Correr acompanhado faz diferença na performance?
Descubra como a estratégia de correr em grupo e ter um pacer foi fundamental para um corredor alcançar o sub-3 na maratona
O engenheiro Yuri Krausz decidiu buscar um novo desafio após finalizar sua primeira maratona, em Tóquio, em 2026, em 3h09min: correr sua próxima maratona, em Buenos Aires, abaixo de 3 horas, o chamado “sub-3”, expressão usada pelos corredores para uma maratona concluída abaixo de três horas. A preparação durou 21 semanas e incluiu uma estratégia que ele já conhecia de outras provas: correr em grupo, com o acompanhamento de um treinador.
Aos 31 anos na época da competição, Yuri conciliou os treinos com o trabalho na área de Growth da Ticket e os deslocamentos entre São Paulo e Piracicaba. Em Buenos Aires, largou ao lado de outros dois corredores, Teo e Rafael, e de Camilo Alves, treinador da RunFun. Os três atletas tinham o mesmo objetivo: o sub 3.
Camilo, que já havia disputado nove maratonas, abriu mão de buscar uma nova marca pessoal naquela prova para acompanhar os alunos. Durante o percurso, assumiu o papel de pacer, corredor que serve de referência de ritmo, e cuidou de detalhes como os tempos de passagem, os ajustes de velocidade e os lembretes de hidratação e suplementação.
Para Yuri, essa divisão de responsabilidades trouxe tranquilidade. “Eu não tenho que olhar relógio, não tenho que me preocupar com pace, não tenho que fazer conta”, descreve sobre a sensação de ter o treinador ao lado.
Ele cruzou a chegada em 2h57min58s, uma melhora de 11 minutos e 31 segundos em relação a Tóquio. Teo e Rafael também terminaram abaixo das três horas.
Estratégia construída muito antes da largada
O trabalho em equipe começou meses antes da viagem. Ao longo das 21 semanas de preparação, o grupo compartilhou treinos, principalmente na fase final, para se acostumar à intensidade que pretendia sustentar na competição.
“A maratona é uma prova em que pequenos erros de estratégia podem custar muito caro, principalmente quando estamos falando de um objetivo tão desafiador. Por isso, além da preparação física, procuramos desenvolver a confiança no ritmo que havíamos planejado”, explica Camilo.
Durante a prova, o treinador conferia as previsões de passagem nas placas de quilometragem, alertava sobre subidas e descidas e procurava evitar acelerações desnecessárias. Também observava a respiração, a mecânica da corrida e as respostas de cada atleta para identificar dificuldades.
Os corredores se revezavam em tarefas como buscar água e ocupar a frente do grupo nos trechos com vento. “É uma prova que você corre para o seu tempo, mas corre com a pessoa do lado”, resume Yuri.
“Ter alguém ao lado pode ajudar o corredor a colocar em prática aquilo que construiu nos treinos. Essa pessoa oferece uma referência de ritmo, ajuda a organizar as decisões durante a prova e dá apoio nos momentos de dúvida. Para isso funcionar, o objetivo precisa ser compatível com a preparação e a parceria deve respeitar as necessidades de cada atleta”, reforça Mario Sérgio Andrade Silva, treinador e sócio fundador da RunFun.
O desafio físico e mental nos quilômetros finais
Para Yuri, um dos trechos mais difíceis veio com o vento de frente e o sol no rosto, na região de Puerto Madero. Mais perto da chegada, por volta dos quilômetros 38 e 39, começaram os sinais de câimbra. Naquele momento, o acompanhamento ajudou a manter a concentração e a administrar o ritmo.
“O apoio, mais do que a estratégia, foi o que me fez chegar lá”, avalia.
Camilo destaca que conhecer os alunos e ter acompanhado a preparação ajudou a transmitir segurança durante o percurso.
“Em determinados momentos, o cansaço faz o atleta começar a duvidar da própria capacidade, mesmo estando preparado para alcançar o objetivo. Acredito que minha presença ajudou justamente nisso. Eu estava ali mostrando, a todo momento, que estávamos dentro do planejado”, afirma.
O que a ciência diz sobre correr acompanhado?
Pesquisas investigam como a companhia influencia a corrida, mas os resultados não permitem afirmar que estar acompanhado sempre melhora o tempo.
Um estudo publicado no International Journal of Sports Physiology and Performance, em 2012, avaliou 11 corredores homens não pertencentes à elite em testes de cinco quilômetros, realizados sozinhos e com outro corredor. Nove disseram que foi mais fácil completar o percurso acompanhados. Entretanto, não houve diferença estatisticamente significativa no tempo, na frequência cardíaca ou na escala de esforço percebido.¹
Outra pesquisa, publicada no Journal of Sports Science and Medicine, em 2017, acompanhou 19 corredores treinados em testes de 1.600 metros. O grupo com pacer apresentou maior ansiedade antes da corrida, sem melhora significativa no tempo final. Os autores sugerem que seguir um marcador de ritmo é uma habilidade que exige aprendizagem.²
Os achados ajudam a diferenciar a experiência de se sentir apoiado de uma melhora necessariamente registrada no cronômetro. Também reforçam a importância de entender como cada corredor reage à companhia.
“Correr em grupo não significa que todos precisam fazer o mesmo treino ou alcançar o mesmo resultado. O papel da orientação é encontrar uma forma de compartilhar a experiência preservando o planejamento individual. Para alguns, a companhia traz confiança; para outros, pode gerar cobrança. É preciso conhecer essa resposta e ajustar a estratégia”, explica Mario Sergio.
Como escolher uma companhia para a prova
Para Camilo, o primeiro passo é definir uma meta a partir dos treinos realizados, dos resultados em provas preparatórias e das condições do atleta naquele momento. Escolher um grupo apenas pelo tempo que se deseja alcançar pode comprometer a competição.
“O pacer não faz milagre! Ele pode ajudar muito na estratégia, na motivação e no controle emocional, mas não substitui os meses de treinamento”, ressalta.
Também é importante conversar antes sobre a condução da prova: se o ritmo será constante, como serão feitos os ajustes nas subidas e se há previsão de acelerar na segunda metade. Quando possível, treinar junto ajuda a construir confiança e a perceber se a parceria funciona.
“O pacer deve ser uma referência, e não uma obrigação”, orienta Camilo. “Se em algum momento o atleta perceber que o ritmo está acima daquilo que consegue sustentar, ele precisa ter tranquilidade para ajustar sua estratégia.”
Yuri pretende repetir a experiência, tanto na busca por novas marcas quanto no apoio a outros corredores. Ele já acompanhou pelotões em duas meias maratonas e descobriu uma satisfação diferente ao ajudar outras pessoas a alcançar seus objetivos.
“É muito legal fazer seu tempo, entregar seu recorde pessoal, mas estar do lado de quem quer entregar, ajudar, motivar, estar de suporte, é sensacional”, conta.
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