Samorai: o educador físico é o novo colunista da BOA FORMA Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

Eu queria falar sobre isso

Por Samorai 3 ago 2022, 22h33

Hey, folks! Depois de quase 60 colunas, às vezes, falta assunto, porque sempre queremos agradar e abordar um tema que seja relevante para você. O difícil é que têm muitos diferentes vocês, e para ajudar não há uma troca direta, como em uma conversa. Muitos temas vieram à minha cabeça. Muitos bem legais, mas não grandes o suficiente para abordá-los em uma coluna. O chato é que pensando assim, temas legais nunca serão também abordados. E a vida é repleta de infinitos acontecimentos e insights que quando você tem o coração aberto podem mudar sua vida para sempre, e geram um enorme crescimento.

Pensei em falar sobre esse fim de semana que lutei o Internacional Master Sulamericano de Jiu Jitsu. Campeonato grande disputado na Arena da Juventude, no Rio de Janeiro, que já foi palco de jogos olímpicos. Em eventos como esse acontecem de tudo. Porém, quero trazer dois acontecimentos que nos mostram caminhos a seguir. Na categoria faixa roxa master 3 peso leve, a final foi entre um atleta do Corinthians, Clebson, e o da Alliance e meu amigo, Eduardo. Essa é uma luta que acontece com certa frequência com ampla vantagem para o Clebson e desta vez não foi diferente. Rapidamente finalizou o Edu e sagrou-se campeão da categoria.

Entretanto, toda vez que você sobe ao pódio em um evento de Jiu Jitsu você se qualifica para lutar um segundo torneio que chamamos de absoluto, onde não há divisões de peso e é disputado entre os campeões de todas as categorias. Sendo assim, esse torneio tem mais prestígio. Algo como o campeão dos campeões. E esses dois atletas se inscreveram, mesmo sendo da categoria leve. Contudo, quis o destino que o sorteio os colocasse novamente frente a frente logo na primeira luta deste torneio. Eu também iria lutar e por isso estava na área de aquecimento. Fiquei conversando com o Edu e vi uma tensão e até uma chateação por ter que lutar novamente contra um adversário que tem dificuldade de vencer. Parecia que tudo que ele mais queria na vida era não ter que lutar com ele novamente.

Foi quando aconteceu algo que nunca mais vou esquecer. O Clebson chegou e se juntou a nós. Muito simples e humilde. Como ser evoluído que é percebeu tudo rapidamente sem sequer ouvir uma palavra e perguntou para o Edu se ele gostaria que ele desistisse do torneio. Ele teve a sensibilidade de perceber que uma nova derrota poderia ser emocionalmente muito pesada para ele. Disse que para ele tudo bem e os dois sairiam dali felizes. Eu parei na mesma hora e o cumprimentei pela atitude, que foi rapidamente rechaçada pelo Edu, porque um campeão não quer presente. O fato é que ambos fizeram o que tem que ser feito como seres humanos na essência da palavra que são. Vai ter luta. Mas a mensagem é forte por si só. Às vezes, nossa vitória é menor que a derrota do outro. E pessoas especiais não precisam vencer. Precisam ser vencedores.

Imagino que você, se não desistiu de ler até agora, quer saber como foi a luta. Assim que essa conversa se passou, o Clebson se afastou e foi aquecer e eu perguntei para o Edu o que ele ia fazer na luta. Ele estava indeciso e usei um pouco de 26 anos de profissional do Esporte nessa hora. Eu tinha visto a luta anterior e vi que o adversário tinha gostado de como ela tinha se desenrolado. Aquele era o jogo favorito dele e sugeri que ele fizesse outro caminho. Era uma sugestão meio óbvia, mas na tensão daquele momento, essa ideia não parecia assim tão clara.

Será que na sua vida também não está acontecendo coisas assim? Talvez alguns problemas se repitam porque não estamos vendo o óbvio. A luta foi duríssima. E no final, o braço do Edu terminou levantado. Era uma história de dois vencedores. Mas pensando melhor, não vou falar de Jiu Jitsu, não. Muita gente aqui não tem nenhuma familiaridade com lutas e pode não fazer muito sentido.

Então, pensei que poderia falar com os profissionais do movimento. Os treinadores 3D. Essa semana passei um exercício para um aluno de duas formas muito parecidas com uma pequena mudança. No primeiro exercício ele fazia um lunge em rotação para o mesmo lado da perna e deixava o pé de apoio fixo no chão e no segundo ele liberava o pé de apoio para acompanhar o movimento. A mudança aparentemente não é muito significativa de maneira global, o que fez o aluno perguntar qual a diferença. A principal diferença é que com o pé de apoio fixo, o estímulo maior é para o seu quadril da perna de apoio em rotação externa e se você liberar o pé de apoio, o estímulo passa para o quadril da perna do lunge e na rotação interna.

Isso é muito legal, porque se você tem uma lesão que o dificulta e causa dor na sua rotação externa do quadril, por exemplo, você pode continuar a treinar esse movimento que é tão essencial, porém evitando a rotação externa. Ou seja, ao invés de parar e destreinar, você faz um pequeno ajuste e continua sua progressão, ao invés de andar para trás. E esse é só um exemplo de como pequenas mudanças afetam o resultado final totalmente e um bom treinador 3D, que entende da biomecânica da reação em cadeia, sabe ajustar o treino para que você não agrave uma lesão, continue treinando e se reabilite dela. Será que na nossa vida, pequenas mudanças podem trazer resultados diferentes? Será que um pequeno ajuste me mantém caminhando quando não sei qual o próximo passo?

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Pensando bem, nem todos os leitores da Boa Forma são profissionais de educação física, quiçá um personal 3D. Talvez tenha que abordar outro assunto. Algo que falasse com mais pessoas. Já sei! Dor. E quando penso em dor penso logo em uma placa que está bem na porta do meu estúdio. É uma placa bem simples escrito “dor” e uma seta vermelha para a direita. Me custou 30 reais há 8 anos e toda semana algum aluno fecha um plano por causa dela. É o maior case de marketing e ROI que eu conheço, dado que o ticket médio aqui é em torno de mil reais. É uma afronta a todos os profissionais da complicação uma placa com tamanha simplicidade. A comunicação eficiente entre seres humanos é simples. Será que estou complicando a comunicação no meu trabalho e na minha vida? Hmmm… Mas agora não é hora para isso.

Lembrei desta placa porque a história que quero contar agora é de um aluno que bateu aqui por causa desta placa. Cheio de dor. Fizemos uma avaliação e constatamos que o caminho seria longo, mas possível, algo que ele já não acreditava. Na primeira aula percebi um discurso muito voltado para o eu. “A minha dor”, “você não sabe o que é dor”, “porque eu sinto dor”. Muito comum em quem sente dor. A aula não fluiu e mesmo assim no dia seguinte ele relatou uma melhora no ciático. Na segunda aula a mesma coisa. Estava preso na sua dor e não percebeu que já havia tido uma melhora. Porém, o personal 3D deve sempre ir além e entender esse aluno com um ser 3D – corpo, mente e espírito. Conversei com ele que reclamar da dor o tempo todo não iria ajudar, e no caso dele, fazia com que ele desfocasse da aula. A resposta dele foi que eu não sei o que é dor.

Como atleta de luta e profissional de reabilitação desde 1997, acredito que tenho experiência para falar que ele não é a única pessoa no mundo a sentir dor. E essa dor ele já trouxe de casa. Nosso caminho agora é reestabelecer a função corporal perdida que é a causa da dor. A impressão que eu tinha é que ele já sofreu tanto que não acredita mais que pode se recuperar. Levei-o, então, em frente a uma placa que tenho na academia onde está escrito “Se você acha que pode ou que não pode de toda forma você está certo” e pedi para ele escolher de que forma ele queria treinar, a de quem acredita que pode ou a de quem não acredita? Falei que entregaria o que ele escolhesse naquele momento, mas o que ele escolhesse, ele teria que seguir e pagar todos os preços da escolha. Por sorte ele escolheu vencer. E a metade seguinte da aula nem parecia o mesmo aluno. Será que muitas vezes não estamos tão perdidos em nossos problemas que tudo que fazemos só serve pra reforçá-los e nunca temos foco na solução? Será que reclamar não nos tira do caminho de resolvê-los?

Sei lá, falar de dor. Às vezes as pessoas querem ler para esquecer as dores. Pensei então em outro assunto para escrever. Uma aluna comentou hoje que gosta de uma coisa muito legal aqui no nosso estúdio. O fato de o aluno ter que limpar e guardar todo o material que ele utilizou. Seja o copo de cerâmica, os halteres, o tatame. Isso faz com que o espaço esteja sempre limpinho e arrumado. E a proposta é um pouco por aí. Tudo que a gente cuida, a gente cria uma relação e zela por isso. Filosoficamente nossa proposta tem a ver com o impacto que nossa existência causa. Tem uma filosofia budista que diz para você arrumar seu quarto, fazer sua comida e limpar seu banheiro. E nós a aplicamos aqui.

Essencialmente, essa filosofia te convida a assumir sua vida. Ter consciência dos impactos que você deixa. Claro que você pode segui-la literalmente, mas ela vai além. Quando falamos de arrumar seu quarto, estamos falando de organização de maneira geral. Tenha zelo e cuidado com tudo que faz. Isso também tem a ver com o cuidado com os outros. Quando falamos de fazer sua comida, tem a ver com a consciência do que você coloca para dentro de você, seja matéria ou não. Programas que você assiste, filmes, conversas, convívio com pessoas que não te acrescentam. Hoje com redes sociais é muito fácil se envenenar espiritualmente e sofrer por isso.

E quando falamos limpe seu banheiro, estamos te convidando a ter consciência do rastro que você deixa pelo caminho, que nem sempre é o mais bonito e harmônico, e reparar o máximo que você puder para compensar esse rastro deixado. Palavras que você empregou e magoou, atitudes que você teve, sofrimento que você causou. Interessante observar que seguindo esses três preceitos você impacta menos negativamente seu mundo, não porque você compensa, mas porque você tem consciência e cuida. E por isso aqui está sempre tão limpinho e arrumadinho, porque todo mundo cuida, gerando assim relacionamento e carinho com o lugar, além de evolução 3D.

Será que na minha vida não estou terceirizando muita coisa? Minha alimentação, minha saúde, o cuidado dos meus filhos, meu trabalho, minhas coisas simples, minha consciência? Ah, não, não, não, Samorai. Ninguém está afim das suas filosofias.

Estou realmente sem inspiração. Não sei o que escrever. Acho que não consigo escrever nada hoje que possa te ajudar. Vou deixar para a próxima. Talvez terceirizar um atestado médico para a chefa hoje…

Forte abraço,
Samorai

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