Beleza

A revolução do autocuidado

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Autocuidado é um conjunto de práticas que vai além da relação com produtos e serviços de bem-estar. É sobre ressignificar sua autonomia ao cuidar de si

“Autocuidado” é um termo que tem ganhado cada vez mais relevância nos últimos dois anos e grande parte disso se deve à carona que a expressão pegou nos movimentos de slow living e na nova onda de wellness – atualmente, mais consciente e holística. Mas nunca a palavra foi tão buscada, escrita e falada – sobretudo nas redes sociais – como agora, quando o lifestyle caseiro passou a ser mais do que uma escolha para um bom número de pessoas.

Segundo muitas agências de mapeamento de tendências, o confinamento está sendo uma espécie de convite para uma jornada de olhar para dentro. Entre as principais novidades no consumo em tempos de quarentena, apontadas pela Euromonitor, empresa líder em estratégia de marketing em buscas online, está o “cuidar de si mesmo”.

Por definição, autocuidado é um conjunto de práticas de cultivo da saúde física e mental. Mas, diferentemente das inúmeras dicas de beleza espalhadas pelas redes sociais, na seara do autocuidado, os bens e serviços de consumo – do esmalte sem ingredientes agressivos à renovação do corte de cabelo – entram como coadjuvantes meramente dispensáveis. O protagonismo está nas escolhas baseadas em necessidades genuínas e individuais.

Autoconhecimento, o pai do autocuidado

Para alguns, o autocuidado é o hábito de meditar ou acordar meia hora mais cedo para fazer o próprio café da manhã. Para outros, o segredo está em exercícios, consumo maior de água, psicanalista uma vez por semana e folga do trabalho doméstico para um passeio com os amigos. Ele também pode ser uma pequena viagem, o cultivo da intuição, o pedido de demissão de um emprego que não traz prazer ou o término de uma relação abusiva. Uma diversidade de coisas, desde que venham de uma vontade pessoal e intransferível.

E não existe autocuidado sem autoconhecimento. É percebendo-se, escutando-se e decifrando-se que ouvimos as nossas reais necessidades, do corpo e da mente.

Segundo Chirles Oliveira, mestra em ciências holísticas e pesquisadora do tema felicidade sustentável, “a ciência fala que precisamos antes desenvolver o autoconhecimento. Somente com base nele, poderíamos ter um autocuidado verdadeiro por meio de novos hábitos, conectados com nosso propósito. Se todas as suas ações, inclusive o seu trabalho, têm um propósito, esse autocuidado está inserido na rotina, pois ele tem sentido”, completa.

Ela cita o famoso estudo Estilo Emocional do Cérebro, do neurocientista estadunidense Richard J. Davidson, que, após décadas de pesquisas, concluiu que temos seis dimensões emocionais básicas: resiliência, atitude, intuição social, autopercepção, atenção plena e sensibilidade ao contexto. O que possuem em comum é o fato de todas levarem ao autoconhecimento e, ao mesmo tempo, serem ferramentas mentais do cultivo do autocuidado. Definitivamente, um não existe sem o outro.

Resgate de sabedorias ancestrais

Há ainda um outro viés na prática atual do autocuidado: o resgate de saberes e hábitos milenares. Por que, em pleno auge da modernidade, estamos vivendo o começo de um resgate de práticas que cuidam não só da aparência, mas também da mente de maneira tão simples? “É a chamada ‘virada da mesa da luz’”, diz a terapeuta especialista em ancestralidade feminina Anna Sazanoff. Segundo ela, essa virada acontece quando experimentamos muitas formas de tecnologia, de avanço da ciência e da medicina junto a infinitas opções de consumo e distrações, mas, ainda assim, sentimos um grande vazio. “Nos damos conta de que o caminho é bem mais simples e que tudo de que precisamos está e esteve sempre presente, acessível e abundante”, explica.

Os orientais são referência no quesito simplicidade-propósito-calma. O termo ikigai – algo como “a razão de ser” ou “o motivo pelo qual acordamos todas as manhãs” – lotou as livrarias nacionais no último ano e, não por acaso, coincidiu com o começo da onda de autocuidado. Um dos livros mais populares, intitulado Ikigai: Os Segredos dos Japoneses para uma Vida Longa e Feliz, usa como exemplo a pequena Ilha de Okinawa, no sul do Japão, que sempre atraiu olhares dos pesquisadores de saúde pela fama longeva dos habitantes. Por lá, é enorme a proporção de quem chega aos 100 anos. E mais importante: alcançam quase um século de vida com a saúde física e mental preservada. O segredo? Entre as muitas práticas descritas no livro pequenos hábitos saudáveis do dia a dia, como caminhar, dormir bem, massagear a cabeça… Técnicas mirabolantes? De maneira nenhuma.

E a medicina convencional também tem sido influenciada por esse mindset que busca cocriar bem-estar entre profissional e paciente, reforçando a ideia da autorresponsabilidade. “É uma estratégia vital para expressar o nosso melhor potencial. Enxergo meus paciente como agentes ativos no cuidado da própria saúde. Como médico, ofereço as ferramentas necessárias e sirvo como guia para que eles mantenham uma jornada de adotar novos e bons hábitos”, conta Luiz Fernando Sella, endocrinologista e mestre em medicina do estilo de vida.

Novos tempo, um novo-bem-estar

A verdade é que, tratando-se de autocuidado, não cabem regras. Contudo nos arriscamos em dizer que ao menos uma é necessária: a atenção ao impacto que nossas escolhas podem gerar não só à nossa saúde e bem-estar, mas também ao meio ambiente.

No que diz respeito à beleza, esse olhar crítico para o consumo de bem-estar ecologicamente correto vem da influência do movimento slow beauty, que corre o mundo propondo um cuidado com a estética pessoal mais desacelerado e responsável.

E isso não significa apenas diminuir seu consumo – no lugar de ter uma prateleira com dezenas de frascos que vão vencer a qualquer momento pela falta de uso. Quando pensamos em um consumo consciente, focamos empresas eticamente corretas, transparentes, com fórmulas limpas (livres de ingredientes hoje apontados pela ciência como nocivos ao meio ambiente e à saúde) e embalagens sustentáveis. Cultivar tal senso crítico é o cerne do autocuidado do momento.

É ótimo que o slow beauty e o autocuidado estejam no centro das discussões atuais, mas é preciso cautela. Cada vez que um movimento ganha holofotes, há o risco da banalização. De um lado, a indústria tende a “surfar na onda”, atribuindo ao tema o status de desejo de consumo (“você precisa ter essa nova máscara capilar com cheiro de capim-santo para relaxar”). Um crime, tratando-se de um movimento que não tem preço e é ancorado na autonomia. Do outro, um time de críticos cínicos: “é egoísmo”, “é futilidade”, “há preocupações mais urgentes do que relaxar e cuidar de si”. No meio dos extremos, existe a ideia de que não é um modismo, mas um novo reflexo de comportamento capaz de ditar não apenas como nos relacionamos com o mundo agora, mas daqui em diante.

“Em caso de turbulência, coloque a máscara de oxigênio primeiramente em si mesmo antes de ajudar os outros.” Pois é, autocuidado é por nós, mas também por todos.

Marcela Rodrigues

Jornalista especializada em consumo consciente e bem-estar. Há mais de cinco anos, pesquisa de forma independente o movimento slow beauty, sendo referência sobre o tema no Brasil. Estudou design para sustentabilidade em Gaia Education Brasil e tem formação em hatha yoga e yogaterapia pela Humaniversidade Holística (SP), além de certificações em práticas alternativas de autocuidado, como aromaterapia e herbalismo. É autora de aNaturalíssima, plataforma de criação de conteúdo (on-line e off-line) sobre estilo de vida consciente e beleza natural. Também é palestrante e consultora para desenvolvimento sustentável.