Corredoras falam da importância da presença de negras no esporte

Conversamos com Esther e Débora para discutir a presença das mulheres negras em espaços pouco ocupados por elas, como os esportivos

Por Giulia Granchi, Gislene Pereira - Atualizado em 30 abr 2018, 14h47 - Publicado em 21 dez 2017, 18h31

Nos Jogos Olímpicos da Antiguidade, as mulheres não somente eram proibidas de participar mas até mesmo de assistir às competições (a inclusão das atletas só aconteceu em 1900). Apesar dos avanços, conhecemos as dificuldades enfrentadas no Brasil e no mundo até hoje. A ala feminina sofre com menor visibilidade, preconceito, sexualização e desigualdade salarial. Quando falamos sobre representantes da etnia negra, a situação é ainda pior: nenhum dos 33 presidentes das Confederações Olímpicas Brasileiras são negros.

Mas é claro que há atletas e ativistas cheias de força e muita paixão pelo esporte para buscar a mudança, como é o caso da estudante de engenharia ambiental Esther Paranha – que começou a correr há pouco mais de 2 anos quando foi convidada pelo time da faculdade a fazer um teste (a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo não tinha nenhuma mulher no time e precisava da representatividade feminina) – e de Débora Gonçalves, que antes era praticante apenas de musculação, começou a correr com um grupo no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e assim como Esther, tomou um susto ao perceber a ausência de negras.

Grupos de corrida

Esther é líder de um grupo de corrida só para mulheres com as amigas Marcella Cassemiro, Liana Tortato e Verônica Grether. O Elas que Voam, apoiado pela marca Adidas, busca incentivar um dos pontos mais positivos do esporte: a democracia. “É muito legal ver como a confiança das participantes vai mudando depois que elas frequentam o turma. Algumas, antes, só vinham acompanhadas dos maridos e, outras, só usavam calças. Com o tempo, elas vão se sentindo mais confortáveis e entendem que o espaço também é delas”, conta Esther.

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A crew de corrida de Débora, a PRJCT RUN, é formada só por líderes negros, mas aceita corredores de todos os tipos. A princípio, o grupo não era tão focado no movimento negro até sofrerem um ataque racista. “Estávamos correndo na Avenida Paulista, que estava fechada para pedestres, e uma ciclista que queria ocupar o mesmo espaço na rua se irritou e gritou ‘tinha que ser preto mesmo’. Uma das meninas que participava da corrida, também negra, começou a chorar. Depois desse episódio, sentimos a necessidade de levantar a bandeira e começamos a nos voltar a isso: somos pretos e somos fortes juntos”, explica Débora.

Ambos os grupos querem acolher e empoderar pessoas comuns que ganham confiança e se divertem com a corrida. “Não buscamos mostrar corpos ou vidas perfeitas, mas que é possível manter uma vida cheia de tarefas e ao mesmo tempo, saudável”, diz Esther. “Acho bacana as mulheres negras se juntarem e mostrarem que somos muito mais do que a sociedade quer, mais que o estereótipo. Quero que uma foto que eu poste inspire pelo menos uma outra mulher”, complementa Débora.

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Para as negras que querem se introduzir em espaços pouco ocupados até então, Esther deixa um conselho: “Serei uma das dez primeiras a se formarem na POLI-USP. É importante estar em lugares como esse para que outras olhem e pensem ‘se ela conseguiu, eu também posso’. Sim, haverá dificuldades, mas se é algo que você quer, vá em frente. Não deixe que as expectativas alheias ou a falta de representatividade impeça você de tentar”.

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