Beleza

Mudar o cabelo e o efeito na autoestima

Seja um novo corte, uma transição capilar ou simples toque no visual, a estação das flores chega para inspirar você a descobrir formas de expressar a beleza

por Juliana Vaz | Animação de Matheus Wohlenberg Atualizado em 14 set 2020, 11h48 - Publicado em 11 set 2020 08h36

Há quem goste do estilo e dos casacos do inverno ou do sol e suor do verão. Mas tem uma coisa que a primavera traz com maestria: a ideia de mudança, já que saímos de uma estação cinza, de céu nublado, para dias com céu azul, gramados verdes e flores crescendo, com muita cor. E a época do florescer é a metáfora perfeita sobre transformações – e elas podem começar apenas mudando o cabelo, símbolo forte da nossa aparência e percepção de si.

A psicologia da mudança

Não à toa, Florescer é também o título do segundo livro do psicólogo Martin E. P. Seligman (compre aqui), líder de um movimento chamado psicologia positiva, que parte do princípio que a terapia deve ir além do alívio do sofrimento e elevar a qualidade de vida humana, buscando desenvolvimento pessoal e coletivo. E isso se aplica também à aparência.

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Tara Denny/Getty Images

O bem-estar está atrelado a diversos pilares, e nossa percepção física própria, nos sentirmos bem com o que vemos no espelho, é essencialmente uma delas. A autoestima, sim, vem de dentro, mas muito tem a ver com o padrão de beleza externo socialmente referenciado. “É preciso ressaltar que para estudar a mente humana existem aspectos biopsicossociais e raciais para identificar o nosso lugar, a nossa subjetividade, que torna nossa mente única”, pontua a psicóloga Luana Moreira, do Rio de Janeiro.

“Seja o contato visual ou tato, ele aciona todos os nossos sentidos por meio de uma onda eletromagnética que será enviada até o cérebro e traduzida às sinapses em algumas associações”

Seja no cabelo, no jeito de se vestir e se maquiar, com cada movimento que nós fazemos, nós aguçamos nossos sentidos. “Na Gestalt terapia [modelo psicoterápico com ênfase na responsabilidade por si mesmo], isso se chama função de contato. Seja o contato visual ou tato, ele aciona todos os nossos sentidos por meio de uma onda eletromagnética que será enviado até o cérebro e traduzida às sinapses e algumas associações. Como vamos lidar com esses estímulos depende do meio social, como o contexto reverbera dentro de nós”, diz Luana.

O que nos leva a um aspecto bem importante na (re)construção de beleza interior e da aceitação, principalmente para as mulheres: o cabelo.

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Transição capilar

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), o Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de produtos capilares no mundo. Historicamente, o cabelo exibe uma relação de poder e uma ligação direta com a sensualidade.

“Cresci ouvindo que o cabelo crespo era errado, feio, que não podia ter volume. Só há três, quatro anos, fui entender que diversas situações que vivi eram racismo”

Amanda Pris, maquiadora e hair stylist, é do Belém, no Pará. Ela conta que o padrão de beleza por lá, é o de longos cabelos escuros e lisos, tal qual o imaginário estereótipo de mulheres indígenas. “Eu era a única pessoa negra do meu núcleo familiar e escola. Cresci ouvindo que o cabelo crespo era errado, feio, que não podia ter volume. Hoje, a gente fala muito sobre o que é racismo e só há três, quatro anos, que fui entender que diversas situações que vivi eram racismo dignos de serem enquadrados como crime”, compartilha Amanda. Como tantas mulheres, ela aderiu ao relaxamento (uma alisamento mais brando) aos 8 anos de idade e, aos 15, fez alisamento com formol e chegou a “conquistar” fios longos e lisos. Até que teve dois cortes químicos, ou seja, quando a química aplicada danifica o fio as hastes a ponto de rompê-las.

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Vladimir Vladimirov/Getty Images

“Como é o meu cabelo? Foi literalmente a pergunta que me fiz. Eu já não sabia, nem tinha referência”

O evento foi traumático. Ela decidiu parar de alisar e se cuidar. “Como é o meu cabelo? Foi literalmente a pergunta que me fiz. Eu já não sabia, nem tinha referência. E se eu não estivesse tão segura do que queria, teria cedido porque minha família foi contra. Foi um processo muito doloroso”. Ela queria raspar a cabeça e a mãe não deixou. A saída foi colocar megahair. “Foi a primeira vez que entrei no salão que era só para gente preta. Isso mudou a minha vida. Elas entendiam pelo o que eu tinha passado até ali, afinal não era nem a primeira nem a última vez que recebiam uma mulher com corte químico, abalada por perder o cabelo por causa de alisamentos. Foi aí que decidi que não ia nunca mais usar química nenhuma.”

Mas não é nada fácil. Muitas mulheres criam a expectativa de que imediatamente após fazer o “big chop” (grande corte, em tradução livre), vão se sentir incríveis, “se sentindo deusas poderosas da ancestralidade… Mas a coisa não é bem assim para a maioria. Eu tive apoio das mulheres do grupo de transição capilar que fazia parte na época mas até hoje leio relatos de pessoas que não tiveram essa satisfação imediata”, diz Amanda.

O big chop é radical: cortar todo o cabelo alisado para deixar o natural crescer. “Foi muito dolorido. A construção da autoestima não é nada fácil. É um cabelo que vai demorar meses para crescer e formar um cacho. Anos para chegar ao meio das costas.”

Black girl portrait
Black girl portrait Jasmin Merdan/Getty Images

Para Amanda, o cabelo longo está diretamente ligado a performance de gênero, de feminilidade, e isso a atrapalhou durante o processo de transição capilar. Mas ela quebrou o platô do questionamento a ponto de se ver e se sentir mais poderosa com o cabelo curto. “Agora, por conta do isolamento social, passei a deixá-lo crescer. Estou experimentando. Quero ver como ele é realmente longo. E se eu mudar de ideia, me permito sem cobranças internas.”

Não existe um método unânime de passar pela transição, um corte ideal ou produto perfeito. As trocas de experiências, tentativa e erro, é que vão guiar individualmente essa fase transformadora.

O comportamento de ousar voltar ao seu natural é extremamente oposto ao de pessoas que chegavam ao salão com a referência de cortes de famosos – sem levar em conta a textura do próprio cabelo ou o estilo de vida.

“O natural é sempre o melhor caminho. Quando a gente se afasta disso, acaba tendo regras difíceis de seguir”

Estamos em um momento de celebrar o individual. “O natural é sempre o melhor caminho. Quando a gente se afasta disso, acaba tendo regras difíceis de seguir. Por exemplo, se o cabelo é cacheado e você quer usá-lo com uma franja lisa, isso vai te exigir escová-la a cada lavagem. Quem tem tempo para isso hoje?”, fala Cris Dios, cosmetóloga, hair especialista e sócia proprietária do Grupo Laces.

“Busco sempre saber como é o estilo de vida do cliente. Não digo que o corte ‘não é para aquele rosto’, que ‘a franja não combina’, mas explico, por exemplo, que a descoloração é agressiva, que não vamos alcançar o tom de primeira… Tudo para levar a pessoa a percorrer o caminho de reflexão que a leve à própria realidade. É buscar um equilíbrio entre textura e o estilo de vida dela.” Afinal, quem nunca passou pelo pesadelo de detestar o corte e a cada lavagem se frustrar ainda mais por ter que lançar mão de artimanhas, seja secando, estilizando?

Guia prático de mudança capilar

As influencers e divas podem ser, sim, fonte de inspiração e a nova temporada é um bom momento para se permitir uma mudança. Mas lembre-se que, mais do que a aparência em si, talvez seja a atitude delas, de confiança, que encanta. Antes do impulso, questione-se de onde vem essa vontade de mudar. No mais, se joga! 

Devagar na tesoura

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Graeme Montgomery/Getty Images

Mudar de corte pode parecer agressivo para você ainda, mas usar um acessório novo, lenços, tranças e coques, já dão uma renovada no próprio olhar e no reflexo do espelho. Se a vontade ainda é de mudança mais “permanente” mas você não tem coragem para tirar do comprimento, a franja é uma mudança mais radical mas que permite manter seus longos — e a partir do cuidado com ela, você consegue brincar e entender se realmente vai se adaptar ao curto.

O ideal é que o primeiro corte seja feito com um profissional, mas para os retoque na franja, a hairstylist Milly Olmos, do Espacio Secreto, em São Paulo, ensina como cortar em casa:

Quer mudar a cor?

O tom não é restrição (esqueça as “regras” de que certa cor não funciona no seu tom de pele), mas avalie se retoques frequentes serão necessários, pois isso requer paciência e custo financeiro. Você pode achar, por exemplo, o tom platinado lindo mas chegar nele requer horas de processo de descoloração e talvez nem assim o cabelo resista ao procedimento e chegue ao loiro desejado. Por outro lado, uma mudança com tons mais claros que iniciam a alguns centímetros da raiz (o loiro com raiz esfumada) vai danificar menos o cabelo e exigir menos visitas ao salão para retoque.

Já, os fios brancos não têm somente a coloração diferente, mas também toda a estrutura interna, que possui mais queratina que os demais fios. É preciso cuidar deles com carinho pois, mesmo tingindo, a necessidade de hidratação intensa será necessária. Talvez seja a hora também de assumir os brancos e aqui a gente te conta como.

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Aparência na pandemia

Com o isolamento social e o uso obrigatório de máscaras em espaços públicos, o cabelo se torna uma parte ainda maior da representação de quem somos para os outros. Mas os olhos ainda têm um grande papel nessa imagem.

Delineados gráficos, maquiagem com pedrarias, cores vibrantes, cada vez mais a maquiagem sai desse lugar em que se sentir maquiada é um pele perfeita, lábios desenhados… “Podemos levar as coisas menos a sério e não é uma mudança só da geração TikTok, mas para várias faixas etárias. Levar a informação de cor aos olhos, com uma sombra esfumada, já é se colocar de outra forma no mundo”, diz Amanda Pris.

“Usar batom por debaixo da máscara, sem ninguém para admirar, é fazê-lo para si mesma, para se sentir bonita”

Ainda em um contexto de isolamento social, a maquiagem ganha um sentido diferente, como aponta Amanda, “usar batom por debaixo da máscara, sem ninguém para admirar, é fazê-lo para si mesma, para se sentir bonita.”

Mais do que tendências estabelecidas, o que Amanda fala é de olhar para si mesma, nesse contexto do isolamento social e repensar a beleza que você tem enxergado até hoje no espelho.

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Matheus Wohlenberg/BOA FORMA