Aisha Jambo: paixão pelo Kung Fu e pela dança

Atriz, que acaba de completar 40 anos - e 25 de carreira, traz o movimento em diversos aspectos desde sua infância

Por Maraísa Bueno 24 jun 2026, 12h00
Mulher negra de cabelos cacheados e volumosos, sorrindo abertamente com a boca escancarada, usando um top tomara que caia branco e um colar dourado grosso, contra um céu claro
 (./Divulgação)
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A atriz Aisha Jambo vive um momento especial em sua vida. Além de ter completado 40 anos recentemente, ela também celebra 25 anos de carreira, interpretando personagens que ajudaram a marcar a representatividade da mulher negra na televisão brasileira.

E a preparação para muitos de seus personagens envolveu atividades que se tornaram grandes paixões na vida de Aisha: Kung Fu e dança.  

Em cartaz com o monólogo musicado “Quando Dança um Baobá”, que homenageia a vida e o legado de Mercedes Baptista, a primeira grande bailarina negra do Brasil e pioneira do balé afro-brasileiro, Aisha conta que as duas modalidades voltaram à sua vida na preparação para a peça: 

“Fiz kung fu aos 20 anos e retornei recentemente, um pouco antes do período de preparação para o espetáculo. Acho fascinante essa arte marcial, não só pela técnica corporal, mas também pela filosofia. A relação, os ensinamentos que são passados do mestre para os alunos é muito profunda”, contou a atriz, que também é formada em dança pela UFRJ, em entrevista à Boa Forma.

Veja o bate-papo completo com Aisha Jambo a seguir!

Mulher sorridente de pele morena e cabelos cacheados, vestindo um macacão curto vinho brilhante, alonga-se na praia com os braços erguidos. Ao fundo, coqueiros, mar, guarda-sóis amarelos e pessoas relaxando na areia
(./Divulgação)
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Dentro da sua preparação para o espetáculo “Quando Dança um Baobá”, como o Kung Fu entrou nessa preparação? 

O kung fu entrou na preparação primeiro pelos fundamentos, tanto na parte dos exercício físicos, que ativam o corpo de maneira global, sempre partindo da respiração (princípio fundamental do teatro), passando por posturas que trabalham a base corporal, o equilíbrio etc, como a parte filosófica/meditativa. 

Eu sempre gostei de Yoga que também busca uma conexão mais harmônica com a natureza a partir de prática corporal com respiração e meditação. Dessa forma, o kung fu vem potencializar todas essas experiências corporais agregando as especificidades dessa arte que estuda as linhas de ataque e defesa, as alavancas corporais, partindo também de observação de animais, dos ciclos da natureza de forma sistemática e gradual. 

A dança sempre foi algo que fez parte da sua vida, antes mesmo de sua formação? 

Sim, lembro de um presente de natal marcante na minha infância que foi um conjunto de saia e blusa próprios para dançar lambada. Eu adorei! Acho que tinha 6 ou 7 anos. 

Por volta dos 12 anos fui fazer aulas de dança flamenca com a professora Carmen Del Rio, de quem ganhei – e guardo com muito carinho – uma castanhola que tenho até hoje. Nesse mesmo período iniciei nas aulas de circo, A Cobra na Bacia, da professora Vanda Jacques na Intrépida Trupe e participei do filme de dança, Xuxa Requebra. Nesse filme pude conhecer muitos bailarinos de estilos variados. Meu núcleo era de danças urbanas. Através desses novos amigos comecei a fazer parte de um grupo de dança urbana com alguns adolescentes perto da minha casa. 

Mulher de pele morena, cabelo castanho ondulado, top rosa drapeado e saia longa roxa, em pose de dança com uma perna esticada para o lado e um braço levantado, em uma escada metálica com janelas grandes ao fundo
(Guilherme Lima/Divulgação)
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Chegamos a nos apresentar em pequenos eventos. Desses contatos, conheci a escola de dança de salão do Jayme Aroxa e fui aluna da escola por um ano. Amo dança de salão! 

Então, sim, a dança sempre fez parte da minha vida. Inclusive, meus pais são músicos, minha mãe, Vanja Ferreira, primeira harpista negra brasileira, e meu pai, Jolt Telek, compositor e multiinstrumentista, são entusiastas de um ambiente musical e festivo com muita dança. 

Além da dança e kung fu, você sempre foi ativa nos cuidados com o seu corpo e mente? As atividades físicas sempre fizeram parte de sua rotina? 

Cresci vendo meu pai praticando Yoga, Tai Chi… e minha mãe tocando harpa, que por si só é um excelente exercício! Na minha infância e do meu irmão, Damu Telek, contrabaixista acústico da Orquestra Sinfônica Nacional, viajamos com nossos pais por algumas cidades brasileiras e tivemos oportunidade de vivenciar ao máximo nossa liberdade passando boa parte do tempo brincando em árvores, lagoas e rios. 

Correndo, subindo, pulando, mergulhando, nadando, fazendo estrelinha….. e dando cambalhotas. Acredito que essas experiências foram fundamentais para minha percepção do corpo e do espaço, então, o despertar para os cuidados com o corpo e com a mente começaram desde cedo. Sem dúvida, o incentivo em casa ajudou muito. Por isso, sempre valorizei e continuo valorizando uma rotina totalmente integrada às minhas práticas corporais.

O que não pode faltar na sua rotina de exercícios porque faz diferença na sua qualidade de vida? 

Em meu autocuidado é essencial algum tempo alongando meu corpo em silêncio ou até cantarolando algo para já ir aquecendo a voz. Acho que adquiri o hábito do alongamento das aulas de circo. 

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Se fico algum tempo sem me alongar, sinto, rapidamente, a diferença na minha postura e capacidade de realizar atividades. Além do alongamento, incluo alguma prática de violino para trabalhar a coordenação fina e a sensibilidade musical. Tocar um instrumento é como meditar. 

Mulher de pele morena e cabelo crespo preso, vestindo um macacão esportivo vinho, alongando-se na areia da praia com o mar e montanhas ao fundo
(./Divulgação)

Com relação à alimentação, como foi criar o hábito de não comer carne e também evitar industrializados? Qual dica você dá para quem também deseja parar de comer carne? 

Fui criada com uma alimentação naturalista: muito arroz integral, verduras, legumes e grãos variados; sem carne (às vezes, comíamos ovo). Continuo me identificando completamente com esse estilo de vida. Embora, hoje, goste de comer peixe, a base da minha alimentação continua sendo cereais, frutas, castanhas, grãos, legumes e verduras. Carne vermelha nunca tive vontade de comer. 

Como não fui educada com refrigerantes, frituras e enlatados, sempre foi muito natural evitar industrializados. 

Mas, adoro doce, porém evito! Procuro comer fruta com mel ou mascavo, mas tem dias que me permito desfrutar de um chocolate ou um bolo…. sem radicalismos, busco realmente uma alimentação baseada nos meus princípios de vida que me mantenha com uma sensação leve e de bem estar. 

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A dica que dou é: se você está acostumado a ingestão de carne, mas deseja parar, eu acredito que um caminho possível é ir diminuindo a quantidade de carne diária depois ir espaçando os dias e abusar de folhas verde escuras que tem bastante ferro, grão (feijões, aveia, quinoa, linhaça etc) variados, experimentar receitas bem temperadas: creme de legumes (inhame, abóbora, batata baroa etc ), tortas e quibe de legumes e verduras, saladas de grão de bico ou lentilha, saladas verdes com sementes, temperada com limão, alho, hortelã e azeite; sempre buscando um prato bem colorido. 

Pesquise as hortaliças! Em geral, conhecemos muito poucas, só as que chegam no mercado, que não contempla a rica variedade que existe. 

Outro dia, fizemos em casa uma manteiga de ora-pro-nóbis, fantástica! Não fazemos sempre, mas a ora-pro-nóbis é considerada a “carne dos pobres”, tamanha quantidade de proteína da folha carnuda e verde escura. Também fizemos recentemente uma salada de nabo ralado temperado com gengibre, missô, salsinha e azeite. Uma delícia! 

Qual é a sua principal estratégia para manter a mente equilibrada?  

Manter um vínculo saudável com a família e com amigos. Acho fundamental momentos descontraídos de conversa com meu filho, Ian Telek, que está com 18 anos e acaba de entrar na faculdade, e também o convívio com amigos. 

Adoro ler, embora, ultimamente não esteja sendo corrente terminar as leituras, mas, como disse o José Mindlin, por suas palavras, “guardião” de uma das maiores bibliotecas particulares do brasil (posteriormente doada à USP) dizia que a convivência com os livros é muito agradável e saudável, uma fonte inesgotável de prazer. Eu concordo. Também gosto de caminhar e observar a natureza.

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Ao se olhar no espelho, o que mais te representa na mulher que você se tornou? 

A autoestima é um ponto que venho amadurecendo. Nunca tive problemas em me olhar no espelho, talvez por fazer teatro, me encarar no espelho, observar formas, marcas e sensibilidades e muitas vezes fazer caretas e rir de mim mesma, sempre fez parte da minha vida. 

Mas sim, venho me sentindo cada vez mais tranquila e confiante. Padrões estéticos nunca fizeram a minha cabeça. A autoestima me ajuda a me conectar com meus desejos, me satisfazer com o que já conquistei e soltar o que não tem necessidade de ocupar espaço aceitando minhas vulnerabilidades. Assumindo, assim, minhas potencialidades. 

O que te motiva a movimentar o seu corpo hoje?

É da nossa natureza humana, animal, o movimento. Como pesquisadora de dança, pesquisadora do movimento, entendo que tudo está em movimento. Ainda que, aparentemente parado, há movimento latente. 

Por esse prisma, não existe corpo certo ou errado para a dança ou o movimento, mas uma exploração consciente e autoral a partir de parâmetros, como: corpo, movimento, dinâmica, tempo, espaço. 

Mulher sorridente com cabelo cacheado preso, vestindo um macacão esportivo vinho e tênis brancos, alongando-se em um banco de concreto na praia. Palmeiras, mar e guarda-sóis amarelos ao fundo
(./Divulgação)

Parâmetros que as crianças usufruem muito bem. O que podemos observar é que, em geral, as pessoas vão deixando essa “casa/corpo” “bagunçada” enferrujando, empoeirando… 

Eu, por exemplo, pelo fato de ter feito acrobacia aérea e ter me acostumado a me pendurar e sustentar meu corpo em um tecido no ar, até hoje, adoro me pendurar quando passo por aparelhos de ginástica na rua, às vezes até me aventuro como se estivesse em um trapézio. É fundamental respeitarmos nossos limites, mas sem nos limitarmos! rs. 

Vejo que uma parcela das pessoas que não estão inseridas nessa lógica do mercado do corpo perfeito lapidado nas academias, encontram na cultura popular um espaço (o samba ou o frevo, por exemplo) para movimentar o corpo de forma genuína. 

Diante disto, descobrir novas possibilidades de me movimentar, me motiva, me cativa, me entusiasma. Por isso, certamente, venho me encontrando em todas essas experiências corporais ao longo desses anos, e a faculdade de dança, nesse sentido, me ajudou a ampliar os horizontes nessa linguagem de dança/teatro estimulando meu desejo de trabalhar meu corpo, enquanto artista criadora da cena. 

Qual é hoje a sua maior paixão dentro do que você faz? 

Tenho me apaixonado cada vez mais pelos estudos de dramaturgia, de performance, uma pesquisa cênica híbrida, entre as linguagens do teatro, da dança, da música e da poesia. 

No espetáculo “Quando Dança um Baobá” tive minha primeira experiência com a escrita das cenas. A Partir de um texto biográfico, eu desenhei uma dramaturgia com a colaboração dos parceiros Nando Rodrigues e Cátia Costa que também é a diretora artística da peça. É um trabalho autoral construído de forma coletiva e produzido pela Jambo Produções, minha produtora. Ser uma realizadora cultural me fascina, é apaixonante.

O que você faz para não se cobrar além dos seus limites? 

Respiro, converso, observo ao meu redor, leio poesia e procuro ter consciência dos meus limites, sabendo que eles são fluidos.

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