Samorai: o educador físico é o novo colunista da BOA FORMA Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

Tá tudo bem

Nas redes, acompanhamos pessoas que são felizes o tempo todo, mas será que é assim mesmo?

Por Samorai Atualizado em 13 jan 2022, 11h39 - Publicado em 13 jan 2022, 10h54

Hey, folks! Tá tudo bem. Não que tudo esteja bem, mas está tudo bem você se sentir como está. Não importa como esteja se sentindo. Tá tudo bem se sentir assim. Todos os sentimentos são válidos, são perfeitos e são, sobretudo, um meio de você se conhecer. Assim como a dor, os sentimentos são uma forma de comunicação, mas nesse caso não do corpo, mas da alma. Cada sentimento tem sua função e não existe uma hierarquia entre eles. Costumamos acreditar que alguns são mais nobres que outros, mas não. No filme Divertidamente, a alegria, sentindo-se superior, tenta assumir todos os papéis e até chega ao ponto de isolar a tristeza para que ela não cumpra seu papel de tornar a menina Riley, protagonista do filme, triste. A tristeza é um sentimento humano e necessário. Respeitá-la, tão necessário quanto. E saiba, você não é o único triste. A tristeza é normal. Ela é o contraponto da alegria.

Uma das principais premissas do treinamento 3Dimensional é entender o ser humano e o universo. E embora esse entendimento esteja muito distante para nós, buscamos sempre tentar entendê-los melhor, ao menos no que nos seja acessível. Um dos princípios básicos deste mundo é que ele se equilibra entre forças antagônicas. Sendo assim, a tristeza é tão importante quanto a alegria. Conhecemos alegria porque conhecemos a tristeza. E vice-versa. Então, por que a percepção negativa da tristeza? Para mim a resposta vem do fato de classificarmos uma boa e outra ruim. E se é ruim, eu quero longe. Esse modelo de pensamento pauta muito nossa sociedade do prazer.

Nos tempos atuais, por meio das redes sociais, isso ficou mais evidente e exacerbado. Neste lugar não há espaço para a dor, o feio, o fracasso. Ali tudo tem que ser bom. Tudo tem que ser perfeito e fazemos da felicidade uma ostentação. Que nem sempre é verdade. Quem nunca viu uma cena que vou descrever agora. Um casal em um restaurante que quase não se fala e está cada um no seu celular. Em determinado momento eles param para uma foto e fingem serem pessoas muito felizes e bem resolvidas. Sorriem para a foto, fazem poses, testam o ângulo, a luz. Tudo precisa sair perfeito. Se o restaurante for chique, ainda será marcado na foto porque não faz sentido comer em um restaurante caro sem que o mundo todo saiba.

Na legenda da foto, alguma frase motivacional mostrando uma superioridade espiritual, que não possuem nem de longe, porque a evolução espiritual é o oposto da espiritualidade ostentação. Feita a foto, vem os filtros, porque a minha ruguinha de idade não pode aparecer. A manchinha do sol ou até mesmo o reflexo de um dia de trabalho difícil, nem pensar. Subiu no Instagram, cada um volta ao seu celular e à vida de verdade. Aquela em que eles mal interagem. Um casal de desconhecidos. Muitas vezes ficamos tristes por comparar a nossa vida normal com a das pessoas da rede social, sem saber que aquela vida não existe. E isso nos adoece.

Às vezes o que acontece é um pouco diferente. Acompanhamos pessoas que são felizes o tempo todo. Não importa o que acontece, está feliz. Tem até a receita da felicidade. Acordar muito cedo, comer linhaça com mamão, meditar, ler um livro de autoajuda, “cocriar” seu mundo perfeito, vibrar na abundância e, obviamente, vender seu curso online. Tudo isso devidamente registrado no feed da sua rede social favorita.
De alguma forma ela passa a mensagem que está sempre feliz e faz você acreditar que se você não está feliz a culpa é sua. Você não está “cocriando” seu mundo perfeito ou vibrando na frequência certa e como punição você experimenta a tristeza.

Esse comportamento tem um nome. Positividade tóxica. É a distorção do sentimento natural. Afinal, se o legal é ser feliz eu vou ser o mais feliz do mundo. Serei o “bonzão” da felicidade. Isso além de não ser verdadeiro, e lá na frente pode trazer sérias consequências para a vida desta pessoa por ter que fingir o tempo todo ser quem não é, também pode gerar no outro, aquele que não se sente feliz o tempo todo, a depressão. Cada vez que ele não se sente feliz o resultado é a frustração. A sensação de fracasso.

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Por isso, neste mês, com a campanha Janeiro Branco, queremos trazer à tona a discussão sobre saúde mental e te dizer que saúde mental nada tem a ver com estar feliz o tempo todo e que não está errado se sentir triste, eventualmente, e que todos os sentimentos são perfeitos e necessários. E se treinamento 3D é sobre corpo, mente e espírito, essa discussão é, para nós, objeto de muito estudo. A pessoa que chega para treinar conosco são essas pessoas, bombardeadas pelos corpos perfeitos, dentes perfeitos e felicidade infinita. E que chega perdida, desamparada e sem saber se encaixar neste modelo. Aqui no nosso espaço ela não precisa disso. Ela pode ser ela mesma. Do jeito que ela é. Que tá tudo bem.

Não quero dizer aqui que ficar triste é legal. Quero dizer que é importante reconhecer sua tristeza. Permitir que ela se manifeste e te ensine. E que depois se vá. Para mim é como perder uma luta, uma vez que sou atleta de Jiu Jitsu. Eu gosto de perder? Procuro a derrota porque ela faz parte? Claro que não. Mas, a derrota me ensina. Assim como a tristeza, a dor, a raiva. Me ensina antes de tudo sobre mim. Me reconheço também através dos meus sentimentos e das minhas experiências negativas. Quando perco um campeonato, não comemoro. Não fico feliz. Fico chateado, frustrado e até com raiva. E aceito isso. Tenho meu tempo de luto. E depois retomo a vida, aos treinos e tento aprender com essa experiência. E esses sentimentos ditos negativos são fundamentais para a minha evolução. Entendê-los e respeitá-los é um passo que posso dar nessa jornada, que sim, terá altos e baixos, mesmo que só postaremos os altos.

Então, lembre-se sempre. Está tudo bem não se sentir bem. E se você não conseguir passar por esse momento e caminhar, também está tudo bem pedir ajuda. Nos últimos 2 anos o índice de suicídios aumentou muito e 80% desses casos são de homens, porque eles têm mais dificuldade de pedir ajuda. Pedir ajuda não é sinônimo de fraqueza, mas de humanidade. Somos ensinados que homens não choram, que homem é provedor e também definimos o que é sucesso. Um bom dinheiro, um bom carro, uma boa casa, uma rede social com milhões de seguidores, mulher e filhos, muito dinheiro no bolso. E quando não atinge isso, a culpa é sua. Você não vibrou na abundância. Você é um perdedor.

Curioso que esse modelo de sucesso tornaria Jesus um dos maiores losers que já pisou nesta terra. Pois ele não se enquadra no ideal de sucesso que criamos. E se ele veio aqui para nos dar exemplo, o que aprendemos? Nada. E qual caminho do sucesso ele indicou? Nenhum. Ele não nos indicou uma direção ou um lugar de chegada, mas um código moral. Um meio de atingir, não importa o caminho que você escolher. Por isso acredito que tudo é um meio de evolução espiritual, desde que feito com o coração aberto e presença plena. E com moral. Não disse que todo caminho tem que ser sem dor ou perda. Elas serão inevitáveis e funcionam também como um indicativo de uma direção e uma oportunidade de evolução. Acredito também que o caminho não está à sua frente. O próximo passo pode ser em qualquer direção e todas estarão corretas, porque não temos uma meta, um lugar, um pódio ou um propósito. Temos apenas que sair melhor do que entramos e, para isso, tudo é caminho. Inclusive nossas dores, tristezas e frustrações.

Podemos ser o gari que limpa a rua ou o CEO de uma empresa. Isso não muda. Quem está melhor? Ninguém. Não é uma competição. Para onde cada um deve ir. Não sei, se soubesse não estava nessa escola chamada vida também. O que acredito, que é diferente do que eu sei, é que tenho que caminhar e aprender. Até o último desta e das próximas vidas. Que tudo que me acontece é perfeito, mesmo que eu não consiga entender. Que não existe fora no planeta. Então eu não jogo nada fora. Eu mudo de lugar e isso um dia volta para eu aprender a lidar. Que quanto mais honesto eu for comigo mesmo e com meus próprios sentimentos, mais eu aprendo sobre mim e sobre meu caminho. E que não preciso fazer isso sozinho o tempo todo. Se eu não estiver caminhando ou estiver com dificuldades de entender, posso parar e pedir ajuda. Para qualquer um. Se tudo é perfeito, todos assim o somos. Por isso, acredite. Tá tudo bem. E se está muito difícil, peça ajuda. E escute seu coração.

Forte abraço,
Samorai

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