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Nova pirâmide alimentar: o que muda na prática e onde mora o risco dos excessos?

Especialistas explicam que as mudanças nas diretrizes alimentares reforça a "comida de verdade"

Por Maraísa Bueno
17 jan 2026, 22h00 •
Nova pirâmide alimentar: proteínas são o destaque, mas possuem ressalvas, explica endocrinologista
Nova pirâmide alimentar: proteínas são o destaque, mas possuem ressalvas, explica endocrinologista (freepik/Freepik)
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  • Nos últimos dias foi divulgada a revisão das Diretrizes Alimentares dos Estados Unidos para 2025–2030. Ela trouxe de volta ao centro do debate um tema sensível para a saúde pública: o equilíbrio entre macronutrientes, o lugar da proteína na dieta e os limites do discurso simplificador em torno da alimentação.

    Ao apresentar uma pirâmide alimentar invertida, que amplia o protagonismo de proteínas e gorduras consideradas saudáveis e reduz o espaço de carboidratos refinados e ultraprocessados, o governo americano sinaliza uma inflexão relevante em relação a modelos anteriores e levanta questionamentos técnicos importantes.

    A proposta se alinha ao movimento “Make America Healthy Again” (MAHA), liderado pelo secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., cuja mensagem central é direta: priorizar alimentos em sua forma mais próxima do natural e reduzir açúcar e produtos ultraprocessados. Na prática, a nova representação visual coloca carnes, laticínios integrais e vegetais no topo da pirâmide, afastando-se tanto da pirâmide tradicional quanto do modelo circular “MyPlate”.

    Para a endocrinologista Dra. Alessandra Rascovski, diretora médica da clínica Atma Soma e autora do livro AtmaSoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor, a mudança responde a uma demanda antiga. “A medicina, de forma geral, já estava pedindo essa virada nutricional há muito tempo, porque a pirâmide anterior se baseava muito em carboidratos refinados e dava pouca ênfase, principalmente, nas proteínas”, afirma.

    Segundo a especialista, a discussão ganha ainda mais relevância no contexto atual de tratamento da obesidade, marcado pelo uso crescente de medicamentos como semaglutida e tirzepatida. “Vale uma reflexão em relação às chamadas canetas emagrecedoras, porque elas diminuem a fome, aumentam a saciedade, mas não fazem um milagre em relação à escolha alimentar. Elas não educam o paladar, não têm uma estratégia de organização do prato e não melhoram o repertório alimentar dos pacientes”, diz.

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    Nesse sentido, a nova pirâmide funcionaria como um alerta educativo mais amplo. “Que venha para ficar e para alertar toda a população, principalmente em relação a evitar os ultraprocessados, que mais do que não serem benéficos para a saúde, acabam tendo um efeito preventivo nas doenças”, completa.

    Proteínas em alta, mas com ressalvas

    As diretrizes americanas passaram a recomendar ingestão proteica baseada no peso corporal (entre 1,2 e 1,6 g por quilo ao dia), e abriram espaço para laticínios integrais sem açúcar adicionado. Ao mesmo tempo, reforçaram a redução de carboidratos refinados e de alimentos ultraprocessados, além de manterem o foco em frutas, vegetais e grãos integrais ricos em fibras.

    Para a nutricionista Luisa Nunes, da Atma Soma, o ponto central não está em escolher um modelo “vencedor”, mas em evitar leituras extremadas. “O que temos que entender é que os extremismos não vão ser bons de nenhuma forma”, afirma.

    Na avaliação da nutricionista, a leitura mais madura das novas diretrizes passa por integração, não por substituição radical. “Podemos pegar um pouquinho dos três modelos e fazer uma pirâmide equilibrada: ter consumo de proteína, gorduras boas, alimentos integrais, verduras e legumes. E, no final, baixo consumo de ultraprocessados, carboidrato refinado e açúcar. Isso tem que diminuir de toda forma”, diz.

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    Ela também chama atenção para o comportamento alimentar no dia a dia, tema pouco contemplado em diretrizes oficiais. “Não é meio ‘croissant’ que vai engordar alguém, assim como não é uma salada que vai emagrecer. É o que você faz no todo. A vida não é cortar todos os carboidratos e comer só salada e frango”, afirma.

    Impactos de longo prazo e o olhar da oncologia

    A ênfase maior no consumo de proteínas, no entanto, amplia o debate para além da composição do prato no curto prazo e passa a envolver também questões relacionadas ao envelhecimento saudável, à preservação de massa muscular e à prevenção de doenças crônicas. Sob a ótica da oncologia, as mudanças nas diretrizes alimentares dos Estados Unidos são vistas como um marco relevante na forma como a alimentação passa a ser encarada ao longo da vida.

    Segundo o oncologista Elge Werneck, da Oncoclínicas, a diretriz responde a uma necessidade concreta dessa faixa etária, mas não exclui outros pilares fundamentais da alimentação. Além disso, ele reforça que a mudança não deve ser interpretada como uma liberação irrestrita.

    “Todas essas orientações vêm como um estímulo para que nós tenhamos mais saúde e mais longevidade. Portanto, priorize proteínas e frutas, verduras e legumes e reduza o consumo de gordura e açúcar”.

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    O que muda e o que permanece em debate

    Vale lembrar ainda que as novas diretrizes americanas influenciam diretamente políticas públicas, como merenda escolar, programas de assistência alimentar e recomendações clínicas. Ao mesmo tempo, geraram críticas de entidades como a Associação Americana do Coração, que demonstrou preocupação com o risco de aumento do consumo de sódio e gorduras saturadas, especialmente a partir de carnes vermelhas e laticínios integrais.

    O consenso entre especialistas é que a ênfase em alimentos minimamente processados representa um avanço, mas ainda há lacunas importantes sobre quantidades ideais, fontes de proteína e impactos de longo prazo. Como as próprias diretrizes reconhecem, mais pesquisas de alta qualidade serão necessárias para sustentar algumas recomendações.

    No Brasil, onde a pirâmide alimentar já incorpora conceitos como alimentação baseada em alimentos in natura e o Guia Alimentar da População Brasileira é referência internacional, o debate ganha contornos próprios. Ainda assim, a revisão americana funciona como um sinal de alerta global: mais do que discutir qual macronutriente ocupa a base do prato, o desafio está em reconstruir a relação das pessoas com a comida, longe dos ultraprocessados e dos discursos simplistas e mais próxima da ciência, do contexto e do equilíbrio.

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