Canabidiol: o que é e porque se luta pela legalização no Brasil

Substância retirada da Cannabis, mesma planta que gera a maconha, é altamente benéfica no tratamento de doenças crônicas como a epilepsia.

Por Marcela De Mingo Atualizado em 23 nov 2021, 11h51 - Publicado em 19 nov 2021, 08h00

Canabidiol ainda é um assunto polêmico quando se fala no Brasil – ainda visto com um viés negativo, os preconceitos em torno do seu uso medicinal travam as pesquisas e, de certa forma, os tratamentos que se beneficiariam da substância. Ainda assim, abrir a conversa é uma forma de demonstrar como, apesar da visão pejorativa, o canabidiol é uma ferramenta útil aliada à Medicina. 

O que é canabidiol? 

De forma simples, o canabidiol, também chamado de CBD, é uma substância extraída da planta Cannabis, a mesma que origina a maconha – daí a polêmica em torno dos seus estudos e legalização de uso terapêutico. 

No Brasil, o seu uso ainda é restrito – este ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou o quinto medicamento com CBD na composição, a ser adquirido em farmácias com auxílio de receita de controle especial. Parece muito, mas é preciso considerar que a primeira aprovação de venda de medicamentos derivados da Cannabis aconteceu apenas no ano passado, em 2020. 

O plantio individual ainda é proibido por aqui, mas existem projetos em trâmite no Poder Legislativo que pedem pela permissão do cultivo, plantio e extração por empresas com o objetivo medicinal e industrial. 

Para que serve o canabidiol? 

Segundo a Dra. Maria Teresa Jacob, especialista no tratamento de dor crônica e medicina canabinóide, o seu uso é concentrado, principalmente, no cuidado com diferentes doenças e patologias. “Entre elas, estão a epilepsia, refratária aos tratamentos convencionais; o autismo; o Parkinson; o Alzheimer; e as dores crônicas”, explica. “Já existem pacientes utilizando também para doenças da saúde feminina, como a endometriose e as cólicas menstruais; em cardiologia, para diminuir níveis de colesterol e melhorar disfunções cardíacas; em pneumologia, para melhorar o sistema respiratório; e em oncologia para tratamento dos sintomas relacionados a quimioterapia, como náusea e vômito, e para diminuir a dor oncológica, entre outros.” 

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O CBD tem efeitos analgésicos, ou seja, ele atua no sistema nervoso central, periférico e nas articulações, além de atuar como anti-inflamatório, anticonvulsionante, antivasodilatador, diminuir a pressão arterial e os níveis de colesterol e glicemia. Mas não para por aí: por também ter efeito imunossupressor, pode ser utilizado em doenças reumatológicas, como a artrite reumatoide, e também diminui a elasticidade muscular, de forma que também se mostra benéfico no tratamento de esclerose múltipla e sequelas de acidente vascular cerebral (AVC). 

Como o canabidiol é consumido no Brasil? 

No Brasil, nós temos formulações plurais, tanto em gotas e solução oral, quanto cápsulas”, explica a médica. “Existem também, atualmente, formulações de medicamentos de padrão farmacêutico tópicos, para artrite e para a dor articular com potência anti-inflamatória, para uso tópico em mulheres que têm dor durante a relação sexual, e em estética, para anti-idade, anti-acne e hidratante”. 

Por conta de todos esses benefícios, é considerado um tratamento de longo prazo, já que é muito utilizado para doenças crônicas, principalmente. É claro que, segundo orientação médica, também pode ser usado de forma pontual, como para melhorar o desempenho de atletas, que lidam com altos níveis de estresse antes de provas importantes, o que pode atrapalhar o sono e a concentração – e é aí que o CBD atua. 

No entanto, mesmo com tantos benefícios comprovados, a implementação dos tratamentos com canabidiol no Brasil ainda passam por muitas barreiras. Para a Dra. Maria Teresa, são dois os principais pontos que interferem nesse processo: “Primeiro, nós ainda não temos a legalização para produzir nas indústrias farmacêuticas no nosso país, o que aumenta muito o custo, e isso é decorrente de um preconceito que existe em relação à planta. Quando se fala em Cannabis, automaticamente vem o conceito da maconha, e nós temos que distinguir uma coisa da outra.”

Aliás, esse é um ponto importante. A planta que produz a maconha, de fato, é a mesma que produz o CBD. Mas a variedade de Cannabis que produz a maconha tem altos índices de THC, a substância psicodisléptica da planta, que dá alucinações visuais e auditivas, as famosas “viagens”, que levarão ao vício. “Já a Cannabis medicinal é uma outra variedade que pode não conter THC ou conter THC em doses controladas. Por mais altas que sejam, são muito menores do que a da maconha. Então, não induz a vícios e não causa os prejuízos ao indivíduo e a sociedade que a maconha pode oferecer. A cannabis medicinal, pelo contrário, é importantíssima para a melhora da qualidade de vida e para controle de doenças crônicas, que, até o momento, com os tratamentos tradicionais não apresentam boa resposta.” 

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