Rita Lobo: “Cozinhar é uma ferramenta para uma vida melhor”

Defensora da comida de verdade, a criadora do Panelinha nos ajuda a fazer as pazes com a alimentação e excluir de vez os ultraprocessados

Por Helena Galante Atualizado em 8 jun 2021, 20h38 - Publicado em 9 jun 2021, 09h00

“Receitas que funcionam.” Foi com esse princípio que Rita Lobo estabeleceu, em 2000, o Panelinha, hoje uma produtora audiovisual e uma editora de livros best sellers como O Que Tem na Geladeira e Pitadas da Rita. Quem já testou alguma das receitas do seu canal do YouTube, com perto de 900.000 seguidores, ou dos programas do canal pago GNT, como o Cozinha Prática, já comprovou: elas funcionam mesmo. Por trás dos ingredientes e das panelas, porém, a cozinheira de voz doce e pulso forte arquiteta uma revolução silenciosa: a da comida de verdade! Cozinhar é uma ferramenta para uma vida melhor. Abrir mão da habilidade humana é um desperdício”, defende.

Sem nunca se esquecer que alimentação é uma fonte de prazer e de saúde, Rita se entregou por inteiro à produção de conteúdos durante a pandemia. Com a série “Rita, Help! Me Ensina a Cozinhar na Quarentena”, ajudou quem nunca tinha cozinhado um arroz com feijão a mandar bem no essencial. No ousado Desafio dos 30 Dias Para Excluir de vez os Ultraprocessados, levantou a bandeira de uma alimentação mais natural. São passos simples, como beber água no lugar de uma bebida doce pronta, usar chocolate em pó no lugar do achocolatado e criar seu próprio tempero ao invés de usar as versões industrializadas, mas com impacto tremendo no dia a dia. “Está muito difícil para o consumidor fazer escolhas. É sedutor achar que se tirar o glúten, resolveu a alimentação. Mas comida de verdade não tem fórmula mágica”, alerta. “Quero ajudar a pessoa a fazer as pazes com a alimentação.

Nessa entrevista exclusiva para a Boa Forma, Rita fala ainda da busca por mais contato com a natureza, dos gatinhos recém-adotados, das batalhas que não abre mão e do refúgio de paz que encontra na cozinha: “Adoro cortar cebola, repetir até chegar à perfeição, é um estado meditativo.”

Rita Lobo: “Cozinhar é uma ferramenta para uma vida melhor
irr Rita Lobo: “Cozinhar é uma ferramenta para uma vida melhor” Reprodução Instagram/Divulgação

INÍCIO DE TUDO

“Eu fui parar na cozinha porque eu não sabia cozinhar: tinha 19 anos e não sabia fazer nada. Achei que seria importante aprender, fui fazer um curso em Nova York e fiquei obcecada. Cozinhar era uma questão de prazer: é muito legal você ver um bolo crescendo dentro do forno, perfumando a casa”, relembra, com brilho no olho que só os muitos apaixonados por um assunto têm. “Queria muito que todas as pessoas aprendessem a cozinhar, virei a chata da minha turma que só falava sobre isso. Paralelamente, surgiu a internet e, por sorte ou circunstância, eu canalizei isso para uma plataforma que me dava escala. Não precisava falar com 10 pessoas, poderia falar com 10 mil, 100 mil, 1 milhão e até 6 milhões, 20 anos depois.”

CONSCIÊNCIA COLETIVA

Seu trabalho de criação de conteúdo e audiência no Panelinha praticamente dobrou no último ano, chegando a 6 milhões de visitantes únicos por mês. As conquistas pessoais, porém, não aplacam a angústia pelo contexto geral. “Diante não só da pandemia, mas do cenário político, econômico, social e estético do país, é muito difícil mesmo que você tenha só vitórias”, conta Rita. “É muito difícil estar bem quando se tem milhões de pessoas passando fome. Essa noção mais coletiva ficou evidente neste ano pandêmico.” As necessárias medidas de distanciamento social impactaram profundamente o dia a dia. “No início da pandemia, fechamos o estúdio e eu fiz tudo de casa: todas as funções, para além do que acham que é o meu trabalho. Não é à toa que existe eletricista, diretor de arte, assistente, culinarista nessa profissão. Somei todas essas funções. Trabalhamos feito uns condenados.”

DE PRAZER À CIÊNCIA

A dedicação irrestrita começou apoiada na chave do prazer, mas foi cada vez mais ganhando um propósito maior, conectado a uma preocupação com a relevância de uma boa alimentação para a saúde. “A ciência descobriu que cozinhar é superimportante para os seres humanos. É uma habilidade que ajuda muito a fazer melhores escolhas.”

“Antes do coronavírus, a grande epidemia era a obesidade. Não tem a ver com estética, tem a ver com saúde, com doenças não transmissíveis que estão relacionadas a má nutrição e matam”, alerta. “Por que isso aconteceu? Grande parte da alimentação é baseada em alimentos que nem deveriam mais ser considerados alimentos. Não é só que é industrializado, o nosso feijão e arroz também é industrializado. Falo do que foi desconstruído e reconstruído, recebeu tantos aditivos químicos que tem cara de comida, cor de comida, sabor de comida, cheiro de comida mas não é comida de verdade, é ultraprocessado.”

Para que as pessoas sejam saudáveis, sua defesa é pela exclusão, de vez, dos ultraprocessados . “O padrão alimentar tradicional brasileiro formou-se no decorrer de centenas de anos, com alimentos abundantes na região. É uma dieta testada por milhões de pessoas desde a primeira pessoa que juntou arroz e feijão”, reforça. Quem comia muito fora antes da pandemia e passou a viver de macarrão instantâneo, sentiu o baque no organismo. “As pessoas sentiram a saúde pior e muitas decidiram mudar.” Agora, se o desafio é excluir os ultraprocessados, então alguém vai ter que cozinhar. “E esse alguém não pode ser só a mulher, por obrigação. Cozinha é assunto da casa, não da dona de casa.” 

“Abrir mão dessa habilidade humana é um desperdício. Lá atrás, o que eu comecei por prazer, hoje está claro que é uma ferramenta para uma vida melhor.”

SEM REDUCIONISMO NUTRICIONAL 

“A nutrição é assunto recente em termos científicos. Na década de 60, a ciência olhava só para os nutrientes, interessada em saber quais nutrientes aquele alimento tem e o que isso fazia no corpo. Nesse sentido, os achados eram reducionistas: tal coisa faz mal. Com isso surgiram todos os erros, como trocar manteiga por margarina”, afirma. Um grande perigo do reducionismo nutricional é induzir a conclusão de caminhos instantâneos para o bem-estar. “Está muito difícil para o consumidor fazer escolhas. É sedutor achar que se tirar o glúten, resolveu a alimentação. Mas comida de verdade não tem fórmula mágica.”

Grande parte do público já está desconfiado dessa abordagem simplista da nutrição. “Essa coisa de uma hora pode comer ovo, uma hora não pode, o que está por trás disso? Dizer que não pode comer arroz, porque é caloria vazia… Será que todo mundo que comeu arroz estava errado? Para quem já caiu essa ficha, o Panelinha tem muito conteúdo, ajuda a pessoa a fazer as pazes com a alimentação e entender a diferença entre comida de verdade e ultraprocessados.” Para os seguidores, felizmente, está cada vez mais difícil cair no conto de que cozinhar não é importante, que é caro, que basta abrir o pacotinho e colocar no microondas.

Rita Lobo:
Rita Lobo: “Virei a louca dos gatos”, diverte-se Reprodução Instagram/Divulgação

TCHAU, CELULAR

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Como para todos nós, se afastar do celular é uma questão para Rita. Os 1,7 milhão de seguidores (só no Instagram pessoal) demandam atenção – mas pelo menos uma vez na semana, no sábado ou no domingo, a meta é desligar – mesmo. Depois de duas semanas intensas de gravação praticamente todos os dias, o desacelero vem em forma de horas em frente da TV, ou voltinha com um dos filhos, Dora e Gabriel. “Não tenho problema em ficar só olhando para o teto também”, diverte-se. “Mas tem uma coisa que é a minha salvação: meus dois gatos, a Lili e o Leo, eles me colocam em outro estado.” Leo foi adotado duas semanas antes do início da pandemia e Lili chegou mais recentemente. É brincando horas e horas com ele que a cozinheira, escritora e apresentadora garante a sanidade mental: “As coisas belas me trazem muito prazer, só de ficar olhando… Eles me trazem paz, alegria, satisfação, são uns gostosos. Pronto, virei a louca do gato”, ri!

CRÍTICAS E HATERS

Fora da atmosfera acolhedora de casa, como lidar com o ambiente hostil e polarizado da internet? “Idade, né”, fala, fazendo graça. “Velha eu não sou, mas não tenho mais vinte nem trinta e passei dos quarenta há 6 anos. No Instagram, a primeira pessoa que me falou ‘prende esse cabelo’ talvez eu tenha ficado chateada. Mas daí você vai entendendo que o seu trabalho não é para todo mundo.”

No Twitter, a veia sarcástica, mas extremamente educada de Rita, vem à tona. Nada de palavrões ou xingamentos de volta para os haters. “Claro que sei dar bronca, fico brava, indignada, mas não sou barraqueira. Se a pessoa quer me ofender e fala ‘volta para cozinha’ eu vejo como uma oportunidade, falo ‘claro, vamos juntos’”.

Quem entende a importância do tema e é tocado pela forma apaixonada de Rita apresentar a cozinha, vira quase uma seita de avental na cintura e colher na mão. “Aprender a cozinhar é uma revolução silenciosa, que acontece dentro da casa da pessoa.” 

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Quando a coisa aperta, Rita Lobo recorre à sua prima, Irrita Lupo. A personagem de fala blasé que revira os olhos para quase tudo nasceu de uma brincadeira com um filtro no Instagram. “Ela é minha válvula de escape, tem uma única função que é me divertir.” A brincadeira fez tanto sucesso que até participação nos programas do GNT a Irrita teve, criticando a apresentação de um prato proposta por Rita e fazendo uma sugestão muito mais chique.

Paulistana, Rita Lobo sente falta do contato com a natureza na pandemia
Paulistana, Rita Lobo sente falta do contato com a natureza na pandemia Reprodução Instagram/Divulgação

CONTATO COM A NATUREZA

Paulistana, Rita viveu em vários lugares do mundo, mas cresceu e morou a maior parte do tempo em São Paulo. A criação urbana nunca deixou transparecer tanto quanto na pandemia sua necessidade intensa de ligação com a natureza. “Senti muito falta de uma brisa, de vento na cara, de estar na praia ou no campo.  Descobri que a natureza é muito importante para a gente se equilibrar.” Uma forma de valorizar esse contato, porém, que nunca saiu de seu radar foi justamente a cozinha. “As pessoas descobriram que cozinhar é importante, é mentira quem fala que não é. Cozinhar é uma ferramenta, um refúgio – que traz essa ligação com a natureza, com os ingredientes”.

MEDITAÇÃO E ATIVIDADE FÍSICA

Na adolescência, Rita se dedicou muito a esportes: tênis, esgrima, equitação. “Para o meu pai, os filhos tinham que fazer muito esporte”, conta. “Mas eu não sou esportista, quem sabe se na infância tivesse sido obrigada a continuar no balé, talvez tivesse ficado, pois sou uma pessoa da repetição.” Hoje, pilates e caminhadas são as suas atividades preferidas. “Não sou do cardio”, brinca. Para cultivar equilíbrio emocional, vez ou outra faz uma meditação que aprendeu com a Monja Coen em uma de suas lives promovidas durante a pandemia. “Você começa pensando onde você está, nesse prédio, na rua, no quarteirão, no país… Até o cosmos. Você faz esse caminho de ida espalhando amor, e depois você volta espalhando amor. Não faço com frequência, mas sempre que faço, me faz bem.” No dia a dia, sua escolha para alcançar a paz interior é outra, mais simples: cortar cebola. “Adoro praticar para fazer sempre igual, até chegar no perfeito. É totalmente um estado meditativo.” 

CAPA

  • Fotos e imagens em video: Estúdio Panelinha
  • Direção de arte: @oipedroemilio
  • Edição de vídeo: @oipattylima
Rita Lobo: capa de junho da Boa Forma
Rita Lobo: capa de junho da Boa Forma Estúdio Panelinha/BOA FORMA

Esse especial faz parte da edição de junho de 2021 de Boa Forma,
que traz a Rita Lobo em sua capa.
Clique aqui para conferir os outros especiais.

 

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