Samorai: o educador físico é o novo colunista da BOA FORMA Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

O fim da malhação

Treinos padronizados como se todos quisessem ser o Schwarzenegger e academias de ambientes hostis estão no passado - e Samorai explica o futuro da saúde

Por Samorai Atualizado em 27 abr 2021, 21h00 - Publicado em 27 abr 2021, 20h57

A malhação acabou. Essa foi uma profecia que fiz há sete anos com o lançamento de uma série de vídeos chamada “O fim da malhação”. Porém, essa é a primeira vez que abordo isso fora dos meus canais. E por mais improvável que se pudesse imaginar, quis o destino que fosse aqui. Na Boa Forma, outrora conhecida como o espaço de maior relevância no que chamo de “malhação”. Eu sei que você deve estar confuso se perguntando: “como assim a malhação vai acabar? Você é louco. Os cuidados com a saúde só aumentam, nunca tivemos tanta informação e preocupação e você vem me dizer que vai acabar?” Sim, e é exatamente por tudo isso e mais algumas razões que mencionarei ao longo do texto que vou te explicar o porquê vai acabar, e o fato de você estar lendo isso neste veículo, só reforça minha tese. Mas, antes de decretar que estou falando bobagem, vem comigo e deixa eu te mostrar minha forma de pensar e é possível que você concorde comigo e nem saiba.

Antes de iniciar, precisamos contextualizar o que eu chamo de malhação. E para isso, vou contar algumas histórias que vivenciei e que me trouxeram até aqui. Em 2006, fui contratado para ser gerente de uma das academias mais tradicionais do Itaim, bairro de classe alta em São Paulo. No discurso da minha contratação, o dono da academia, uma personalidade do mundo fitness, me disse que queria trazer novos conceitos para aquele espaço. Eu, que há muito tempo já pensava em sair da área por não me identificar com ela, achei a proposta muito desafiadora e encarei essa tarefa.

Porém, o que eu entendia de valor não era exatamente o que ele pensava. Ele queria que a mão de obra fosse a mais barata possível (na época, um professor formado recebia R$ 5,00 a hora/aula) e que meu foco fosse em equipamentos e perfumarias. Nada de novo embaixo do sol. Minha tarefa, então, era motivar uma equipe de trabalho que era claramente vista como substituível. Até que um dia, meu chefe contratou um consultor famoso do mercado de fitness. Fomos para a reunião e ele falou que não deveríamos focar em qualidade de trabalho, nem em retenção de aluno, porque o Itaim é um bairro comercial. A maioria esmagadora das pessoas não mora, mas trabalha lá. Então, mesmo que elas amem seu espaço, se elas mudarem de emprego, o que é provável na vida de todo mundo, elas não mais frequentarão seu espaço porque, por mais que elas o amem, elas ainda amam mais a conveniência de treinar perto de casa ou do trabalho. Logo, por melhor que seja seu trabalho, você não conseguirá reter esse aluno, o que faz com que gastar com retenção seja jogar dinheiro fora.

A opção dele para essa equação seria cobrar uma mensalidade no plano anual muito barata, uma multa muito alta para cancelar e um lugar bonito. Assim, a pessoa seria atraída por um lugar bonito, faria o contrato anual porque a diferença de valores era considerável e tudo ficava bem até começar a treinar. Agora, ela dependia de um professor que era mal remunerado, desmotivado, quando era formado. Nesse contexto não fazia nenhum sentido para esse professor se aprimorar, porque ele não receberia mais por isso, porque ele nunca foi contemplado no “business plan”. Do ponto de vista financeiro, funcionou por um tempo, mas hoje, essa academia não existe mais. O século XXI acabou com isso. Eu também não fiquei muito tempo, no máximo uns seis meses. Tentei mudar essa mentalidade na cabeça do meu chefe. Mostrar que a essência desta área não são as melhores esteiras, porque você pode fazer um trabalho excepcional sem nunca sequer subir em uma delas ou ainda em uma cadeira extensora. Até que, em uma de nossas reuniões, ele olhou no meu olho e disse que o dia que eu tivesse minha própria academia eu veria que a conta não fecharia e pensaria da mesma forma que ele. No dia seguinte, pedi demissão.

É possível que você pense que isso tenha sido um modelo isolado, mas talvez você não tenha se perguntado por que ele poderia abrir mão de ter professores de qualidade. E a resposta é que naquele modelo de treinamento, eles são dispensáveis. E por que isso? Para entender, vamos observar o que era o modelo vigente. O que existia eram treinamentos isolados por músculo, a famosa musculação. E o que é a musculação? Um treinamento que, levado ao seu extremo, o tornará um fisiculturista. Até porque esse treinamento foi criado por eles e explodiu para o mundo no final dos anos 70 com o filme “Pumping Iron” que era estrelado por Arnold Schwarzenegger.

Desde esse período, assumimos que treinar fisicamente era treinar isolado. Não importa se você é um corredor de maratona, nadador, uma gestante ou uma senhora de 90 anos, o seu treino seria um treino de fisiculturista, porém com menor escala. Mas, se você fosse “evoluindo” no seu treino até o máximo que aquele modelo pudesse oferecer, você faria o treino do Arnold, logo, em maior ou menor grau, estavam todos trilhando o mesmo caminho. Mas, não precisa ser um observador muito acurado para perceber que um maratonista, um nadador, uma gestante e uma senhora de 90 anos não têm muito a ver com um fisiculturista e nem têm os mesmos objetivos.

Outro detalhe importante de se ressaltar é que o fisiculturismo é a modalidade esportiva com menos movimento. Ela é estática. Então, esse modelo de treino não precisa contemplar sua capacidade de se mover e nem de produzir potência, por isso, por mais que aparentemente muito fortes, aquela força não é transferida para situações que necessitam de movimento como todas as outras da vida real. A maior prova disso é que quando você assiste as Olimpíadas ou ao Cirque du Soleil você não vê um único gigante lotado de músculos. Porque o movimento é muito mais complexo do que isolar meia dúzia de grupos musculares e treiná-los isolados  em um corpo que se move de maneira integrada e 3Dimensional.

Então, podemos dizer que esse modelo de treinamento não aperfeiçoa o movimento, algo que o maratonista e a minha vó, assim como todas as pessoas, precisam demais. Por reduzir a complexidade infinita de um movimento autêntico, funcional, singular e 3Dimensional, o modelo de treino também acaba ficando simples. Quer ver? Eu não sei quem está lendo esse texto, mas se você chegou até aqui e já fez musculação, aposto que sua trajetória foi mais ou menos assim: você começou com uma série de um exercício por grupo muscular, a maioria em equipamentos para adaptação. Ao evoluir, você separou em treino A e B e, nesse dia, os grupos que você treinava no treino A, não treinava no B. Caminhou mais um pouco e separou em treinos A, B e C com um grupo muscular grande e um pequeno até que, com o tempo, você treinava um grupo muscular por dia com muitos exercícios para esse grupo, pouca repetição e muito peso.

Existiam algumas variações como pirâmides, bi-set, tri-set, algumas outras e pronto. Aqui se resume tudo. Um dos meus maiores mantras para explicar a complexidade do corpo humano associado à singularidade das pessoas é esse: eu não sei quem vai tocar minha campainha, como eu posso saber o que eu vou passar para essa pessoa? Isso é verdade no treinamento 3D, porém se eu trabalhasse com musculação, a frase seria outra: não importa quem vai tocar a campainha, o treino será o mesmo. E é por isso que o dono daquela academia podia abrir mão de um professor especializado, porque aquele modelo de treino era facilmente entendido por qualquer um, então o professor super especializado, que falava sobre mitocôndrias, no final do dia dava a mesma série que o estagiário de primeiro ano de faculdade. E para piorar, o século XXI ainda trouxe outro elemento que tornaria esse professor mais supérfluo ainda: o YouTube e os aplicativos.

Aqui, já temos dois elementos da nossa discussão, o treino que não condiz com a necessidade da maioria das pessoas (exceto os fisiculturistas), aplicado de uma forma que qualquer um pode fazer, logo os professores se tornaram desnecessários. Para piorar de vez o lado dos professores, esses eram estereotipados na televisão em três momentos. O primeiro era o Paulo Cintura, personagem caricato que passa uma imagem de que o importante era ter um corpo sarado e que o seu lado intelectual pouco importava. Você poderia ser burro se estivesse com o “shape” em dia. Outra vez em que o personal apareceu na televisão foi em uma propaganda de geladeira na qual uma mãe insinuava ao filho que era uma péssima ideia ele deixar a esposa fazer aula com um personal porque ele corria um sério risco de tomar uns chifres. E por fim a Malhação. Era uma novela infantojuvenil em que a trama se passava em uma academia. E de lá, todo esse contexto acima citado recebeu um nome: malhação.

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Você pode achar que isso não é relevante, mas o nome malhação não sugere algo prazeroso. Ele é, literalmente, um nome negativo e você relacionar sua área com algo negativo não pode ser bom. Nenhuma outra profissão permite que seja relacionado a algo negativo, nem por brincadeira. Pense em um ginecologista fazendo brincadeira com a profissão dele. Tente fazer e veja a resposta que você encontrará. Mas, personal é supérfluo, podemos tudo com eles. Todo personal já se sentiu desrespeitado na sua profissão. Ele já recebeu uma “prescrição” de um médico sobre como ele deveria trabalhar, mesmo o médico nunca tendo o visto na vida, não sabe sua formação e competência, mas entende ser natural, mesmo sendo de outra área, ensinar o personal que, ao contrário dele, é da área do treinamento, como ele deve treinar alguém. Todo esse contexto acima, batizei de malhação.

E ainda tem um último pilar. Onde esse treino acontecia? Nas grandes academias. Lá seria o lugar onde promoveríamos saúde. Então, um obeso poderia emagrecer, uma pessoa com mobilidade reduzida poderia desenvolver mais autonomia, uma pessoa estressada poderia aliviar suas energias, uma pessoa mais deprimida poderia ter uma saúde emocional melhorada, mas quando eles chegam na academia o que eles encontram? Um ambiente hostil. Você já imaginou como seria “acolhedor” uma adolescente de 16 anos, obesa e tímida chegando em uma academia da moda?

Acho que acolhedor é a última palavra que você poderia encaixar aqui. E as pessoas da vida real têm necessidades específicas verdadeiras e, embora a vendedora no balcão da academia te vendesse que “nós temos professores altamente qualificados que vão montar um treino de acordo com seus objetivos e necessidades”, a verdade é que se você trocasse sua ficha enquanto revezasse um equipamento, você correria o risco de não perceber, principalmente se você não observasse seu nome na ficha, porque como vimos acima, os treinos eram os mesmos. Como eu sei? Os nomes dos treinos eram iniciante 1, 2, intermediário e assim por diante. Todo mundo fazendo a mesma coisa. Outro ponto que reforça isso é que se você visitasse uma academia, a atendente mostraria os equipamentos de última geração, a sauna no vestiário, até o café, mas não apresentaria nenhum professor ressaltando as qualificações dele, que inclusive foram patrocinadas pela própria academia, porque essa acredita no valor do trabalho dele, como qualquer empresa que tem no capital intelectual de seus funcionários seu maior valor.

Sobre academias, ainda tem um ponto importante que fecha tudo. O modelo de negócio. Uma academia vazia é ótima para o cliente e péssimo para o dono. Uma academia cheia é péssima para o cliente e ótima para o dono. Aliás, o melhor negócio para o dono é que o cliente pague e não vá. Você conhece outro negócio que torce para seu cliente não usar o seu produto? Pois é, essa é a malhação. Agora vem comigo, por que isso funcionava? Porque havia uma propaganda imensa para dizer que você precisava se sujeitar a isso, o que fez com que a maioria das pessoas detestasse academia e, quando muito, faziam porque “precisavam”. Mas, o principal ponto: não havia outra opção. Quando havia, não era acessível. E mesmo assim nunca foi um sucesso, nunca a taxa de matriculados em uma academia passou dos 5% da população. Nem perto disso chegava. E se você acha pouco, vou te falar que eu acho muito.

Quem quer um produto que o fabricante deseja que você não use e apenas gaste com ele, trata todo mundo igual e, como resultado, te direciona para algo que você não quer (o fisiculturismo) em detrimento do que você veio buscar (correr melhor a maratona, por exemplo) em um ambiente pouco acolhedor e de muita competição, vaidade e por que não dizer, maus hábitos como anabolizantes e toda sorte de produtos químicos? Um modelo assim está condenado a sumir assim que aparecer outra opção. E esta apareceu. E para acelerar esse processo, a quarentena forçou as pessoas a treinarem em casa e, para isso, a malhação não é possível. Talvez, ela não desapareça totalmente. Para fisiculturistas e algumas pessoas que se identificam, ela é a melhor opção, mas você há de convir que não existem tantos fisiculturistas nem pessoas que desejam ser no mundo.

Existem diversas formas de promover sua saúde de verdade de uma forma que faça sentido e seja prazerosa para você. Hoje, as opções são infinitas e as ofertas destes serviços não têm por objetivo “fechar a conta”, como disse meu ex-chefe, mas transformar vidas, entender sua singularidade, te respeitar como é e não te fazer aturar o que você não gosta. Aliás, voltando ao meu ex-chefe, há 12 anos montei minha academia e, curiosamente, a minha conta fechou bem mais que antes. Mas, não só a minha, mas também a de todos os clientes que aqui passaram e que hoje se movimentam, raciocinam, sentem, vivem e amam melhor, porque um dia eu pedi demissão de um trabalho por não aceitar alimentar esse modelo. E aqui sim, eu encontrei uma razão de viver, de sair cedo da cama com um sorriso no rosto.

Com todo respeito, Malhação, descanse em paz.

Forte abraço,

Samorai

 

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