Espiritualidade prática, com Debora Pivotto Espiritualidade e autoconhecimento conectados com a nossa saúde física e mental, com o coletivo e com a vida prática

Como lidar com as brigas em família por política

A crise política tem gerado conflitos familiares. O equilíbrio entre respeitar limites individuais e nutrir necessidades de afeto é fundamental

Por Debora Pivotto Atualizado em 15 set 2021, 18h53 - Publicado em 15 set 2021, 18h50

Vim passar uns dias na casa dos meus pais no interior de São Paulo. Fazia tempo que não vinha pra cá e eu sinto falta de conviver mais com eles, meus irmãos e sobrinhos. Morar longe da família é difícil e, às vezes, solitário.

Nossa convivência é ótima e a relação com eles me nutre muito – e sinto que isso é recíproco. A coisa só desanda quando o assunto política entra em pauta. Explicando um pouco o contexto. Praticamente a minha família inteira votou no Bolsonaro nas últimas eleições – menos eu. E isso virou motivo de muita revolta e dor para mim – é um grande tema na terapia, aliás.

Para mim, o atual presidente nunca foi uma opção possível de voto – e por uma questão muito mais moral do que política. E eu poderia dar aqui muitas justificativas para o meu posicionamento, mas meu objetivo neste texto é outro. Quero refletir sobre as discussões, brigas e afastamentos entre familiares que essa crise moral/política que o Brasil entrou têm gerado.

Por que essas brigas estão cada vez mais frequentes?

Num primeiro momento, a gente pode pensar “ah, mas por que é tão difícil conviver com quem pensa diferente?”. Mas, nossa, o buraco é tão mais embaixo.

Primeiramente, acho importante compreender que essa crise nas relações que estamos vivendo vai muito além de respeitar ou não diferentes “opiniões”. Eu já tive discussões em outras eleições com meus pais e parentes em que realmente o tema das conversas era se tal corrente política era melhor do que outra. Mas no atual momento, sinto que a discussão é sobre valores. E isso é muito mais profundo e complexo. Quem acha que é uma questão apenas política ainda não entendeu a gravidade do que está em jogo. A questão é por que muitas pessoas estão aceitando o que deveria ser absolutamente inaceitável? O que de fato está acontecendo com o mundo? Estamos vendo pessoas indo pra rua defender intervenção militar, fechamento de congresso, do STF e ainda assim, se considerando gente super “do bem”. É um nível de auto-engano que choca e preocupa. E muitas vezes, a dor das pessoas que se revoltam não tem a ver com lidar com uma opinião diferente, mas sim com a impotência diante de um cenário tão tenso e preocupante.

É possível evitar brigas ou afastamentos?

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Eu não acho que seja possível evitar o conflito – e nem acho que o silêncio e a superficial cordialidade sejam o melhor caminho diante do caos que estamos vivendo. Mas, acho que buscar um equilíbrio é fundamental e os limites são muito individuais. Para algumas pessoas, é doloroso demais conviver com parentes que defendem algo que elas consideram imoral, inaceitável, ou que defendem políticas e comportamentos que, muitas vezes, colocam a vida delas em risco – como é o caso de muitos gays que não conseguem conviver com parentes homofóbicos, por exemplo. Isso é bem compreensível e saudável.

Por outro lado, muitas vezes estamos falando de relação de pais e filhos ou irmãos. E o rompimento destes vínculos também pode ser muito doloroso.

Então, o que fazer?

Essa decisão é muito pessoal e não há certo ou errado. Cada um sabe o tamanho de sua dor. Eu pessoalmente oscilo entre enfrentar o conflito, trazer o assunto e propor discussões em alguns momentos e, em outros, eu me afasto e diminuo a convivência. Mas quando eu me aproximo e convivo de forma mais intensa, eu me proponho a reforçar aqueles comportamentos e ideias que nos conectam e que fortalecem o nosso vínculo. E levei um tempo pra entender que isso não era negar as divergências e nem aceitar o inaceitável. Mas é cultivar uma relação que é muito importante para mim. É relembrar e reforçar aquilo que nos conecta – e não focar apenas naquilo que nos separa.

Essa compreensão e esse equilíbrio têm me ajudado muito a deixar esse conflito um pouco mais leve para mim. Porque tinha um lado meu, mais rigoroso, que achava que a Débora que é muito politizada, de esquerda, e que está sempre em passeatas a favor da democracia não poderia conviver com pais que atualmente estão chamando o golpe de 64 de revolução. Mas será que não? As pessoas são complexas e as relações também. Por mais que eu tenha minhas convicções morais e políticas, eu também sou filha e a convivência com meus pais e minha família me importa muito.

E eu percebi recentemente que integrar todas essas partes dentro de mim era o que realmente me trazia bem-estar. Eu fico melhor quando encontro este equilíbrio do que quando fico muito frustrada e com raiva querendo que meus parentes sejam pessoas diferentes do que elas são.

É simples? Não, nem um pouco. Nestes dias em que estou na casa dos meus pais, por exemplo, rolou discussões e choro de raiva no dia 7 de setembro e momentos de muito amor e carinho no preparo dos meus pratos preferidos, nas caminhadas pelo bairro e na hora de rezar o terço todos juntos no sofá. É uma montanha-russa emocional praticamente. Mas eu sigo me equilibrando entre as minhas necessidades de afeto e os meus limites.

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