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Ser mãe é fazer o que precisa ser feito

Por Debora Pivotto Atualizado em 5 ago 2022, 15h22 - Publicado em 5 ago 2022, 15h21
pos parto
João Montenegro/BOA FORMA

É com muita alegria que retomo a minha coluna aqui na Boa Forma. E volto a escrever agora que meu filho, Vicente, está com sete meses e eu já consigo – com muita ajuda, é claro – retornar ao trabalho aos poucos.

Nestes últimos tempos, minha vida mudou radicalmente. E compartilho neste primeiro texto pós-retorno um pouco do que tenho aprendido com a maternidade. Começando por uma lição que me chegou com muita força durante o nascimento do meu filho.

Eu tinha planos de dar à luz numa casa de parto, mas como já estava com quase 42 semanas de gestação e nenhum sinal de trabalho de parto, precisei ir ao hospital induzir o processo com a ajuda de medicamentos.

Entrei na maternidade na manhã do dia 22 de dezembro. Começamos a indução por volta de 13h e, no final da tarde, as contrações dolorosas começaram. E foi aquele misto de dor e alívio. Alívio porque finalmente o parto estava começando a acontecer. E dor porque as contrações realmente doem muito. Por volta de meia-noite, a minha bolsa estourou. E aí as contrações vieram com mais força e bem mais frequentes – mais ou menos a cada dois minutos. E era tanta força que eu fazia que parecia que meu filho nasceria nos próximos 30 minutos.

Mas as coisas não estavam indo tão rápidas quanto pareciam. Quando a parteira fez exame de toque, me deu a desanimadora notícia de eu tinha apenas 4 centímetros de dilatação. Ou seja, ainda tinha uma longa jornada pela frente…

Chorei muito. Estava exausta, nervosa, insegura. Não conseguia acreditar que com tudo aquilo que estava acontecendo, meu filho ainda estava tão longe de nascer. Mas respirei fundo, pedi analgesia para aliviar um pouco a dor e, com a ajuda da parteira, da doula e do meu marido, fui fazendo exercícios para diminuir as contrações. Afinal, para que o trabalho de parto fosse sustentável, era fundamental que houvesse uma harmonia no ritmo das contrações e da minha dilatação.

Na madrugada, as contrações diminuíram bastante e eu consegui até descansar um pouco. E logo que amanheceu, o trabalho de parto foi ganhando ritmo novamente. E desta vez, de uma forma mais lenta e gradual. A dilatação passou de 4 para 5, depois para 6, 7, 8. As contrações (e as dores) também foram aumentando gradualmente, mas eu consegui controlar um pouco mais meu emocional com muita respiração, reza e movimentos corporais. Até dançar abraçada com a minha doula, eu dancei.

Por volta dás 17h, a equipe me convidou para ir para um outro quarto do hospital, um espaço bem mais acolhedor e aconchegante do que a sala do centro cirúrgico onde eu estava. E quando eu entrei ali, parece que tudo mudou. O ambiente era bem mais silencioso, a iluminação era mais baixa, tinha luzinhas que imitavam estrelas no teto. Internamente, também comecei a me sentir muito diferente. As contrações ganharam um outro ritmo e senti um arrepio estranho no corpo todo. A doula olhou pra mim e falou “é sinal de que o Vicente está chegando”.

A partir daí, quando vinha a contração, ela já não era mais tão dolorosa e, em vez de querer gritar, eu sentia muita vontade de fazer força. Era o expulsivo, última etapa do parto, que estava finalmente começando.

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A parteira fez um último exame de toque e viu que eu estava com 9 centímetros de dilatação. E minutos depois, comecei a sentir uma pressão enorme na minha vagina. Era a cabeça do meu bebê pedindo pra sair. Novamente, aquele misto de alívio e dor. Alívio porque aquele longo trabalho de parto parecia estar chegando ao fim. E dor porque vocês podem imaginar como aquilo dói, né?

Era surreal a sensação de que algo ali nas minhas entranhas estava sendo rasgado (literalmente) para que o bebê pudesse sair. A sensação física era de muito ardor, dilacerante. E ao mesmo tempo, energética e espiritualmente, era como se um portal estivesse se abrindo. É muito intenso.

Nessa hora, me deu muito medo e me apavorei. Chorei e comecei a me questionar se seria capaz de atravessar aquela última etapa. Falei pra parteira chamar o anestesista porque achava que sozinha eu não ia conseguir (àquela altura, a analgesia que eu tinha tomado na madrugada já não tinha mais efeito algum). Eu sentia absolutamente tudo e aquela dor parecia forte demais para aguentar.

Foi quando a parteira, que escorava meu corpo por trás, olhou pra mim de uma forma muito amorosa e muito firme ao mesmo tempo e falou: “veja bem, a analgesia pode até te trazer algum alívio, mas só você pode trazer o seu filho pro mundo. Ninguém vai fazer esse trabalho por você”.

Nessa hora, entendi que eu não estava querendo anestesia, mas sim que alguém fizesse aquele parto por mim! Queria que outra pessoa tirasse o meu filho de dentro do meu corpo sem que eu precisasse atravessar todas aquelas sensações. Sem que eu precisasse me rasgar por dentro e por fora.

Então, eu chorei mais um pouco, respirei fundo, e durante as três contrações seguintes, eu fiz a maior força que eu pude, até que a cabeça do Vicente finalmente saiu! Eu pude sentir os fios de cabelo dele com minhas mãos. E vi o olhar maravilhado do meu companheiro. E em seguida, veio o restante do corpo todo de uma só vez. Eu estava exausta, aliviada e incrivelmente feliz por ter conseguido.

A fala da parteira naquele momento crucial me atravessou a alma. E me trouxe essa percepção de que ser mãe é fazer o que precisa ser feito. Por mais difícil e surreal que pareça. Começando por parir.

É claro que no parto, isso é levado ao extremo, mas também tive essa sensação em menor grau quando precisei fazer uma manobra pra desengasgar meu bebê com dois dias de vida, quando fiz a primeira lavagem nasal, quando precisei segurá-lo para a médica engessar sua perna para um tratamento… e sei que passarei por isso outras incontáveis vezes.

E acho que é por isso que todo mundo diz que a maternidade/paternidade amadurece as pessoas. Porque você simplesmente faz o que é necessário. Por amor, você tira forças de onde parecia não ser possível pelo bem da sua cria. É surpreendente.

Não quero com isso romantizar ou criar a ideia de que mães têm que ser fortes o tempo todo. Muito pelo contrário. É saber que o mais comum é chorar, espernear, brigar, surtar e querer fugir antes de fazer o que no fundo sabemos que precisa ser feito. Até que, finalmente, no momento certo, encontramos forças para agir.

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