O que muda no treino de quem usa canetas emagrecedoras?

Emagreça com saúde: entenda o papel fundamental da musculação na preservação da massa muscular com medicamentos

Por Maraísa Bueno 23 out 2026, 10h00
Mulher de top e calça legging pretos, segurando um halter verde-limão em cada mão, em frente a uma parede cinza texturizada
O que muda no treino de quem usa canetas emagrecedoras? (./Magnific)
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Existe uma pergunta que nem sempre acompanha quem emagrece rapidamente com medicamentos como as canetas emagrecedoras: além da gordura, o que mais está sendo perdido?

A popularização das canetas emagrecedoras colocou uma nova questão dentro das academias. Como esses medicamentos podem provocar uma redução importante do apetite e do peso corporal, preservar músculos passou a ser parte essencial da estratégia.

Nesse cenário, a musculação deixa de ser apenas uma ferramenta para aumentar o gasto calórico ou melhorar a estética e ganha uma função ainda mais importante: ajudar a manter força, massa muscular e capacidade funcional durante o emagrecimento.

Para Patrick Ferreira, médico e presidente da Academia Brasileira de Clínica Médica, o resultado não deveria ser avaliado exclusivamente pelos quilos eliminados.

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“Quando o paciente perde peso, precisamos olhar para a qualidade desse emagrecimento. O objetivo não deveria ser simplesmente perder o maior número de quilos no menor período possível, mas reduzir gordura preservando ao máximo a massa muscular. Isso exige acompanhamento e uma estratégia que envolva alimentação adequada, atividade física e avaliação individual”, explica.

Musculação passa a ser protagonista

Quando o apetite diminui, é natural que a quantidade de alimentos consumida também caia. O problema aparece quando essa redução significa uma ingestão insuficiente de energia, proteínas e outros nutrientes ao mesmo tempo em que a pessoa permanece sedentária.

O corpo, afinal, precisa de estímulos para preservar aquilo que continua sendo necessário. É justamente aí que os exercícios resistidos ganham protagonismo.

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“O músculo precisa de matéria-prima, mas também precisa de estímulo. Por isso, quando não há contraindicação, o exercício de força deve ser pensado como parte do tratamento. Emagrecer e continuar sedentário não produz o mesmo resultado em composição corporal que emagrecer enquanto se trabalha força e capacidade funcional”, afirma Patrick.

Para o Dr. Renan Bosio, ortopedista e especialista em nutrologia e medicina do esporte, a preocupação não deveria ficar restrita ao resultado estético.

“O músculo não deve ser entendido apenas como uma questão estética. Ele está diretamente relacionado à força, mobilidade, independência funcional, metabolismo e qualidade de vida”, explica.

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Caneta emagrecedora substitui a academia?

A força também cai junto com o peso de quem usa canetas emagrecedoras?

Uma das armadilhas da perda rápida de peso é comemorar exclusivamente o resultado da balança. Dois pacientes podem eliminar a mesma quantidade de quilos e terminar o processo com composições corporais bastante diferentes.

Por isso, observar força, desempenho físico e composição corporal pode ajudar a ampliar a avaliação dos resultados, especialmente quando o emagrecimento é expressivo.

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“Quando uma pessoa perde peso, precisamos saber o que está sendo perdido: gordura, água e também massa magra. O objetivo de uma estratégia adequada de emagrecimento deve ser reduzir principalmente o excesso de gordura e, ao mesmo tempo, preservar o máximo possível de massa muscular”, afirma Renan.

ADra. Júlia Lopes Won Ancken, médica com atuação em emagrecimento, hormônios, longevidade e nutrologia, reforça que o peso corporal isoladamente diz pouco sobre a condição física de alguém.

“Duas pessoas podem ter exatamente o mesmo peso e composições corporais completamente diferentes. Quando pensamos em envelhecimento saudável, precisamos olhar para massa muscular, força, saúde metabólica e capacidade funcional. O músculo não é apenas uma questão estética. Ele participa ativamente do metabolismo e é uma reserva importante para o organismo ao longo da vida”, afirma.

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Para quem treina, isso significa trocar parte da obsessão pelo peso por outras perguntas: a carga dos exercícios está sendo mantida? A força caiu? O treino está rendendo menos? A recuperação piorou? A pessoa está conseguindo se alimentar adequadamente para sustentar a rotina de exercícios?

Whey não substitui musculação

Com o medo de perder músculos, é comum que suplementos proteicos entrem rapidamente na rotina de quem está emagrecendo. Eles podem ser úteis em determinados casos, principalmente quando a redução do apetite dificulta atingir as necessidades nutricionais apenas pela alimentação. Mas transformar o whey em uma espécie de seguro contra perda muscular é um erro.

“Whey é uma fonte de proteína e pode ser útil quando existe indicação. O erro é imaginar que basta acrescentar um suplemento e todo o restante estará resolvido. Precisamos avaliar a alimentação completa, o consumo energético, a quantidade de proteína, a atividade física e as condições clínicas do paciente”, explica Patrick.

Também não existe uma quantidade de proteína que possa ser aplicada indistintamente a todo mundo. Idade, peso, composição corporal, rotina de exercícios e condições clínicas precisam entrar nessa conta. Para quem possui determinadas doenças, especialmente alterações da função renal, aumentar significativamente o consumo proteico sem avaliação pode ser inadequado.

Preservar músculos virou um dos desafios do novo emagrecimento

A questão da massa magra ganhou tanta importância que já aparece entre os desafios discutidos para a evolução dos próprios tratamentos metabólicos. Dr. Bruno Cardoso, endocrinologista titulado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), destaca a preservação muscular entre os pontos relevantes dessa nova fase do tratamento da obesidade.

Semaglutida e tirzepatida atuam em mecanismos relacionados à saciedade e contribuem para uma redução importante do peso em pacientes com indicação. Mas nenhum medicamento transforma, sozinho, perda de peso em ganho de condicionamento físico. É justamente nessa diferença que exercício e tratamento médico precisam conversar.

“O futuro aponta para uma medicina de precisão na endocrinologia. Entender a resposta individual de cada paciente a diferentes combinações hormonais será a chave para otimizar os resultados e garantir a saúde cardiometabólica a longo prazo”, afirma Bruno.

Qual é a relação do uso de caneta emagrecedora e efeito sanfona?

Existe um treino específico para quem usa caneta emagrecedora?

Não existe uma ficha de musculação universal para usuários desses medicamentos. Quem já treinava antes do tratamento terá uma realidade diferente de alguém sedentário que acabou de entrar na academia. Idade, condicionamento, quantidade de peso perdida, alimentação, sintomas, recuperação e condições clínicas também interferem na prescrição dos exercícios.

O ponto central destaco pelos profissionais é outro: não esperar emagrecer primeiro para começar a pensar nos músculos depois.

Treinamento de força, ingestão nutricional adequada e acompanhamento profissional podem caminhar junto com o tratamento desde o início. E, se houver queda importante de rendimento, fraqueza, dificuldade para se alimentar ou recuperação cada vez pior entre os treinos, simplesmente insistir na mesma intensidade pode não ser a melhor estratégia.

Para Júlia, preservar músculos também significa pensar muito além do projeto de emagrecimento. “Quando falamos em longevidade, não estamos falando simplesmente em acrescentar anos à vida. Queremos que esses anos sejam vividos com autonomia, força, mobilidade e saúde.”

Na academia, talvez essa seja a principal mudança trazida pela era das canetas emagrecedoras: o melhor resultado não é necessariamente chegar ao menor peso, mas conseguir perder gordura sem deixar força e músculos pelo caminho.

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