Alimentação

Outubro rosa: 9 mitos e verdades sobre câncer e alimentação

O que é verdade acaba se misturando com as fake news. Por isso, conversamos com especialistas sobre essa relação

por Amanda Panteri | Ilustração de Erika Lourenço Atualizado em 8 out 2020, 08h50 - Publicado em 8 out 2020 08h51

Você sabia que somente 10% dos casos de câncer de mama são atribuídos a fatores hereditários? De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a doença é tão complexa quanto suas inúmeras causas, que podem envolver desde problemas hormonais e reprodutivos até questões que dizem respeito ao nosso estilo de vida — como o alcoolismo, tabagismo, excesso de gordura corporal e alimentação.

Sim, nossa alimentação. “Hoje, não podemos falar de câncer sem falar em hábitos. Pacientes obesas, por exemplo, têm 37% mais chances de desenvolver tumor na mama do que pacientes não obesas”, afirma o médico Raphael Brandão (@dr.raphaelbrandao), chefe da área de oncologia da Cliníca JB Oncologia, do Hospital Moriah, e fundador da Clínica First.

Mas com a enxurrada de informações que recebemos por dia, fica difícil separar o que realmente é verdade a respeito do câncer e alimentação do que é mentira. Por isso, consultamos especialistas que nos ajudaram a desmentir (ou reforçar) essas ideias. Confira:

1. Carne processada aumenta os riscos de desenvolvimento de câncer: VERDADE

Desde outubro de 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica carnes processadas (como bacon, linguiça, salsicha e presunto) como potencialmente cancerígenas — 50 gramas por dia, o equivalente a apenas duas fatias de presunto, já são suficientes para aumentar as chances de tumor colorretal em 18%.

Para a pesquisa, cientistas do IARC (Agência Internacional de Investigação sobre o Câncer) analisaram os 18 principais estudos feitos na Europa, Japão e EUA. 12 deles mostraram que o item é altamente cancerígeno para humanos, dividindo espaço com cigarro, plutônio e ar contaminado na lista das 100 substâncias mais perigosas à saúde humana.

O INCA vai mais além e fala do consumo de alimentos ultraprocessados como um todo. “Os refinados, como açúcar e farinha de trigo, geram processos inflamatórios no organismo. É o caso da resistência à insulina, que aumenta o acúmulo de gordura abdominal e provoca estresse oxidativo nas células, fatores ligados ao surgimento de câncer”, explica a médica Indianara Brandão (@dra.indianarabrandao), entusiasta da medicina integrativa e diretora da Clínica First, em São Paulo.

2. Alimentação rica em legumes e verduras in natura pode diminuir os riscos do aparecimento de câncer: VERDADE

câncer e alimentação

O próprio Guia Alimentar para a População Brasileira (edição 2014) afirma: “Uma dieta rica em alimentos in natura, em especial os de origem vegetal ou minimamente processados — como frutas, legumes, verduras, cereais integrais, feijões e outras leguminosas — e pobre em alimentos ultraprocessados, é capaz de prevenir o surgimento da doença”. Para isso, o ideal é ingerir, diariamente, no mínimo duas porções de frutas e três de verduras ou legumes sem amido (abobrinha, brócolis, repolho, berinjela e tomate).

Alguns estudos já mostram que alimentos específicos também podem ajudar. Uma pesquisa publicada em 2005 no Journal of the National Cancer Institute mostra uma ligação entre o consumo de peixes (mais de 80 gramas por dia) e a menor incidência de câncer colorretal. O ômega 3, encontrado em alguns deles, ajuda a reduzir o colesterol e é associado à diminuição de risco de alguns tipos de câncer, principalmente mama e próstata.

3 – É melhor não comer frutas e verduras do que consumi-las com agrotóxicos: MITO

Que os agrotóxicos são cancerígenos e nocivos à saúde, as evidências científicas concordam. Mas se você não pode comprar frutas e verduras orgânicas, é melhor consumir as versões com as substâncias do que abolir os vegetais do cardápio. Afinal, como já explicamos, os benefícios que eles trazem ao organismo se sobrepõem aos malefícios que os os resíduos de defensivos agrícolas podem gerar.

“A maioria contêm antioxidantes, capazes de neutralizar alguns efeitos tóxicos às nossas células. Estudos apontam, por exemplo, que o chá verde tem capacidade quimiopreventiva, pois atua inibindo a proliferação e mutação das células tumorais”, explica a nutricionista Bruna Carolina Almeida Beltran, da Clínica Mademoiselle SPA.

4. Embalagens plásticas devem ser evitadas: VERDADE 

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Erika Lourenço/BOA FORMA

O recipiente em que comemos conta, sabia? Algumas embalagens plásticas podem conter elementos com potenciais cancerígenos, como a dioxina, o bisfenol A (BPA) e os ftalatos. “As refeições não podem ser aquecidas nesse tipo de material, uma vez que a prática aumenta a chance de contaminação. O mais indicado é transferir a comida para vasilhas de vidro temperado ou de porcelana” recomenda a nutricionista.

5. Micro-ondas causa câncer:

MITO

Essa ideia popularizou de que o micro-ondas, tão aliado da praticidade, causa câncer, popularizou nas décadas anteriores. Mas ela não é verdade. “O aparelho emite uma forma de radiação não ionizante classificada como possivelmente cancerígena para seres humanos, mas a estrutura do forno está preparada para que ela não extravase para o ambiente externo”, diz Bruna Beltran.

Câncer e alimentação: tratamento

6. Existem alimentos que curam o câncer: MITO

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Rawpixel/Getty Images

Chá de graviola e cogumelo do sol são dois itens conhecidos como “milagrosos”: algumas pessoas defendem que eles podem curar a doença. Mas não caia nessa — o fato é fake news. “Não há comprovação científica sobre seus efeitos na doença. Na verdade, o tratamento mais eficiente ainda é o tradicional, prescrito pelo médico. As terapias alternativas e fitoterápicos devem entrar como coadjuvantes para ajudar a melhorar a qualidade de vida do paciente”, afirma Indianara Brandão.

O perigo das notícias falsas é tão grande que o próprio INCA lançou uma cartilha em 2018 só para desmentir as meias-verdades que lemos na internet. Acesse aqui.

7. Contudo, há aqueles que auxiliam no tratamento: VERDADE

A fibras, por exemplo, já se mostraram aliadas de quem luta contra o câncer de cólon. “Porque são prebióticas, ou seja, estimulam a produção de uma nova flora intestinal mais saudável”, diz o oncologista. As castanhas e os peixes também apresentaram resultados positivos na diminuição de mortes por câncer.

É por isso que os pacientes com a doença são aconselhados a manter uma alimentação equilibrada. “É imprescindível que haja um equilíbrio entre as proteínas, gorduras boas e carboidratos complexos na dieta — às vezes com a suplementação de aminoácidos, caso haja perda de massa magra”, explica Indianara Brandão.

A especialista afirma ainda que pratos frios, frutas e picolés sem açúcar aliviam os desconfortos no trato gastrointestinal, comuns em quem passa pelo tratamento na região. Já os cítricos e o gengibre são aliados para combater as crises de enjoo causadas pela quimioterapia.

8. Alguns alimentos devem ser evitados por quem tem câncer: VERDADE

câncer e alimentação

Não é que sejam proibidos, mas evitá-los pode ser melhor para a recuperação do organismo. “Quanto mais açúcar, melhor para o tumor, já que o alimento serve como ‘comida’ das células tumorais”, diz Raphael Brandão.

O mesmo serve para as bebidas alcoólicas. “A gente recomenda diminuir a ingestão durante o tratamento porque a quimio e o álcool passam pelo fígado, e podem sobrecarregar o órgão”, afirma a médica.

9. Há indícios de que o jejum intermitente pode ser benéfico para o tratamento: VERDADE

O jejum intermitente é conhecido por provocar um processo denominado autofagia (em que o corpo consome os próprios estoques de energia e elimina as células velhas). “Nesse sentido, ele extinguiria também aquelas células ‘estragadas’”, explica Indianara Brandão.

Um estudo publicado no periódico Cell Metabolism concorda com a ideia. Nele, voluntários saudáveis que aderiram à prática reduziram seus indicadores de risco cardiovascular, os níveis de glicose no sangue, de gordura abdominal e de IGF-1, um possível marcador de câncer.

Quando a dieta foi realizada em camundongos com câncer de mama e de pele, o sistema imunológico aparentemente ficou mais rápido e começou a acabar com as células tumorais. Contudo, é sempre bom lembrar: nenhuma dieta deve ser seguida sem a recomendação e o acompanhamento médico, principalmente por pacientes com câncer.