DeeDee Trotter: “O sucesso no esporte é 90% mente e 10% físico”

A americana – três vezes campeã olímpica no atletismo – esteve no Brasil e conversou com BOA FORMA sobre carreira, superação e planos para o futuro

Ser aprovada na Universidade do Tennessee e jogar basquete sob a liderança de Pat Summit, uma das maiores técnicas da modalidade nos Estados Unidos no âmbito universitário: esse foi o sonho de DeeDee Trotter, hoje com 34 anos, durante boa parte de sua vida. A americana, que nasceu na Califórnia e cresceu no estado da Georgia, sabia do seu talento para a corrida, mas eram as quadras que a encantavam.

Um dia, após concluir o ensino médio e terminar com sucesso a temporada de competições de basquete, DeeDee recebeu uma ligação do técnico de atletismo da escola. Ele queria que a jovem participasse de um campeonato em que iria correr 200 metros. “Eu disse que não estava treinando, mas ele não se importou. Me falou para ir e me divertir”, lembra. E a novata não só se divertiu como quebrou um recorde estadual.

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O que DeeDee não sabia é que a técnica de atletismo da Universidade do Tennesse estava assistindo ao seu feito e, logo após a vitória, quis saber em qual instituição de ensino superior ela iria estudar. “Expliquei que estava aplicando para a Universidade do Tennessee e que inclusive já havia sido aceita, mas queria uma vaga no time de basquete”, conta. A coach fez uma proposta irrecusável: se ingressasse em sua equipe, DeeDee teria bolsa integral e poderia entrar no time de basquete no ano seguinte.

O combinado se concretizou apenas parcialmente, já que a técnica saiu da instituição. “Os novos professores não quiseram manter o acordo, e eu tive que fazer uma escolha. Foi aí que decidi me manter no atletismo e desisti do basquete”, relata. A evolução nas pistas de corrida foi rápida. “No meu primeiro ano de faculdade ganhei vários campeonatos universitários. No segundo, já competia internacionalmente”, diz DeeDee.

Ela começou a se destacar nas provas de 400 metros e, em 2004, participou de sua primeira Olimpíada, em Atenas. Aos 22 anos, voltou para casa com uma medalha de ouro na prova do revezamento 4 x 400 metros. DeeDee também foi a primeira mulher atleta da Universidade do Tennessee a se tornar profissional enquanto ainda era estudante – algo que não é comum nos Estados Unidos.

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Os anos seguintes foram de obstáculos e muitas conquistas – entre elas uma medalha de ouro e uma de bronze nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. DeeDee se aposentou em julho de 2016 e, desde então, vem trabalhando com a EF Education First, uma instituição global de ensino de idiomas. A corredora ganha a vida dando palestras motivacionais em universidades, empresas e escolas do mundo todo.

No último dia 18 de agosto, ela deu uma entrevista exclusiva para BOA FORMA, em São Paulo, contando tudo sobre os desafios ao longo de sua jornada e os objetivos para os próximos anos. Confira a seguir:

BOA FORMA: Em 2008 você teve uma lesão no joelho que a tirou das pistas. Como foi esse momento?

DEEDEE TROTTER: Tive um problema causado, provavelmente, por uma sobrecarga no joelho. Foi preciso uma cirurgia, e os médicos optaram por uma técnica em que são feitos pequenos furos que fazem o osso sangrar e, com isso, cria-se uma espécie de cicatriz. É uma forma de o organismo se regenerar.

Esse método me deu mais chances de competir novamente. Levei três anos para voltar a correr no mesmo nível. Antes da operação, meu melhor tempo nos 400 metros era 49s64; depois, eu não conseguia passar de 51s00. Eu não entraria em time algum com essa marca.

Em 2012, depois de muito falhar e perder, comecei a mudar minha forma de treinar. Consultei meus técnicos e terapeutas para pensarmos em exercícios que me permitiriam atingir o tempo de antes, sem as ações que causaram a lesão. Foi preciso um trabalho mental para aceitar que, apesar de não ser o mesmo treinamento, eu poderia conquistar resultados igualmente bons. Tive que abrir muito minha cabeça para mudar os exercícios e as séries e não sentir que estava sendo prejudicada.

B.F.: E só os treinamentos foram suficientes para você chegar à Olimpíada em 2012?

D.T.: Durante os três anos em que estive afastada, fui invisível. E a maior dificuldade nisso tudo foi a questão emocional. Eu juro: ser o melhor no esporte depende 90% da mente e 10% do físico. E eu vi isso. Eu não tinha mais desculpas físicas, meu joelho estava bom. Mas percebi que minha cabeça, não. Notei que, quando estava correndo, meu cérebro dizia “você vai perder”. Até meu corpo respondia como se eu fosse fracassar. E eu pensava “não, estou bem!”.

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Tive que trabalhar muito para me livrar disso. Comecei a escrever tudo o que eu precisava ouvir e que era o oposto do que estava acontecendo na minha vida. Eu escrevia coisas positivas, como “nunca desista”, “eu posso, eu preciso, eu vou”, “você é a melhor corredora de 400 metros do mundo”. Eu levava essas frases a todas as cidades para onde ia, colava-as em todas as paredes de hotel, em todos os espelhos. E quanto mais eu olhava para aquilo que me encorajava, mais forte eu me sentia para superar os problemas.

B.F.: E como foi ganhar as medalhas em Londres?

DeeDee Trotter (à direita) e a russa Antonina Krivoshapka competem na final dos 400 metros na Olimpíada de Londres, em 2012.

DeeDee Trotter (à direita) e a russa Antonina Krivoshapka competem na final dos 400 metros na Olimpíada de Londres, em 2012. (Michael Steele / Staff/Getty Images)

D.T.: Foi muito importante. A classificação para a equipe foi mais importante ainda. As pessoas que me viram ganhar a medalha de bronze [nos 400 metros] não acreditavam. E, para mim, foi retornar a uma performance que um dia alguém disse que eu jamais iria ter de novo. Como eu disse, antes da cirurgia, meu melhor tempo era 49s64; na Olimpíada de 2012, corri em 49s72, o mais rápido após a operação.

Mas também foi um pouco triste. Eu estava na corrida para vencer, não tinha expectativa de chegar em terceiro. Eu realmente acreditava que podia ganhar a medalha de ouro. Foi uma prova acirrada, fiquei muito orgulhosa do resultado.

B.F.: Você considerou competir nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016?

D.T.: Sim, meu objetivo era que essa fosse minha quarta e última Olimpíada. Meus treinamentos começaram no outono de 2015 [segundo semestre no Hemisfério Norte], como normalmente acontece. Mas, em dezembro, me machuquei e perdi seis semanas de treino. Quando estava pronta para voltar, tive outro problema que exigia que eu ficasse completamente parada por uma semana. E, após o tratamento, tive que esperar mais um mês para ver resultados. Então, no total, perdi 11 semanas de preparação.

Eu sabia que ia ser difícil fazer parte do time olímpico de 2016. Era meu ano de aposentadoria, eu havia anunciado que ia parar, não era segredo. Mas queria tentar alcançar a linha de chegada. O quão longe eu conseguiria ir sem que minhas lesões me prejudicassem?

As seletivas para as Olimpíadas seriam determinantes. Eu passei na primeira prova dos 400 metros, mas não na segunda. Corri na minha cidade natal, na presença de todos meus amigos e familiares. Dei uma volta olímpica e todo mundo que estava no estádio me aplaudiu de pé. Todos sabiam que aquela tinha sido minha última corrida. E porque eu terminei minha carreira do jeito que queria, não tenho mais vontade de voltar.

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B.F.: E como é seu trabalho com a EF atualmente?

D.T.: Eu me mudei para Zurique, na Suíça, mas passo 85% do meu tempo viajando para lugares diferentes dando palestras motivacionais em empresas, universidades e escolas. É bem parecido com minha carreira de corredora, na verdade. Viajo muito e, quando desço do avião, a única diferença é que, em vez de correr, falo de corrida.

Eu adoro ser uma motivadora. É muito recompensador por causa da resposta que recebo das pessoas. No começo, você acha que vai inspirá-las e, quando termina, percebe que elas motivaram você. Ontem à noite [dia 17 de agosto], uma senhora veio até mim e disse que ela tinha o sonho de abrir uma floricultura, mas havia desistido. E aí me falou: “Depois de hoje, vou criar minha loja de flores”. E muita gente me diz que o que eu falo em minhas palestras é o que elas precisavam ouvir. E elas choram. Esse é o tipo de recompensa em que você não pode colocar um preço. É a mesma emoção de quando se ganha uma competição.

B.F.: Você vê as meninas de hoje mais empoderadas no esporte?

D.T.: Nos Estados Unidos, mulheres atletas sempre estiveram presentes e elas prosperaram. Então, não é raro que elas sirvam de inspiração para meninas. Mas, nas minhas viagens, não importa aonde eu vá, sempre encontro um grupo de garotinhas fazendo algo que, para elas, não é comum.

Uma vez, visitei uma escola em Hong Kong [na China] e umas meninas estavam treinando em pistas de atletismo. Eu olhei e pensei: “Posso ajudá-las a melhorar”. Não estava lá para isso, mas fui e mostrei algumas técnicas. Os olhos delas estavam brilhando e fixados naquilo que estava acontecendo. Dava pra ver que absorviam tudo o que eu dizia.

E aí eu vi como as coisas são diferentes. Para algumas dessas meninas, isso é o mais longe que vão chegar. Mas pode ser que elas tenham no coração o desejo de praticar o esporte profissionalmente. Então, eu realmente acho importante que minha mensagem e de outras atletas sirvam de inspiração. Você não sabe quem está atingindo, e pode ser que alguém se sinta motivado o bastante para superar o medo e correr atrás de seus sonhos.

B.F.: Como você se vê daqui a cinco anos?

D.T.: Espero ter uma família. É um dos sacrifícios que muitas atletas têm que fazer. Ao longo da minha carreira, conheci três mulheres que tiveram filhos enquanto tentavam vagas nas Olimpíadas. Os bebês mexem muito com o corpo e é difícil voltar a competir no mesmo nível. É possível, mas é algo de que abrimos mão para terminar nossas carreiras. Esse foi o meu caso.

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Além disso, eu não conheci a pessoa certa, o que é outro desafio quando você está viajando o tempo todo. Minha técnica tinha essa filosofia: “Não arrume um namorado quando estiver no meu time, durante a minha temporada”. Segundo ela, os homens são distrações. Eu acabei com dois relacionamentos porque eles não aceitavam ficar em segundo plano na minha vida. Mas, no fundo, acho que foi fácil terminar com esses namoros porque eu sabia que não era pra ser.

B.F.: E profissionalmente, onde você planeja estar?

D.T.: Eu acredito que as palestras motivacionais sempre estarão presentes. Fazer trabalhos freelancer como técnica é outra coisa que eu gostaria. Também tenho o sonho de abrir uma confeitaria para vender meus bolos. Sim, eu faço bolos deliciosos!

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