de sair de casa Klaus Vedfelt/Getty Images

A terapeuta sistêmica Louise Madeira, que também apresenta o podcast New.Me, diz que conseguiu identificar alguns tipos de pessoas e a formas como reagiram à pandemia.

“Temos três tipos de pessoas: as que não tiveram um recurso emocional e sempre construíram a ideia de não ficar em casa, estão ‘de boa’ na rua e em aglomerações, e tentam provar que não há problema; tem também um pequeno grupo de pessoas que conseguiu lidar com a reclusão de uma forma saudável e continua bem, embora cansadas, mas que pensa que ‘se já esperou até agora, consegue mais tempo em casa’; e um terceiro grupo que de fato adoeceu na reclusão, que tem pavor da ideia de voltar ao mundo, e passou a achar que fora de casa é totalmente perigoso.”

“A um grupo que de fato adoeceu na reclusão e tem medo de voltar às ruas”

Assim como há diferença entre pessoas com alternadas visões, a pandemia também afeta de forma diferente crianças, jovens, adultos e idosos. De acordo com estudos publicados no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, pela Dra. Maria Elizabeth Loades, que analisou dados de crianças em isolamento por diversas razões desde o ano de 1946 até os dias atuais, a reclusão aumenta o risco de depressão de 0,25 a 9 anos depois do fim do isolamento.

Segundo a conclusão dos estudos, é muito importante o acompanhamento durante e após o isolamento, observar alterações de comportamento e humor. Para, se caso alterações sejam notadas, haja a procura pelo auxílio médico e psicológico das crianças.

O isolamento aumenta o risco de depressão de 0,25 a 9 anos depois do fim da reclusão.

“Entre os jovens que atendo, na faixa dos 30 anos, percebo que toda essa situação afeta o presente deles, as atividades que faziam ou pretendiam a curto prazo. Já entre os idosos, ela afeta o futuro, o tempo de vida, a solidão”, explica Louise.

Para a psicóloga, é um momento que lidamos com muitas perdas, tanto as de vítimas do vírus, como a da liberdade, convívio social, rotina, planos etc. E é imprescindível aprender a lidar com a perda, aceitar o que não tem como voltar, e tentar ressignificar o que for possível. “As reinvenções e ressignificações são pessoais, do casal ou da família, são aquilo que encontramos emocionalmente para sobreviver bem e que nos fazer escapar da pandemia com uma certa saúde. Por exemplo, para as crianças, os pais que foram mais pacientes nas aulas online, resinificaram a perda da aula presencial.”

Síndrome da cabana

Vá no seu tempo e com um passo de cada vez
Vá no seu tempo e com um passo de cada vez Klaus Vedfelt/Getty Images

Mas, apesar dos efeitos para a saúde mental serem muito reais, também são inegáveis os perigos físicos da pandemia. E, para algumas pessoas, o retorno à rotina de antes da pandemia de covid-19, mesmo com medidas protetivas, podem causar um fenômeno que os psicólogos chamam de “síndrome da cabana“, uma expressão que surgiu no início do século 20 e serviu para relatar vivências de pessoas que ficavam isoladas em períodos de nevasca no Hemisfério Norte e depois tinham que retomar o convívio. No presente, pode afetar trabalhadores que estão sempre afastados em razão do ofício, como por exemplo os empregados em plataformas de petróleo.

Apesar do nome, a “síndrome da cabana” não é uma doença e nem é considerado transtorno mental, mas um acometimento, um estresse adaptativo entre pessoas que possam passar por dificuldades emocionais ao ter que sair do estado de retiro em sua casa.

Como lidar com a ansiedade antes de sair

“Quem seguiu o isolamento à risca, pode sim, ter uma ansiedade em atividades que antes eram rotineiras de fazermos fora de casa. E o que tenho recomendado aos meus pacientes é ir aos poucos e confiar nos protocolos de segurança”, diz a psicóloga Amanda Silva, que atua com Terapia Cognitiva Comportamental.

Por exemplo, fazer uma caminha próxima de casa ou em um parque durante um horário de menos fluxo, ou então, caso você esteja há meses sem ver seus parentes próximos, tente encontrá-los com segurança (as estratégias estão abaixo).

Além disso, Amanda orienta fazer alguma técnica de relaxamento antes de sair de casa, pode ser uma série de respirações profundas, repetir mentalmente que está tudo bem, que você consegue, que está tomando cuidado e está seguro. “Isso pode ajudar a quem além de ficar ansioso ao sair, na volta, também evite ter pensamento hiper vigilantes.”

... E encontrar pessoas com segurança

Atente-se se o amigo também está seguindo medidas de segurança
Atente-se se o amigo também está seguindo medidas de segurança Klaus Vedfelt/Getty Images

No final de setembro, o país entrou pela primeira vez em estágio de desaceleração de contágio. E com chegada das festas de final de ano, entra a questão: será possível reunir a família — ou ao menos parte dela?

Para a infectologista Mirian de Freitas Dalben, do Hospital Sírio-Libanês, as pessoas precisam saber que a retomada das atividades, seja ela a volta às aulas ou de encontrar pessoas, deve ser feita com consciência para não dar chance para vírus, a fim de manter a taxa de contágio baixa e evitar uma explosão de casos futura, assim como está ocorrendo atualmente em alguns países do hemisfério norte.

Quando se pensa nas estratégias para diminuir os riscos na retomada, é importante entender as formas de contágio e o que temos de elementos. Por exemplo, diminuímos o risco do contágio por tato com a higienização das mãos e de superfícies. “Já a forma mais importante de transmissão, pelas partículas virais que a pessoa elimina, mitigamos o risco com o uso de máscaras, distanciamento de mais de 1,5 metro e locais com circulação de ar, bem ventilados, para que essas partículas não fiquem paradas no ar”, explica a infectologista.

É quase uma matemática para avaliar se o risco é maior ou menor à medida que você consegue ou não ter esses três elementos (higienizações, máscara e local aberto) presentes. Outro fator que deve ser levado em conta antes de se encontrar com alguém é evitar se expor a situações de risco antes do encontro. “Se você for ver alguém do grupo de risco de agravamento do Covid-19, evite dias antes aglomeração de pessoas, situações em que se retira a máscara, em ambientes pouco ventilados, e aí você com certeza vai diminuindo o seu risco”, orienta.

Mirian também enfatiza a importância de restringir o número de pessoas com quem você vá se encontrar, isto é, um grupo de familiares, um grupo específico de amigos. “Forme suas pequenas bolhas, para que, caso haja uma transmissão, ela fique restrita a um grupo de pessoas e seja fácil de identificar e rastrear o vírus.”

Vai marcar de encontrar um casal de amigos em casa? Provavelmente você irá servir algo para comer e isso também precisa de atenção. A recomendação é: evite objetos compartilháveis, como porções em que todos podem tocar, sirva refeições individuais e mantenha a distância enquanto se alimentam.

Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, e da Universidade Oxford, na Inglaterra, criaram uma tabela de risco de pegar o novo coronavírus em diferentes ambientes e situações. A tabela considera o uso de máscaras por pessoas assintomáticas. A tradução, feita pela Veja Saúde, você vê a seguir:

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Laura Luduvig/Revista Saúde

E é sempre bom lembrar que, se você estiver com sintomas, você não vai se encontrar com ninguém.

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Normalize o NÃO na pandemia (e depois também!)

Só saia se se sentir – mesmo – seguro
Só saia se se sentir – mesmo – seguro Klaus Vedfelt/Getty Images

Talvez você já tenha se deparado com a seguinte situação: aquele seu tio chamando para um churrasco com várias pessoas e você, com receio e querendo manter todo o cuidado diante do atual contexto. Você fica sem graça de dizer não, e cria mil e uma desculpas. A solução seria bem simples, dizer a verdade, a de que você não quer se expor ao risco, que não se sente confortável. Mas infelizmente, a gente sabe que, para muitas pessoas, o “não” soa quase como uma ofensa.

Só que dizer e ouvir não faz parte do nosso processo de amadurecimento emocional. “Quando não queremos algo, o primeiro passo é aceitar o não como reposta, independente da pessoa insistir e, assim, normalizamos o não, o que causa um alívio muito grande”, explica a psicóloga Amanda Silva.

Uma técnica muito útil, segundo a profissional, é seguir três passos para aprender a dizer não e aceitá-lo.

  • Comece com você mesmo aceitando o “não”. Não se sinta culpado por não ter vontade ou coragem.
  • Depois, se imagine dizendo não. Vale até testar em voz alta. Visualizar a situação deixa sua reação menos imprevisível quando ela de fato acontecer.
  • Finalmente, comece dizendo o “não” para pessoas mais próximas. “Se observe quando uma pessoa te fizer uma proposta que você não queira e respire lentamente. Se você perceber que não conseguiu dizer não logo de cara, peça um tempo para avaliar sua agenda. A ideia é não usar desculpas, mas pode ter suas justificativas”, explica.

“Falar o não é um ato de amor-próprio, um ato de cuidado com você mesmo, sem um olhar narcísico, mas de auto amor, de se estabelecer com a nossa psique.”

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