Sinto dor de cabeça após o exercício físico, devo abandonar os treinos?
Dores de cabeça durante ou após o treino são comuns, mas pedem atenção. Saiba quando procurar um especialista e como manter a rotina
Sentir dor de cabeça durante ou após a prática de exercícios físicos pode levar algumas pessoas a reduzir os treinos ou até abandonar a atividade. Mas essa não é, definitivamente uma boa estratégia.
“Para quem tem o diagnóstico de enxaqueca, essa decisão pode significar abrir mão de algo que contribui para o controle da doença. Mas, para quem ainda não tem o diagnóstico, é importante buscar um médico especialista para entender os padrões e iniciar o tratamento”, explica o neurologista Dr. Tiago de Paula, especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP).
“Se a pessoa percebe que sempre que faz exercício sente dor, isso precisa ser investigado. Não significa que ela deva simplesmente parar de treinar. Pode existir uma doença que precisa ser tratada”, explica o médico.
Segundo o neurologista, existe uma diferença importante entre apresentar dor em uma ocasião isolada, após um esforço excepcional, e ter episódios recorrentes sempre que se exercita.
“Uma pessoa que realiza uma atividade muito mais intensa do que está habituada, por exemplo, pode apresentar dor pontual. Já quando o sintoma aparece repetidamente, inclusive em exercícios de intensidade habitual, é importante procurar avaliação médica”, diz o médico.
Por que a enxaqueca ocorre durante a prática de exercícios?
Durante a atividade física, o organismo passa por mudanças naturais, como aumento da frequência cardíaca, alterações do fluxo sanguíneo, elevação da temperatura corporal e maior demanda metabólica.
“Em pessoas com enxaqueca, especialmente quando a doença não está bem controlada, essas mudanças podem funcionar como fatores desencadeantes de crises. A exposição ao calor, a desidratação, o jejum prolongado e a privação do sono podem somar-se ao esforço físico e aumentar a suscetibilidade à dor. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas apresentam crises em determinadas condições, enquanto outras conseguem se exercitar sem sintomas”, destaca.
“A enxaqueca também pode apresentar manifestações além da dor de cabeça, como náuseas, vômitos e sensibilidade à luz e aos sons. Quando os episódios se tornam frequentes ou incapacitantes, a avaliação neurológica permite investigar o diagnóstico, identificar fatores associados e definir a estratégia terapêutica mais apropriada”, destaca.
O exercício pode ajudar no controle da enxaqueca
O Dr. Tiago de Paula reforça que não é indicado parar a atividade física.
“A prática regular de exercícios pode contribuir para reduzir a frequência e a intensidade das crises em pessoas com enxaqueca. Por isso, quando o exercício desencadeia dor, a conduta não deve ser necessariamente excluir essa atividade da rotina, mas compreender o motivo do sintoma, procurando ajuda e tratando a doença. Se está tendo dor frequente, provavelmente é um quadro de enxaqueca mesmo e precisa procurar ajuda”, explica.
O tratamento pode envolver medidas comportamentais e medicamentosas, conforme as características e a frequência das crises.
Também pode ser necessário ajustar temporariamente a intensidade do exercício, investir em aquecimento gradual, melhorar a hidratação e evitar treinar em horários de calor excessivo.
“Durante muito tempo, o tratamento da enxaqueca ficou baseado em evitar tudo o que pudesse desencadear uma crise. O problema é que isso pode restringir profundamente a vida da pessoa”, explica o médico.
“O objetivo hoje é controlar a doença para que o cérebro fique menos sensível aos estímulos. Quando a enxaqueca está bem tratada, muitos gatilhos perdem força e o paciente consegue voltar a tomar uma taça de vinho ocasionalmente, comer determinados alimentos, viajar, frequentar ambientes iluminados ou aproveitar momentos de lazer sem viver com medo constante de uma nova crise”, enfatiza o médico.
“Em outras palavras, tratamos a enxaqueca para devolver qualidade de vida e autonomia ao paciente, e não para colocá-lo em uma bolha de restrições”, finaliza.





