Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

Além do modelo anatômico

Já pensou que a “barriga tanquinho" pode, na verdade, não ser funcional? Entenda porque a classificação limitada dos músculos gera uma cadeia de reações

Por Samorai 22 jun 2021, 21h39

Hey folks! Você já parou para pensar que algumas descobertas ou mudanças de paradigmas e pontos de vistas mudam conceitos e teorias que estavam muito sólidas e eram quase verdades absolutas? Vou dar um exemplo. Imagine o tamanho do impacto que causou a criação de um simples microscópio. De repente, o mundo descobriu que existem microrganismos em tudo. Seres minúsculos que andam em você o tempo todo e que, muitos deles, podem te adoecer e até matar. Imagine hoje, se não houvessem os microscópios e toda a informação que ele proveu para nós, nessa pandemia. De repente, pessoas estariam morrendo e nós não teríamos ideia do que era, nem do que fazer. Seria muito difícil criar vacinas. Tudo seria diferente e diversas teorias surgiriam, a maioria delas com base em castigos religiosos. Algumas poderiam ser até próximas da verdade, mas aos olhos da maioria, seria rejeitada. Imagine, sem o microscópico e o conceito de vírus e bactérias, alguém tentando convencer as pessoas que um vírus, que nem um ser vivo é, mas se reproduz, está no ar, nas superfícies e nas pessoas, mas ninguém consegue ver, é a causa disso tudo. Realmente, sem o ponto de vista dos conhecimentos que temos hoje, seria impossível.

Para entender melhor o que quero explicar, vou dar como exemplo um dos maiores cientistas de todos os tempos, Sir Isaac Newton. Suas descobertas são a base da física mecânica e foram tão bem feitas que era impossível estarem erradas. Suas leis básicas e imutáveis eram dadas como verdade absoluta, afinal todas as matérias submetidas à Lei de Newton sempre respondiam da maneira como ele descreveu. E isso perdurou por muito tempo. Até que se descobriu um universo gigantesco que não se comportava da maneira que Newton imaginou.

Você pode estar imaginando que esse universo está longe daqui, mas te garanto que ninguém está mais perto. É o universo subatômico, que dá origem a uma nova forma de física, a quântica. Não quero me aprofundar sobre a explicação dessa ciência, mas a física quântica é a ciência que estuda os fenômenos atômicos e subatômicos e que mostra que, nesse nível, a mecânica, aqui chamada de mecânica quântica, é diferente da mecânica newtoniana. Um dos exemplos é quando diz que um corpo não pode ocupar dois lugares distintos, porém, ao nível quântico, uma molécula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Logo, a partir de um outro paradigma, enxergamos coisas diferentes que não estávamos vendo. E as consequências disso produzem fatos, teorias ou até coisas que seriam impossíveis sob os conceitos anteriores.

Você pode pensar que tudo bem, isso não impacta em nada. Afinal, vivemos um mundo mais complexo, em que o comportamento de um átomo não faz assim tanta diferença. Até porque, a física de Newton é muito fácil de entender. Para ficar apenas no nosso exemplo, foi só a partir da física quântica que pudemos ter celulares, computadores, ressonância magnética, smartphones, lasers, lâmpadas de LED. Ou seja, sem esse novo paradigma, não teríamos nada disso.

Isso quer dizer que Newton estava errado? Na verdade, não. Estava incompleto. Ele criou essa teoria com os recursos que ele tinha. E é um pouco assim que vejo o modelo anatômico tradicional. Ele está errado? Não. Está incompleto. E por quê? Porque alguns conceitos, que são princípios do treinamento 3Dimensional e funcionam como lentes a partir da qual enxergamos o mundo e o movimento humano, não são utilizados pela ciência tradicional. E esses conceitos são como microscópios que nos mostram esse mundo que da maneira tradicional não vemos.

Forças físicas

No treinamento 3Dimensional nós levamos as forças físicas em consideração. Em nossos princípios, são as forças físicas que ativam o corpo e, a partir dessa ativação, os movimentos acontecem. Por isso, se as forças mudam, nosso movimento muda. Logo, uma mudança da gravidade resulta em uma mudança no movimento. Mas não só a gravidade. Se estou em uma pista de atletismo e faço a curva para a esquerda a 15 km/h, preciso de uma mobilidade de tornozelo diferente do que se eu fizesse a 25 km/h, porque a força centrífuga aumenta exigindo uma outra amplitude do movimento do tornozelo para realizar a mesma curva. A mesma coisa se a pessoa tem 60 kg ou 100kg e faz a curva na mesma velocidade. A mobilidade necessária no quadril de cada uma muda. Mas o que mudou? As forças físicas. Então, para definir a mobilidade de tornozelo, quadril ou qualquer outra articulação, preciso saber quais são as forças envolvidas.

Posição do corpo no espaço e ambiente

Uma classificação que a ciência tradicional faz é em relação à função muscular. Dada a orientação da fibra muscular e do movimento gerado a partir do encurtamento desta fibra é que as funções musculares são classificadas. Por exemplo, o abdômen. Analisando dessa forma, conclui-se que o abdômen faz a flexão do tronco. Mas isso está incompleto. E muitas vezes, teremos flexões do tronco sem a participação deste. Por exemplo, quando estou em pé e quero pegar algo no chão, flexiono o tronco. Porém, essa flexão não é feita pelo abdômen e sim, pela gravidade. Se eu cedo o corpo perante a gravidade que já existe, eu flexiono o tronco, não preciso de nada me puxando para baixo. Pense em uma marionete. Quando seu controlador deseja que ela abaixe a cabeça, ele apenas cede a cordinha que sustenta a cabeça. Não precisa de uma cordinha puxando-a para baixo. O corpo também não precisa. Ele cede a uma energia que já está aí, a gravidade, e os músculos posteriores desaceleram esse movimento para que a pessoa não caia no chão. A partir dessa análise, podemos concluir que os músculos posteriores são muito mais responsáveis pela flexão do tronco que o abdômen, que nessa situação não faz nada.

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Mas isso se a pessoa estiver de pé, porque se ela estiver deitada de barriga para cima e quiser tocar os pés, haverá também uma flexão de tronco e essa é de inteira responsabilidade do abdômen. Aqui ele realmente é o ator principal deste ato. Então o abdômen não faz nada quando estamos de pé? Faz sim, muitas coisas. Quando jogo os braços para cima e para trás da cabeça, ele desacelera esse movimento. Quando inclino o tronco lateralmente uma parte dele desacelera este movimento evitando minha queda. Quando faço uma rotação para fazer um movimento de arremesso, ele desacelera essa rotação e faz o movimento de volta, gerando como resultado o arremesso. Esses movimentos acontecem o tempo todo que estamos de pé. Extensão, flexão lateral e rotações para ambos os lados. Ou seja, ele faz muita coisa e a flexão é uma das que ele menos faz. E ainda que ele faça essa flexão quando estamos deitados, os outros movimentos que ele faz quando estamos de pé ou sentado acontecem infinitamente mais vezes que a flexão quando estamos deitados. Por isso que quando vejo no livro tradicional que a função do abdômen é flexionar o tronco, entendo que isso está incompleto. Não errado, mas incompleto.

E o que isso causa? Como são feitos os treinamentos de abdominal? Estimulando a flexão do tronco. Do ponto de vista funcional, podemos afirmar que esta estratégia não seria a mais adequada para cumprir sua função. No entanto, você pode dizer que tudo bem, afinal fico com a “barriga tanquinho”. Pense que você é um tenista. Você prefere a barriga tanquinho ou uma batida mais eficiente? E vou além, quando você faz essas flexões, você encurta seu abdômen. Lembra qual é a função dele? Desacelerar extensão, flexão lateral e rotação. Toda desaceleração necessita de um estiramento e um abdômen encurtado tem menos capacidade de estirar. Isso vai forçar outras partes e pode gerar dor. Muitas dores nas costas que atendi ao longo de 25 anos foram embora ao mudar o treino do abdômen para um mais funcional.

Concluímos assim que um músculo, para poder ser classificado adequadamente, deve se levar em conta a posição. Mas só isso? Não. O ambiente também. Mesmo de pé, se você estiver em uma piscina e tentar flexionar o tronco quem fará esse movimento? Bingo! O abdômen. Isso porque na piscina temos a força de empuxo. Aqui podemos observar mais uma vez as forças físicas influenciando o movimento. Então a classificação correta de um músculo deveria ser: depende. Depende do que? Da posição, do ambiente e das forças físicas. Mas não só isso. Depende da tarefa e das articulações adjacentes. Oi? Agora deu tela azul. Mas eu explico. Para realmente conseguir classificar uma ação muscular, preciso saber o que está acontecendo.

Vamos voltar ao abdominal. Se quero pegar algo no chão, ele não faz nada. Mas, se quero flexionar o tronco para depois saltar e, para isso, preciso acelerar essa flexão do tronco, mesmo estando de pé, quem acelera essa flexão é o abdômen. Se vou dar um soco, a função do meu abdômen muda. Agora ele quer desacelerar a rotação do meu tronco que faço como preparação do soco, para depois acelerá-lo novamente para que esse soco tenha a máxima potência e assim, acertar o queixo do meu adversário. E se quero fazer guardar no Jiu Jitsu, ele atua mantendo a minha perna elevada. Viu como é mais complexo? E ainda tem as articulações adjacentes.

O que exatamente é isso? Esse é o efeito que um músculo tem em outras articulações que ele não cruza. Por exemplo, o sóleo. Ele se origina da tíbia e na fíbula e tem inserção no calcanhar. Porém, quando dou um passo, meu joelho e quadril flexionam e meu tornozelo faz dorsiflexão. O sóleo desacelera essa dorsiflexão. Até aí tudo bem, porque ele cruza a articulação do tornozelo. Entretanto, à medida que continuo a caminhada, meu corpo passa por cima do pé e o sóleo começa a desacelerar essa passagem do corpo, gerando extensão no joelho e no quadril. Ele não faz isso sozinho, mas junto com vários outros músculos, contudo também é uma função dele. Logo, podemos dizer que o sóleo também faz extensão do joelho e do quadril, mesmo que ele não cruze essas articulações. E se você for ver como ele está classificado nos livros, encontrará que ele faz flexão plantar do calcanhar. Ele até faz, mas na maioria infinita das tarefas, incluindo andar e correr, essa flexão plantar não é realizada por ele, mas sim, pela inércia do movimento.

Como podemos ver, os músculos estão classificados de maneira muito limitada e, na maioria das vezes, não expressam suas funções mais funcionais. Isso gera uma cadeia de reações a partir daí, como vimos no caso do abdômen, que ao treinar a flexão, podemos acabar tendo dor lombar. Quem não conhece alguém que sente dor nas costas ao fazer abdominais? No entanto, você só vai enxergar isso ao colocar os óculos do treinamento 3Dimensional.

Eu poderia escrever muito mais sobre isso, como o que acontece quando observamos o movimento, as articulações e os músculos pensando que tudo neles é tridimensional. Quando levamos isso em consideração, a lógica concêntrico e excêntrico muda muito, assim como a estrutura agonista, antagonista passa a não fazer sentido. Mas isso é um tema para uma próxima coluna, porque agora vou entrar em um mundo que não sabia que existia antes de enxergar a vida através desses óculos. Vou cuidar da minha filha. Ela me mostrou um outro universo que sempre esteve ali, mas eu não enxergava. Esse mundo não apareceu quando ela apareceu. Ele sempre esteve ali. Assim como tudo que falei acima sempre esteve ali, mas com os velhos paradigmas não era possível ver. Por exemplo, você acha que sabe o que é amor? Espere até ter um filho. Verás que não tem ideia do que é isso. E se você já tem, aposto que já me entendeu.

Forte abraço,

Samorai

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