Dia do trigo: mitos e verdades

Especialistas falam sobre doença celíaca, os benefícios do trigo e a importância do glúten

Por Amanda Ventorin Atualizado em 11 nov 2020, 15h52 - Publicado em 11 nov 2020, 09h00

Pois é! Ainda há diversas dúvidas relacionadas ao papel do trigo e do glúten na nossa alimentação e até onde ele nos faz bem ou mal. Mas calma! As nutricionistas Natalia Barros e Giovanna Oliveira da Clínica Dra. Maria Fernanda Barca, nos ajudam a esclarecer as maiores dúvidas em relação ao cereal.

Quais são os benefícios do trigo?

Os principais benefícios estão presentes na forma integral. Estudos mostram que um grupo que consume de 2 a 3 porções diárias de grãos integrais, incluindo trigo, em comparação com grupos que ingeriram menos de 2 porções diárias, apresentam menor risco associados à doenças cardíacas, derrame, diabetes e mortes por todas as causas. Veja abaixo outros benefícios:

  • é uma fonte saudável de energia;
  • rico em diversos minerais que auxiliam no funcionamento dos órgãos;
  • fonte de fibras, que melhorar o movimento do intestino.

O que é glúten e qual a relação com o trigo?

O glúten é uma proteína naturalmente encontrada em muitos grãos, incluindo trigo, cevada e centeio. É comum em alimentos como pão, macarrão, pizza e cereais. Uma característica benéfica das proteínas do glúten é sua viscoelasticidade, tornando a produção de massas saborosas e produtos de panificação. Os grãos que contêm glúten, como o trigo, constituem uma grande parte da dieta ocidental moderna. Isso se deve, em parte, à sua palatabilidade, facilidade de cultivo e processamento em uma ampla variedade de alimentos. 

Para que serve o glúten no nosso organismo?

O glúten parece atuar como um prebiótico, alimentando as bactérias “boas” do nosso intestino. Os prebióticos contribuem para estimular a atividade das bifidobactérias (são bactérias que fazem parte da microbiota do trato gastrintestinal inferior do ser humano no cólon). Essas bactérias são normalmente encontradas no intestino humano saudável. Alterações em sua quantidade ou atividade foram associadas a doenças gastrointestinais, incluindo doença inflamatória do intestino, câncer colorretal e síndrome do intestino irritável. 

Como saber se sou intolerante?

O termo “intolerância ao glúten” inclui três condições diferentes: doença celíaca, alergia ao trigo e sensibilidade ao glúten não celíaca.

A alergia ao trigo é classificada como uma alergia alimentar clássica que é induzida pela ingestão de trigo (não apenas glúten) apresentando sintomas imediatos como choque anafilático, inchaço, coceira, congestão nasal e dificuldade de respiração. A doença celíaca é uma doença autoimune que pode ocorrer em indivíduos geneticamente suscetíveis e, quando não tratada, resulta em danos ao intestino, podendo levar a complicações de saúde graves.

Já a sensibilidade ao trigo não celíaco (SGNC) parece estar associada com sintomas intestinais, como dor e distensão abdominal, irregularidade intestinal (diarreia, constipação, ou ambos), e manifestações extra-intestinais como distúrbio de memória, dor de cabeça, musculares e articulares, fadiga, depressão, dermatite (eczema ou erupção cutânea) ou anemia e pode ser confundida com a síndrome do intestino irritável (SII) ou com a intolerância aos FODMAPs (Fermentable Oligo-, Di-, Mono-saccharides And Polyols).  

Para saber se é intolerante procure um profissional da área para te ajudar e fazer o correto diagnóstico, que é baseado no teste de exclusão de alimentos que contenham glúten e observação de sintomas. 

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O que é a doença celíaca?

É uma doença autoimune permanente, desencadeada pela ingestão de glúten, onde o próprio sistema imunológico provoca uma agressão que resulta em atrofia das vilosidades do intestino, que causa a diminuição da absorção dos nutrientes. Os sintomas mais comuns são diarreia, fezes com gordura (esteatorreia), constipação, anemia que não responde aos tratamentos convencionais, cólica, estufamento, má absorção que pode resultar em baixo peso e déficit de crescimento. Na fase adulta outros problemas podem estar relacionados devido ao consumo do glúten por celíacos, como o aumento injustificado de enzimas hepáticas, osteopenia, depressão, infertilidade, abortos recorrentes, cefaleia, fadiga cronica, fibromialgia.

Pessoas com doenças autoimunes como lúpus, esclerose múltipla, tireoidite de hashimoto e diabetes do tipo 1 tem maiores chances de serem celíacos ou sensíveis ao glúten bem como síndromes (down e tanner) e principalmente autismo e TDHA. Quando a exclusão do glúten é feito por essas pessoas, a melhora não é apenas nos sintomas relacionados ao glúten, muitas vezes também há melhora nos sintomas de outras doenças.

Doença celíaca é hereditária ou pode ser desenvolvida?

A disposição ao desenvolvimento de doença celíaca pode ser hereditária, sendo que quando há familiares de primeiro grau com a doença as chances de possuir é de 10%, já em casos em que não há familiares as chances são muito menores, bem como a intensidade dos sintomas. Mas a doença em si não é. Sendo uma condição multifatorial, vários genes devem interagir com fatores ambientais para causar a doença celíaca.

Além disso, pode-se desenvolver em qualquer idade. Os sintomas clássicos da doença surgem por conta da inflamação que afeta o trato gastrointestinal. Essa inflamação danifica a barreira intestinal, um espécie de “cinturão” que reveste o intestino favorecendo a absorção de nutrientes e impedindo a entrada de toxinas para o meio interno do corpo. Na doença celíaca, pode ocorrer um dano nessa barreira intestinal, podendo gerar diarreia, má absorção de nutrientes, perda de peso, dor abdominal, constipação, inchaço (distensão) e outros sintomas.  A inflamação e a má absorção de nutrientes podem causar problemas que afetam muitos outros órgãos e sistemas do corpo, como diversos tipos de câncer, anemia osteoporose e até depressão.

Posso cortar o glúten mesmo sem ser intolerante? Há alguma consequência?

Segundo a nutricionista Natalia Barros, não há evidências convincentes de que uma dieta sem glúten melhore a saúde ou previna doenças. Além disso, alimentos sem glúten são comumente menos fortificados com ácido fólico, ferro e outros nutrientes do que os alimentos normais que contêm glúten. E os alimentos sem glúten tendem a ter menos fibras e mais açúcar e gordura. Vários estudos encontraram uma tendência de ganho de peso e obesidade entre aqueles que seguem uma dieta sem glúten (incluindo aqueles com doença celíaca).

Trigo/glúten deixa inchado?

Pode ser um sintoma de sensibilidade ao trigo não celíaco, porém outras condições intestinais também podem gerar maior distensão abdominal como TPM, reação de medicamentos, gases, etc… Uma avaliação nutricional nesses casos é essencial para conduzir um tratamento que não gere deficiências nutricionais e comprometa a saúde, caso você se sinta inchado ao consumir trigo. 

Preciso cortar o glúten se quero emagrecer?

Não necessariamente, o glúten em si não é responsável pelo ganho de peso e não deveria ser uma preocupação para quem não tem doenças relacionadas. Apenas substituir grãos que contêm glúten por variedades sem glúten não afetará seu peso. Ao substituir alimentos ricos em carboidratos refinados e processados que contenham glúten, como pão, bolachas, doces ou macarrão, por frutas e vegetais, poderá contribuir para a perda de peso, mas isso não é suficiente se não houver uma mudança no padrão alimentar –  o processo de emagrecimento e construção de um estilo de vida saudável é complexo e envolve o comportamento alimentar que inclui não somente o que comer, mas também o porquê e como comer. 

Glúten faz mal para a saúde?

Se tratando de pessoas que não possuem sensibilidade ao glúten, não há nenhuma evidencia científica de que o mesmo faça mal para a saúde, o que pode acontecer é gerar um desconforto quando consumido em excesso, por serem proteínas de difícil digestão.

Existe alguma possibilidade de consumir trigo sem glúten?

Giovanna Oliveira afirma que ainda não. Mas que já existem cientistas fazendo testes de manipulação genética no trigo, conseguindo uma redução de 99% da expressão da gliadina, uma das proteínas do glúten que causa a maior parte das reações. Isso não resolve o problema de todos que sofrem com a doença mas é um avanço promissor.

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