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Vaginismo: causas e o caminho para uma vida sexual sem dor

Especialistas explicam sinais, causas e como funciona o tratamento que devolve autonomia e prazer

Por Helena Saigh
22 dez 2025, 18h00 •
Vaginismo
Dor, constrangimento e silêncio ainda cercam uma condição que atinge milhares de brasileiras. (freepik/Freepik)
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  • O vaginismo é uma disfunção sexual caracterizada pela contração involuntária da musculatura vaginal, capaz de impedir qualquer tentativa de penetração, desde o pênis até um simples cotonete. De acordo com dados publicados no Journal of Sexual Medicine, entre 5% e 17% das mulheres podem experimentar a condição ao longo da vida, embora muitas levem anos para descobrir o que realmente está acontecendo com o próprio corpo.

    Apesar de ser comum, o vaginismo ainda permanece preso a tabus, desinformação e experiências negativas vividas por mulheres que ouviram durante muito tempo que “no começo dói mesmo” ou que bastaria tomar “uma taça de vinho para relaxar”. A consequência disso é o diagnóstico tardio, o sofrimento emocional e a dificuldade de acesso a tratamento adequado.

    Conversamos com a ginecologista Dra. Débora Rosa e com a fisioterapeuta pélvica Dra. Adriela Araújo, que esclarecem o que é o vaginismo, como reconhecê-lo e quais caminhos de tratamento realmente funcionam.

    O que é vaginismo e por que ele acontece?

    A vagina é um canal muscular que, em condições normais, permanece relaxado. No vaginismo, porém, essa musculatura entra em um estado intenso de contração involuntária. Segundo a Dra. Débora, essa rigidez pode ser tão intensa que nem um cotonete entra. Ela explica que o fenômeno é semelhante a um nódulo que se forma nas costas e fica completamente endurecido, uma contratura tão forte que parece uma pedra.

    A nova nomenclatura usada por parte da comunidade científica é Disfunção de Dor Genito Pélvica e Penetração (DGPP). Para a fisioterapeuta Dra. Adriela, essa atualização traduz melhor a complexidade do quadro, já que integra dor, espasmo muscular, dificuldade de penetração e aspectos emocionais e comportamentais. Segundo Adriela, trata-se de uma condição multifatorial que não se restringe apenas a causas físicas ou emocionais isoladas.

    Embora o vaginismo não tenha uma causa única definida, fatores emocionais e experiências traumáticas são frequentes. De acordo com a ginecologista, muitas mulheres atendidas têm histórico de abuso, violência sexual, relacionamentos abusivos ou traumas ginecológicos na infância. “Quando a boca cala, a vagina fala”, afirma Débora. “Quando a mulher não consegue dizer não ou se sente violada de alguma forma, o corpo fala por ela, impedindo a entrada.”

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    Em outros casos, o desencadeador é físico, como infecções recorrentes, feridas causadas por procedimentos antigos, aderências provocadas pela endometriose ou dor persistente que cria uma memória corporal negativa.

    A dor nunca é normal: como diferenciar vaginismo de outras condições

    Dor na relação sexual, chamada dispareunia, não é um diagnóstico, é um sintoma. O que define o vaginismo é a contratura muscular detectada durante o exame físico. Segundo a ginecologista, não existe exame de imagem que identifique vaginismo. A ressonância não vê, a ultrassonografia não vê. É no toque, no consultório, que avaliamos como a musculatura está respondendo.

    A dor pode ter outras causas, como falta de lubrificação, vulvodínia (dor na vulva), infecções ginecológicas, aderências pélvicas ou alterações hormonais. Por isso, o exame físico é essencial. “Hoje em dia se pede muito exame e se esquece que a clínica é soberana”, afirma Débora.

    A relação sexual não é para doer!

    Qualquer dor persistente na penetração é motivo para procurar assistência médica, mesmo que seja leve ou esporádica. “A relação não precisa e não deve doer. Nunca”, reforça a ginecologista.

    A demora em buscar ajuda é comum e, muitas vezes, consequência da vergonha, do medo ou da desinformação. Em muitos casos, a própria queixa é minimizada. “Escuto com frequência pacientes dizendo que médicos anteriores sugeriram tomar um vinho para relaxar, sem sequer orientar o uso de lubrificante”, comenta Débora. “Isso atrasa o diagnóstico, aumenta o sofrimento e reforça a ideia de que a mulher precisa suportar a dor.”

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    Como a fisioterapia pélvica age no tratamento

    A Dra. Adriela explica que a fisioterapia pélvica é uma das abordagens mais eficazes no tratamento do vaginismo ou DGPP. O processo começa com uma avaliação inicial que prioriza acolhimento e compreensão. A primeira sessão envolve uma conversa detalhada sobre o histórico de dor, as tentativas de penetração, a relação com o próprio corpo, a autoestima, possíveis experiências traumáticas e o contexto emocional. 

    Em seguida, há uma avaliação da musculatura pélvica, observando tônus, sensibilidade, coordenação e presença de dor. O exame interno só acontece se a paciente consentir com segurança.

    Se houver medo ou ansiedade, a fisio não passa diretamente para técnicas manuais. Muitas vezes as primeiras sessões são dedicadas à respiração diafragmática, ao relaxamento e à psicoeducação sobre como o corpo reage à dor. “A paciente precisa sentir que está no controle. Muitas relatam alívio ainda nas primeiras sessões, antes mesmo de trabalharmos com dilatadores”, explica.

    As técnicas utilizadas no consultório

    O tratamento fisioterapêutico é construído de forma individualizada. A psicoeducação aparece como etapa essencial para que a mulher compreenda a anatomia da região, os mecanismos da dor e os motivos pelos quais a musculatura se contrai involuntariamente. 

    Técnicas de respiração e relaxamento ajudam a reduzir tensão global e local. Quando a paciente se sente pronta, Adriela utiliza terapia manual interna ou externa para liberar pontos de tensão e auxiliar no relaxamento muscular. O biofeedback também pode ser aplicado para melhorar a percepção da musculatura do assoalho pélvico. 

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    Em outro momento do processo surgem os dilatadores, introduzidos de forma progressiva e personalizada para dessensibilizar o corpo e reeducar a resposta muscular. Segundo Adriela, o objetivo é transformar a penetração, antes associada à dor e ao medo, em algo tolerável e depois confortável.

    O que a mulher pode fazer em casa

    O tratamento continua fora do consultório. Técnicas de respiração, relaxamento, percepção corporal e o uso de dilatadores são essenciais para o avanço. A fisioterapeuta incentiva também a autoexploração consciente quando a paciente se sente pronta, além de comunicação aberta com o parceiro e, quando necessário, apoio psicológico. Registrar sensações, medos e avanços ajuda a identificar gatilhos e reforçar a conexão com o próprio corpo.

    O papel do ginecologista durante o processo

    A ginecologista acompanha a evolução física e emocional da paciente. Débora reforça que o tratamento é integrado. Segundo ela, a fisioterapia pélvica é fundamental, assim como a psicoterapia, porque geralmente há uma carga emocional associada ao vaginismo. Em alguns casos, técnicas complementares como vaporização, massagens pélvicas e aromaterapia ajudam no relaxamento muscular. “Algumas plantas têm ação medicinal, e o calor ajuda muito na descontração do assoalho pélvico”, afirma a ginecologista.

    Quanto tempo demora para melhorar?

    O tempo de melhora varia conforme o histórico de vida da mulher, o grau da dor e a adesão ao tratamento. Mesmo assim, muitas pacientes relatam avanços significativos em semanas. Estudos mostram que, em abordagens estruturadas, aproximadamente 82,2% das mulheres alcançam penetração satisfatória ao final do tratamento. Segundo Adriela, o progresso deve respeitar o ritmo de cada mulher, sem comparações.

    Medos e inseguranças fazem parte e podem mudar

    O impacto emocional do vaginismo é profundo. Muitas mulheres chegam à fisioterapia carregando vergonha, culpa, medo de decepcionar o parceiro e a sensação de que são defeituosas. A fisioterapia, porém, ajuda a reconstruir essa percepção. “Elas descobrem que não estão sozinhas. Entre uma em cada quatro a cinco mulheres vive algo parecido. A dor não define quem elas são”, afirma Adriela. A recuperação ultrapassa a musculatura e envolve autonomia, autoestima e reconexão com o próprio corpo.

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    O vaginismo tem cura?

    Sim. Muitas pacientes retomam uma vida sexual plena após o tratamento, embora recaídas possam ocorrer em períodos de estresse emocional. Para Débora, a mensagem mais importante é que dor nunca é normal. “A mulher não deve aceitar viver com dor, especialmente em um momento que deveria ser de prazer.”

    O vaginismo é uma condição real, comum e totalmente tratável. O caminho passa por informação, acolhimento, diagnóstico preciso e tratamento multidisciplinar. Quando a mulher encontra profissionais capacitados e avança no próprio ritmo, o resultado é uma vida sexual sem dor e uma relação mais consciente e amorosa com o próprio corpo.

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