Espiritualidade prática, com Debora Pivotto Espiritualidade e autoconhecimento conectados com a nossa saúde física e mental, com o coletivo e com a vida prática

O racismo e a perseguição de religiões afro-brasileiras

Programas de igrejas neopentecostais fazem ataques diretos a religiões de matriz africana. Que espiritualidade é essa que precisa atacar outras crenças?

Por Debora Pivotto Atualizado em 14 jul 2021, 20h53 - Publicado em 7 jul 2021, 19h07

Estava eu ontem na sala de espera de um laboratório aguardando ser chamada para fazer um exame de sangue e assistia, meio que por osmose,  ao que passava na televisão. O programa tinha cara de conteúdo jornalístico, com uma apresentadora super profissional anunciando algumas “notícias” dentro de um estúdio de TV. Demorei a perceber que não era um telejornal, mas sim conteúdo de um canal de uma igreja evangélica neopentecostal.

E a história que viria a seguir era de uma mulher que teria tido a sua vida quase destruída por se envolver com o que chamavam de “ocultismo”. E  o que me chamou muito a atenção é que entre uma fala e outra da mulher, apareciam imagens de pessoas vestidas de branco, cantando, dançando e fazendo oferendas para entidades – numa crítica direta e indiscutível a cultos de religiões afro-brasileiras: a umbanda e o candomblé.

Aquilo me chocou um tanto. Por mais que soubesse que essas religiões eram frequentemente atacadas, ver aquela imagem num programa de televisão, num ataque tão direto, foi impactante. E, desde então, venho refletindo sobre essa postura tão preconceituosa e apelativa de falar sobre espiritualidade.

O racismo é uma tema tão profundamente enraizado em nossa sociedade e em nossa cultura que é facilmente percebido também no campo da espiritualidade e da religiosidade. O movimento negro nos lembra do quanto o racismo no Brasil é de fato estrutural. E às vezes é tão escancarado que faz parecer normal aquelas imagens de ataques diretos a rituais sagrados para a cultura negra num canal aberto de televisão em pleno horário de almoço. Mas não é normal. Ou, pelo menos, não deveria ser.

E, para além da questão do racismo, acho a uma questão tão íntima. Essa relação com entidades, santidades, mestres ou divindades que são objetos de nossa devoção é algo profundo e também muito particular. E o mesmo vale para os rituais que participamos coletivamente em centros ou igrejas e aqueles que fazemos sozinhos em nossos momentos de oração e reflexão. Ver o ritual do qual você participa ou se identifica ser exposto e atacado é algo muito doloroso. Se eu que não sou iniciada na umbanda ou candomblé, mas já participei de muitos rituais e tenho profundo respeito e admiração pelas religiões me senti ofendida e chocada, fico imaginando o que sentem os filhos e filhas de santo que se dedicam tanto ao ofício e que têm não só sua fé atacada, mas também a memória de seus parentes e ancestrais.

Para mim, fé e espiritualidade nunca devem estar dissociadas da ética, respeito, compaixão e tantos outros valores fundamentais para o bom convívio – especialmente para um segmento que se diz cristão. Então, as perguntas que ficaram pra mim depois de digerir este episódio – e que agora transfiro para vocês, queridos leitores e leitoras – são: que espiritualidade é essa que precisa atacar outras crenças para se fortalecer? Que tipo de fé nós queremos praticar e apoiar?

Sou Debora Pivotto, jornalista, escritora e terapeuta. Trabalhei por 13 anos em grandes redações do país até descobrir que os assuntos que mais me interessavam estavam dentro – e não fora – das pessoas. Apaixonada por autoconhecimento e comunicação, faço uma espécie de “reportagem da alma” com a terapia de Leitura de Aura, ajudo as pessoas a reconhecer e manifestar os seus dons e talentos facilitando um processo de autoconhecimento chamado Jornada do Propósito, e estou me especializando em Psicologia Análitica Junguiana. Adoro compartilhar meus aprendizados em textos, vídeos e workshops. Para saber mais, me acompanhe pelo instagram @deborapivotto.  

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