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Longevidade com Ciência, por Dra. Anna Weinhardt

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Conectando a saúde vascular e Medicina do Estilo de Vida ao universo do esporte

Saúde mental também é sobre onde e com quem escolhemos estar

A saúde mental se constrói não só de dentro para fora, mas também de fora para dentro, pelos ambientes e relações.

Por Dra. Anna Weinhardt 29 ago 2026, 20h00
Duas mulheres sorrindo, com as mãos apoiadas em uma cerca de madeira, olhando uma para a outra. A da esquerda tem cabelos cacheados e usa blusa vermelha; a da direita tem cabelos lisos e veste blusa laranja. O céu claro ao fundo sugere um dia ensolarado
Saúde mental também é sobre onde e com quem escolhemos estar | (Magnific/Magnific)
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Quando falamos em saúde mental, nosso olhar costuma se voltar para dentro. Pensamos nas emoções, nos pensamentos, na ansiedade, na tristeza, na resiliência e na capacidade de enfrentar adversidades. E, quase naturalmente, colocamos sobre o indivíduo grande parte da responsabilidade por estar bem: controlar o estresse, dormir melhor, fazer terapia, meditar, praticar atividade física.

Tudo isso importa. Mas saúde mental não é construída apenas de dentro para fora. Ela também é construída de fora para dentro.

A Medicina do Estilo de Vida mostra que as pessoas ao nosso redor e os ambientes que frequentamos influenciam nosso comportamento, nossa percepção de segurança e a forma como lidamos com o estresse. Família, trabalho, amigos e relacionamentos formam parte do contexto em que vivemos, e esse contexto também participa da nossa saúde.

O corpo também escuta o ambiente

Há espaços em que naturalmente relaxamos. Lugares e pessoas com os quais podemos falar sem revisar mentalmente cada palavra, compartilhar uma conquista sem receio de incomodar ou admitir uma fragilidade sem medo de que ela seja usada contra nós.

Existem pessoas cuja presença nos deixa mais espontâneos, confiantes e próximos de quem somos. Isso não significa ausência de conflitos ou frustrações. Relações saudáveis também nos confrontam. A diferença está na possibilidade de atravessar esses momentos sem sentir que o vínculo está permanentemente ameaçado.

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Em outros contextos, acontece o contrário. Medimos palavras, antecipamos reações, interpretamos silêncios e calculamos cada passo. Gastamos uma quantidade enorme de energia emocional apenas para permanecer ali.

Relações imprevisíveis, ambientes de trabalho hostis ou lares marcados por conflitos constantes podem manter o organismo em um estado prolongado de alerta. E experiências emocionais também provocam respostas físicas: alterações no sono, aumento da tensão, aceleração dos batimentos e mudanças na resposta ao estresse.

O problema surge quando esse estado de vigilância deixa de ser uma exceção e passa a fazer parte da rotina.

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Relações também fazem parte da saúde

A conexão social tem recebido cada vez mais atenção quando falamos de saúde. Não por acaso, relacionamentos saudáveis são um dos pilares da Medicina do Estilo de Vida.

Em uma consulta médica, perguntamos sobre pressão arterial, colesterol, glicemia, alimentação, tabagismo e atividade física. Talvez outras perguntas também mereçam espaço: como estão seus vínculos? Você tem com quem conversar quando algo importante acontece? Existe alguém para quem telefonaria diante de uma dificuldade? Você se sente visto pelas pessoas importantes para você?

A literatura científica associa o isolamento social e a solidão persistente a piores desfechos de saúde. Em contrapartida, vínculos consistentes e uma rede de apoio aparecem como importantes fatores de proteção ao longo da vida.

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O filósofo Martin Buber construiu uma reflexão especialmente bonita sobre essa dimensão da existência. Para ele, o ser humano se realiza no encontro verdadeiro com o outro, naquilo que chamou de “relação Eu-Tu”. Nas relações em que existe segurança, não precisamos desempenhar permanentemente um personagem. Podemos simplesmente existir.

Isso vale para amizades, famílias e relacionamentos afetivos.

Uma boa relação pode nos confrontar, tirar da zona de conforto e nos fazer rever comportamentos. O que ela não deveria exigir é que diminuamos quem somos para conseguir permanecer nela.

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Quando movimentamos o corpo, acalmamos a mente

A prática regular de atividade física é outro pilar fundamental da Medicina do Estilo de Vida. Ela está associada à melhora do humor, do sono, da qualidade de vida e do bem-estar, além de contribuir para a redução de sintomas de ansiedade e depressão.

Mas existe um aspecto desse universo que vai além do movimento: o pertencimento.

Clubes, grupos de corrida, quadras, academias e outras comunidades esportivas podem transformar o exercício em uma experiência de conexão. A pessoa começa a correr e encontra uma turma. Vai à academia por recomendação médica e, meses depois, percebe que aquele horário se tornou uma das partes mais esperadas do dia.

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O exercício deixa de ser apenas uma obrigação e passa a ser também um encontro.

Além disso, a prática esportiva nos ensina, na experiência, algo importante para a saúde mental: reconhecer limites. Há dias em que precisamos reduzir o ritmo, descansar, pedir ajuda, mudar a estratégia e recomeçar. Persistência e flexibilidade deixam de ser conceitos abstratos e passam a fazer parte da vida.

Não existe saúde em compartimentos

Na Medicina do Estilo de Vida, falamos sobre atividade física, alimentação, sono, manejo do estresse, redução de substâncias nocivas e relacionamentos saudáveis. Esses pilares não vivem em gavetas separadas.

Uma noite mal dormida interfere na disposição para treinar. O estresse modifica o comportamento alimentar. A atividade física pode melhorar o sono. Um grupo de amigos aumenta a chance de mantermos uma rotina de exercícios. Uma relação segura ajuda a atravessar períodos difíceis. Um ambiente profissional hostil pode consumir a energia que seria usada para cuidar de si. É um sistema.

Por isso, longevidade não pode ser reduzida a apenas uma coleção de bons exames. Podemos conhecer nosso LDL, monitorar a glicemia, medir a composição corporal, contar passos e acompanhar cada hora de sono. Tudo isso é importante. Mas saúde também é a qualidade da experiência de estar vivo.

É acordar com disposição. Ter projetos. Criar vínculos. Sentir-se pertencente. Ter pessoas com quem dividir uma conquista e alguém para procurar quando as coisas não vão bem. É movimentar o corpo. Experimentar propósito. Ter espaços onde seja possível respirar sem estar permanentemente em estado de defesa.

Onde você floresce?

Setembro nos convida a falar sobre saúde mental. Na visão da Medicina do Estilo de Vida, essa conversa não precisa se restringir ao que acontece dentro de cada um de nós. Podemos ampliar o olhar para os ambientes que escolhemos ocupar.

Onde estou? Com quem estou? Quem eu me torno quando estou nesses lugares e com essas pessoas? Os espaços que frequento despertam minha potência ou me mantém na defensiva? Meus relacionamentos oferecem espaço para crescimento? Tenho lugares aos quais pertenço? Tenho pessoas que celebram comigo?

Existe uma pergunta ainda mais importante: eu tenho sido esse tipo de ambiente para alguém? Porque nós também somos ambiente. Em casa, no trabalho, na amizade, na quadra, na academia ou até em uma relação. Nossa presença pode aumentar a tensão de uma sala ou permitir que alguém respire melhor. Podemos competir diminuindo o outro ou descobrir que existe espaço para crescer juntos.

Longevidade é muito mais do que acrescentar anos à vida. É criar condições para permanecermos vivos por dentro enquanto os anos passam. Por isso, cuidar da saúde mental também envolve construir uma vida na qual existam mais lugares que nos expandam do que lugares que nos diminuam.

Isso não significa buscar uma vida permanentemente confortável. Existirão perdas, conflitos, derrotas, doenças e quilômetros difíceis. O que faz diferença é não precisar atravessar tudo isso sozinho. É saber que existe algum lugar, ou alguém, onde podemos baixar a guarda.

Para o mês de setembro, deixo duas perguntas: Os ambientes que tenho escolhido e as relações que tenho cultivado despertam em mim aquilo que tenho de melhor? E eu tenho sido, para as pessoas que amo, um ambiente onde elas também possam florescer?

 

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