Samorai: o educador físico é o novo colunista da BOA FORMA Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

Os grandes professores da vida

Pais, escola, amigos, trabalho, relacionamentos, filhos, netos... morte. Uma reflexão sobre os grandes professores da vida

Por Samorai Atualizado em 3 nov 2021, 11h04 - Publicado em 3 nov 2021, 11h01

Hey folks, ontem foi dia de finados e não poderia escrever uma coluna e ignorar esse fato. Aliás, se tem algo que não podemos ignorar é a morte. Até porque ela é um dos nossos maiores guias. Muitas coisas fazemos ou deixamos de fazer em razão da morte. Ela é nossa única certeza, mesmo que seja uma certeza incerta. Eu posso viajar para o Jalapão na minha vida e você nunca pisar lá. Por outro lado, você pode comer seriguela e eu nunca experimentar. Mas tanto eu como você morreremos um dia. Todos teremos que conhecer sua magnitude. Em nós e nos que amamos. Impossível ficar indiferente a ela. Ainda mais nos tempos atuais na nossa geração onde convivemos tão próximos dela e, ainda hoje com os números em baixa, temos ainda 300 mortes por dia, ou o equivalente a 3 aviões. Imagine o impacto na nossa sociedade se 3 aviões caíssem todo dia? O fato é que, embora não possamos escapar dela, tentamos viver como se ela não fosse presente. Nos relacionamos mal como ela vivendo com medo de tudo ou como se ela nunca fosse chegar. O caminho está sempre no equilíbrio. Mesmo que isso seja difícil. Difícil significa que leva mais tempo para aprender, mas é possível. Por isso, nesse dia de finados, talvez dos mais profundos de nossa história, antes de continuar esse texto, feche os olhos por três respirações profundas e respeite a sua dor, a dor dos outros e se reconecte com o infinito.

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Mas vamos lá, aproveitando que saí de férias e não escrevi coluna nos últimos 15 dias não pude abordar outro dia especial. O dos professores. E quero aqui contar uma teoria minha sobre a vida e sua imensa possibilidade de aprendizado com tudo a nossa volta, transformando tudo em professores. Como escrevi nesse texto tudo na vida pode ser caminhos para evolução. Seguindo essa mesma lógica, tudo pode ser um professor na nossa evolução. Entretanto, dada a nossa natureza, alguns professores são essenciais e a falta destes certamente serão sentidas e talvez até irreparáveis, porque você pode escolher o Jiu Jitsu como seu professor, como fiz, e isso ser pra mim um caminho de transformação maravilhoso. Mas se você escolher cuidar de plantas também será. Será outro caminho, mas igualmente rico e com imensas possibilidades. Mas tem alguns professores que são grandes mestres e, mesmo com suas diferenças e singularidades entre eles são essenciais nessa jornada. Algumas vezes não os temos, por opção ou não, e certamente isso trará perda. Vamos a eles.

Quando nascemos, tudo nos ensina, mas nenhum professor pode ser melhor que nossos pais. E por muito tempo serão nossos melhores professores. Nossas maiores influências. Aqui fica mais claro entender que não há substitutos para esses professores. Se você os perder a falta é irreparável. Claro que haverão substitutos, outros professores que podem fazer um trabalho melhor até do que os pais, mas essa falta não tem preenchimento e gera um tipo de aprendizado que só teremos também na falta.

Com o passar do tempo, esses pais e mães continuam como professores, mas entra em cena uma outra figura, a escola. Imagine o tamanho da perda de uma criança sem o papel da escola e com isso outros professores como o adulto que cuida dela e as próprias crianças. Nessa fase a escola representa este professor fundamental. E todos esses professores tem sua hora certa na vida. Entrar na escola com 40 anos pela primeira vez não cumpre esse papel.

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Os professores na escola são os que pensamos quando a palavra vem à mente, mas existem outros durante nossa vida Pexels/Pexels

O próximo professor, ou melhor, os próximos são os amigos. Todo mundo dividiu o mundo com algum. Coisas que não contamos aos nossos pais nem aos professores da escola. Nossos amigos nos ensinaram muito sobre o mundo por diferentes perspectivas. Não ter amigos, ainda mais nessa fase da vida, tornaria tudo muito difícil.

Na sequência vem a faculdade e a descoberta de um novo mundo. Junto com esse professor, ou muitas vezes, como no meu caso, bem antes, aparece um outro que ensina muito, o trabalho. Pense em alguém que passou a vida toda e nunca trabalhou. Em um primeiro momento, até por brincadeira você pode dizer que esse seria seu sonho. Mas não é verdade. O trabalho também é um excelente professor e um modo de se desenvolver, tanto é que se eu te pedir para se apresentar quanto tempo você vai levar até dizer o que você faz de trabalho? Talvez venha após seu nome. “Oi, sou o Samorai e sou colunista da Boa Forma.” Sob essa ótica, eu seria outro sem o meu trabalho. Porque ele me transforma.

Um outro professor que muitas vezes ensaiamos em outras fases da vida, alguns até demais, mas que em algum momento se fortalece é um relacionamento. Alguém para dividir bons e maus momentos e te ensinar como poucos.

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Em algum momento aparece outro professor. Que se vier cedo demais te ensina muito, mas com preços muito altos. Esse professor é um filho. Seja natural, adotado, e até de quatro patas, mas te ensina a ceder, a não pensar em você primeiro, a amar de um jeito infinito. Aqui não quero julgar quem opta por não ter esse professor. É apenas a forma como vejo a vida, mas esse tipo de aprendizado e o crescimento que ele trás não é possível obter de outra forma. Tenho 6 sobrinhos e antes de ter minha filha eu achei que sabia o que era ter filho. Estava completamente enganado. Mas, de novo, é só minha forma de ver a vida.

O próximo professor, e aqui já não tenho mais tanto lugar de fala, mas pela forma como esse transformou meus pais, são os netos, ou na verdade o status de vovô ou vovó. Acredito ser algo que está além da minha compreensão, tanto que hoje poderia falar que quase não faz diferença. Mas deve ser incrível.

Penso que esses são os principais professores, que compartilham nossa vida com outros também importantes como montar um negócio, viajar para o exterior, os livros, trabalho voluntário, cuidar de algum adulto ou idoso, ou até coisas ruins como um acidente podem ser grandes professores. Mas não são o curso natural da vida como os outros. Até porque, com exceção a parte que eu falei sobre quando nascemos, em nenhum outro professor eu dei uma referencia de tempo e você sabia exatamente em que época da vida esse professor seria natural. Você não pensou na faculdade aos 6 anos e nem ter filhos aos 70. Porque, para além da minha forma de ver a vida, existe aí um fluxo natural também. Não obrigatório, mas natural. Se eu falar de um acidente de automóvel você não consegue identificar com tanta clareza de que época da vida estou falando. Isso é não pertencer ao fluxo natural.

Mas ainda falta um enorme professor e de alguma forma dos mais competentes. A morte. Em todas as suas formas. E a morte é necessária. Todo ciclo precisa se encerrar. Muitas vezes sofremos por não encerrarmos relacionamentos que já morreram, trabalhos que não fazem sentido, caminhos que já não constroem mais. Claro que esse é um sentido da morte. O de que para haver crescimento precisamos deixar alguma coisa pra trás. Mas podemos falar da morte propriamente dia. Aquela do começo deste texto. A morte que encerra essa passagem da vida terrena.

Pexels
A morte é dolorosa mas nos ensina muito Pexels/Pexels

No filme mais citado nas listas de melhor de todos os tempos, a obra prima de Orson Welles, Cidadão Kane, o personagem principal do filme o homem mais poderoso da América, Charles Foster Kane, um homem que tinha acesso a tudo, controlava tudo, mas só conseguiu entender o que era verdadeiramente importante no leito de morte. Só a morte conseguiu ensina-lo. Na cena clássica do cinema, em seu leito de morte, ele apenas fala a palavra Rosebud, que era o nome do trenó que ele usava na infância, onde pela única vez foi feliz e livre de verdade. Viveu a vida na plenitude e na intensidade. Agora imagine como seria a vida de alguém tão poderoso como ele se não houvesse a morte.

A morte nos ensina na ausência e na presença e de maneiras diferentes. Na ausência em relação à nossa morte. O saber que ela um dia chegará nos ensina várias coisas, nos faz correr atrás de outras, tomar alguns cuidados, nos disciplina, melhora nossa saúde, enfim, muito aprendizado, mas estes se dão na ausência, porque ela ainda não está. Em relação a presença é no outro. Na morte de alguém querido. Ali aprendemos que o que não foi dito não será mais. O que não foi perdoado não mais será. Nos ensina que devemos sempre nos despedir das pessoas com palavras boas, nunca sabemos quando será a derradeira despedida. A ausência destas pessoas nos ensina na dor. Feridas que muitas vezes jamais serão curadas, mas poderão ser honradas. A morte pertence à perfeição da vida, mesmo que não conseguimos entender. A morte também é uma benção.

Agora você pode estar me perguntando: legal Samorai, entendi o texto, mas o que isso tem a ver com o treinamento 3Dimensional? E a resposta é que tem tudo a ver. Uma das premissas principais do treinamento 3Dimensional é entender de pessoas, e entender o mundo como ele é e quais são os fatores que o influenciam e a morte é um deles. E gigantesco. E ressignifica-la para sempre entendermos a vida e todos os seus elementos dentro de seu esplendor e de sua importância, vai nos ajudar a entender as pessoas que com a gente vierem se cuidar. Jamais quero relativizar a morte e a dor que ela causa. Inclusive essa coluna nesse dia tão significativo é uma homenagem a todos os que foram impactados pelas mortes das mais de 600 mil pessoas em nosso país e pelas milhões mundo a fora. Não posso fazer muito para ajudar, mas posso colocar meu coração em forma de palavras, através da minha visão de mundo, acolher a todos que cruzarem meu caminho, entender o momento da cada um, as lições de cada um desses professores da vida, as falhas desse aprendizado, a compreensão da jornada e acreditar que a morte é parte da vida, e sendo a vida perfeita, a morte é parte da perfeição.

Com o maior respeito
Um forte abraço

Samorai

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