Crews de corrida: conheça os grupos que estão tornando o esporte mais acessível
Espalhados pelas capitais, do subúrbio à região central, essas comunidades se tornaram um lugar seguro para iniciantes, mulheres, pessas LGBTQIA+ e negros
Grupos de corrida já não são uma novidade. A maioria surgiu como assessoria esportiva, oferecendo treinos em parques e voltados para a competição de provas. E por muito tempo isso consolidou a ideia de que só atletas ou quem tem um excelente condicionamento físico poderia ser corredor.
Até que surgiram as crews: um movimento que busca tornar a corrida mais acessível e que está mudando a cara do esporte.
A ideia central desses grupos é serem grupos acolhedores para diferentes públicos, seja para os iniciantes, para quem já tem alguma experiência no esporte, mas não se importa com o pace, para quem quer correr só entre outras mulheres, ou fortalecer a comunidade negra.
Foi baseado nessa proposta que, em 2023, os educadores físicos Marcelo Paiva e Felipe Mota criaram o “Coletivo Faz Teu Corre” com a ideia de ser uma alternativa divertida, acolhedora e responsável para corredores amadores.
“Nosso corre é incentivar, ocupar as ruas e lembrar sempre que a corrida pode ser livre, leve e principalmente, coletiva”, diz Marcelo. Os encontros do grupo acontecem duas vezes por semana em Mogi das Cruzes, São Paulo, e em semanas alternadas em São Bernardo do Campo, no Grande ABC.
A força das crews na expansão da modalidade ficou evidente com a pesquisa “Por Dentro do Corre 2025”, realizada pela Olympikus em parceria com a consultoria de tendências Box1824: metade dos corredores entrevistados participa de algum grupo de corrida.
O estudo mostra ainda que esses espaços de convívio incentivam a frequência de quem tem poucos dias na semana para treinar.
As crews se espalham pelas capitais do Brasil, com encontros em bairros centrais, mas também nos subúrbios. É o caso do “LoveUmDois“, na Penha, bairro da Zona Leste, criado em 2025 por Victor Hugo (Brisa) e Guilherme Silva (Chocolate) e o “Corre Quebrada”, fundado, também no ano passado, pelos corredores Gustavo Thomaz e Paola Franca, na região de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo.
Já o veterano “Ghetto Crew “ nasceu em 2013 e faz os seus corres na Zona Norte do Rio de Janeiro, no Engenho de Dentro, bem longe da orla praiana que vemos nas redes sociais — e o primeiro crew liderado por negros.
Essa descentralização geográfica facilita que outras classes sociais se envolvam com o esporte: a pesquisa identificou um aumento de 7% na participação de pessoas da classe C, em comparação ao levantamento do ano passado. São 43% de corredores dessa classe, frente a 17% da A e 40% da B, segundo a pesquisa.
Comunidade além do hype
Para além da preocupação com a performance (ou a falta dela), os crews se tornaram um ambiente seguro para quem considera recortes de gênero e raça fundamentais para que o ambiente seja acolhedor.
“Elas que Voam“ e o “Pace Delas“ são bons exemplos de grupos voltados só para mulheres (ainda que em alguns treinos, homens sejam bem-vindos). Já o grupo “Trans no Corre” reúne pessoas trans para correr no centro de São Paulo, e há os que incentivam a liderança e a participação de negros na corrida.
São expoentes dessa comunidade preta na corrida, o Ghetto Crew (que mencionamos acima), criado por Junior Negão em 2013, no Rio de Janeiro, e o “PRJCT RUNNERS CLUB“, de São Paulo, fundado e liderado por Débora Gonçalves.
“Eu sempre fui da corrida, mas via poucos pretos. Em 2017, quando criei o PRJCT, você abria o feed e só via gente branca correndo nos parques e nas provas. Depois de uma viagem que fiz no primeiro semestre daquele ano para Nova York, fiquei espantada com a diversidade de etnias correndo juntas pela cidade nos crew”, conta.
Não é exagero dizer que esses dois crews abriram caminho para que outros grupos surgissem e que mais pessoas pretas participassem da corrida de rua.
Mas a jornada para que essa representatividade aumente ainda é longa: de acordo com a pesquisa liderada pela Olympikus, apenas 10% dos corredores se identificam como negros e 36% como pardos, frente a 43% de brancos.
“São quase 10 anos nessa trajetória. Foram muitos ‘nãos’, muitas reuniões e portas na cara para explicar o PRJCT, mas também tive várias conquistas, pessoais e coletivas, como quatro maratonas e duas majors no curriculo, ter o apoio da Nike e, sobretudo, ter incentivado mais mulheres e negros a participar desse esporte. Ele que muda vidas. Eu comecei a crew para ver os meus em movimento. O hype passa, mas a comunidade construída na verdade, permanece”, finaliza Débora.
Os crews se reúnem ao menos uma vez por semana e costumam divulgar as datas, os locais de encontros e os trajetos em suas redes sociais.





