Marina Nogueira: nutricionista estreia a coluna Nutrição Sem Restrição Nutrição sem restrição, com Marina Nogueira A nutricionista Marina Nogueira, do @naocontocalorias, fala sobre alimentação, comportamento, ciência e saúde

O peso da balança

Se a balança determina sua alimentação, seu humor e suas atividades físicas, é hora de repensar o hábito

Por Marina Nogueira Atualizado em 14 jun 2021, 20h40 - Publicado em 14 jun 2021, 20h15

Uma balança no banheiro é objeto obrigatório pra muita gente. Acordar, fazer xixi, tirar a roupa e subir para saber para onde o visor aponta. Algumas pessoas também se pesam de noite – e observam, quase que sem exceção, a variação do peso. 

Se pesar diariamente tem pontos positivos ou negativos. Há quem se beneficie em subir na balança com frequência, já que isso pode auxiliar a pessoa a se manter num peso que ela julga interessante. Geralmente essa pessoa tem uma boa relação com a comida, não vive de dieta, entende que todos temos pequenas variações de peso e vive uma relação de neutralidade com o próprio corpo. Se você é essa pessoa – ou seja, não sofre pra se pesar, não se escraviza pelo número e mantém o peso sem grandes oscilações de número e comportamento – siga no seu hábito. 

Mas se a balança determina sua alimentação, e seu humor e suas atividades físicas: hora de repensar o hábito. Há vários comportamentos comuns entre as pessoas que se pesam muito e vêem o peso oscilando – para cima ou para baixo.  

Muita gente vê o peso aumentando e começa restrição – ou abre mão do cuidado alimentar de vez; ao passo que, quando observa o peso diminuindo, libera geral – ou aperta o cerco de maneira excessiva. Ou seja: subir na balança com frequência pode provocar ansiedade e te levar a tomar decisões sem muito sentido. 

Outro problema da balança é a referência. Tem gente que gostaria de estar com um peso menor, com um corpo menor, mas não se pesa há anos. Tem na memória aquele número de anos atrás, quando a vida era diferente. Ao subir na balança e ver que esse número mudou, o sofrimento é intenso. Para uns, tão intenso que decisões drásticas são tomadas baseadas num número que simboliza um momento muito diferente de vida.

Quando se pesar?

Não há uma fórmula certa para se pesar: 1 vez por semana, 1 vez por mês, todos os dias… Subir e olhar o número no visor pode afetar muito ou nada – depende de cada um. Mas de maneira geral, eu não julgo fundamental uma frequência tão constante.

Uma vez que subimos na balança e ficamos presos num peso objetivo, esquecemos do nosso corpo. Damos lugar a um número ao invés da nossa consciência corporal. Quem nunca se sentiu melhor na própria pele mas ao subir na balança não viu mudança e se sentiu frustrado? E quem nunca está satisfeito, apesar de toda as coisas ao redor estarem muito boas?

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O hábito de se pesar é aprendido desde cedo. Conforme os números mostraram, grande parte aprendeu a se pesar vendo os pais se pesando. Tratar o vínculo com o número da balança como algo normal pode ser perigoso. 

Uma pesquisa feita pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, em 2014 mostrou um resultado alarmante: num grupo de meninas e mulheres entre 10 e 24 anos, 46% delas afirmaram crer que pessoas magras são mais felizes. A pressão para emagrecer, a ideia de que viver de dieta é normal é aprendida desde cedo, através da mídia e também dentro de casa. E uma das formas de viver isso desde sempre, é vendo os pais subindo na balança. 

Converso muito no meu consultório sobre as cobranças relacionadas ao peso e hábitos de dieta. A maioria das pessoas começou cedo nessa vida, influenciadas por pais que também acreditavam na necessidade do corpo padrão e numa alimentação perfeita. Sempre falo que não dá pra voltar no tempo e explicar para esses pais que, mesmo agindo com zelo, essa cobrança poderia trazer consequências ruins. E não dá para culpá-los: na grande maioria eles estavam com boas intenções. Porém, dá pra pensar no que vamos ser daqui para frente.

Se você chegou no final desse texto e reconheceu que sua luta diária com a balança (e com o corpo) é uma herança familiar, te faço um convite: você pode não conseguir desconstruir e reconstruir tudo isso de maneira completa. Mas você pode mudar a sua forma de pensar e sua relação com peso e corpo a partir daqui.

Comece a entender que, na maioria das vezes, o que você busca é uma boa sensação estética, que independe do mundo. E que classificações de peso utilizadas atualmente são bem discutíveis. No próximo texto, prometo contar um pouco sobre o IMC, assim você vai considerando se continua ou não com esse hábito diário de se pesar.

Ah, e claro. Se você tem algum transtorno alimentar ou acredita ter, converse com o especialista sobre o assunto. 

Até a próxima!

Marina

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