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Outubro Rosa: relação entre câncer e atividade física

Entenda o que eles têm a ver e confira um relato emocionante de quem encontrou, no esporte, a motivação para seguir em frente

por Amanda Panteri | Illustração de Erika Lourenço Atualizado em 8 out 2020, 08h51 - Publicado em 8 out 2020 08h52

Segundo informações do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de mama é um dos tipos mais comum entre as mulheres no Brasil, ficando atrás somente do de pele — ao menos 29% dos casos de câncer registrados anualmente são de mama. Em 2019, a instituição contabilizou quase 60 mil novas descobertas da doença. Por isso a necessidade de dedicar um mês inteiro somente para sua conscientização e prevenção, o Outubro Rosa. E nesse pacote de prevenção, apostar em práticas que valorizam a saúde mental e física dos pacientes torna-se essencial. Mas você sabia que as atividades físicas ajudam também no tratamento do câncer de mama? Consultamos especialistas para entender melhor essa relação.

Câncer e atividade física: prevenção

Uma revisão de 73 estudos publicado na National Library of Medicine, dos Estados Unidos, concluiu que mulheres ativas têm 25% menos chances de desenvolver câncer de mama do que as sedentárias. A probabilidade é ainda maior quando os exercícios trazem prazer para a pessoa, são mantidos com regularidade durante a vida ou depois da menopausa e possuem intensidades moderada a alta.

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Uma das possíveis causas para isso pode estar no fato de que a prática de esportes diminui o acúmulo de gordura abdominal e previne a obesidade, duas situações que são associadas a maiores riscos de desenvolvimento de diversos tipos de câncer. “Quanto maior o nível de gordura no fígado, mais esse órgão fica fragilizado e mais resistência a insulina o indivíduo terá — um dos fatores que também corroboram para o aparecimento da enfermidade”, explica a médica oncologista Ana Carolina Salles (@anacarolinasallesoncologia), do Grupo Oncoclínicas.

Vale lembrar, também, que ao manter a vida ativa, a gente consegue otimizar diversos processos do organismo. “A atividade física regula o metabolismo, reduz a gordura corporal e equilibra diversos hormônios, como a insulina e o estradiol”, completa o personal trainer Jhonson Pereira dos Santos, da Evolve Gymbox. 

Câncer e atividade física: tratamento

Mas os benefícios da prática não param na prevenção. As vantagens em aliar uma vida ativa com o tratamento da doença são muitas. A começar pelo lado social: uma vez que a pessoa tem a oportunidade de conversar e interagir com grupos diversos e fazer amigos, ela pode diminuir sentimentos como solidão e medo, comuns em pacientes de câncer.

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“A prevalência de depressão em pessoas com doenças crônicas é muito grande. Pacientes com câncer tendem a se sentir desmotivados, mas é nosso papel explicar que os exercícios trarão muitos benefícios”, afirma o profissional de educação física Paulo Gentil (@drpaulogentil), um dos idealizadores da Franquia Pers@onall — plataforma online para professores darem aulas por vídeos.

Os efeitos colaterais provocados pela quimioterapia podem ser desgastantes e intensos. “A curto prazo, causa fadiga, mal-estar, enjoos e perda de apetite. Alguns tipos até geram dor nos membros inferiores, como se você tivesse treinado no dia anterior”, afirma Ana Carolina Salles, o que desanima o paciente a se movimentar. Mas Paulo Gentil complementa que, a longo prazo, o tratamento do câncer pode acelerar a perda de massas muscular e óssea, além de causar menopausa precoce em mulheres. Os exercícios, então, entram para combater todos esses problemas.

“As evidências científicas apontam que mais de 90% das mortes de câncer seriam evitáveis se os indivíduos aliassem o tratamento adequado a bons hábitos, como alimentação equilibrada e atividade física”

Paulo Gentil.

Uma pesquisa, aliás, já demonstrou que as sessões intervaladas de alta intensidade (como o HIIT) reduzem o crescimento de células tumorais em pacientes com câncer de cólon. “A atividade facilita o trânsito gastrointestinal e fortalece as defesas imunológicas do corpo, melhorando a qualidade de vida dos indivíduos”, explica o fisioterapeuta Fernando Zikan (@dr.fernandozikan), do Rio de Janeiro.

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Cuidados

Antigamente, acreditava-se que os treinos eram prejudiciais a pessoas que passaram por internações, cirurgias e tratamentos invasivos — formariam o chamado linfedema, uma obstrução do sistema linfático que provoca inchaço nos braços e pernas. “Hoje, sabemos que isso não é verdade. Um estudo, inclusive, já apontou que até a musculação pode ser liberada para esses pacientes. E se feita da maneira correta, irá mais ajudar do que atrapalhar a recuperação”, explica Paulo Gentil.

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O personal conta que desenvolveu, junto com sua equipe, um programa de treinos que atende as especificidades de indivíduos em tratamento de câncer. O objetivo? Alternar a intensidade dos exercícios de acordo com as semanas de quimio do paciente. “Na semana que você recebe a terapia, os níveis de fadiga são mais altos. Por isso, para esse período montamos um treinamento adaptado e mais leve para não agredir ainda mais o organismo.”

A segunda semana após a sessão de quimio é reservada para acostumar o corpo com cargas mais altas. Já na terceira o paciente está apto para “pegar mais pesado” (respeitando seus níveis de condicionamento físico, é claro). A quarta geralmente coincide com a outra dose da quimioterapia — então, o ciclo recomeça e os exercícios voltam a ser mais fáceis. “Aí quando o paciente passa para a segunda fase do tratamento, que costuma ser mais branda, na maioria das vezes a pessoa já pode treinar normalmente.”

Em casos mais extremos, os médicos recomendam a fisioterapia. “Nessas circunstâncias o fisioterapeuta vai orientar exercícios iniciais leves, com foco na força muscular e capacidade aeróbica, progredindo para atividades mais funcionais — como caminhadas e andar de bicicleta”, explica Fernando Zikan.

Ele lembra também que manter uma vida ativa não significa necessariamente ir para a academia. “Contam desde arrumar a casa, subir escadas, cuidar do jardim e caminhar pelo bairro, até a prática esportiva recreacional. Se não tiver disposição para 30 minutos de treino, faça a atividade em intervalos de 10 minutos. O importante é o exercício terapêutico virar rotina.”

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Erika Lourenço/BOA FORMA

Câncer de mama e coração

E ainda há mais uma vantagem em investir nos esportes durante o processo de recuperação. Uma pesquisa publicada no JACC CardioOncology, em 2019, apontou que as mulheres que se exercitam antes da quimioterapia apresentam menores riscos de desenvolver doenças cardiovasculares depois dela (chances de 20% a 37% menores do que as que não praticavam nada).

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Ponomariova_Maria/Getty Images

“É claro que cada paciente responde de forma diferente. Mas as sessões de tratamento do câncer de mama são focadas na região do tórax. Em alguns casos, isso pode afetar o coração. Por isso, fortalecê-lo com atividades aeróbicas é muito importante”, explica a cardiologista Renata Castro (@drarenatacastro), especialista em medicina esportiva.

A oncologista Ana Carolina Salles ressalta também que a quimio vermelha tem o potencial de cardiotoxicidade. Ou seja, gerar danos musculares disfunção de eletrofisiologia do coração.

Relato pessoal

Joselita Figueiredo dos Santos Schnell (@joselitafigueiredo_s_s), de 47 anos, nasceu em São Paulo, mas atualmente mora na Alemanha com o filho de 12 anos. Há dois, descobriu um câncer agressivo em sua mama esquerda. “Eu sempre faço os exames de toque e mamografias anuais, e nunca tinha desconfiado de nada. Foi somente no ano passado que comecei a perceber sintomas estranhos no meu seio esquerdo: ele estava maior que o direito e com uma espécie de massa dura. Eu sentia dor na região, mas tinha perdido totalmente a sensibilidade do mamilo”, lembra.

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Joselita Figueiredo/Acervo pessoal

No começo, a professora de Zumba pensou que as mudanças tivessem algo a ver com os hormônios em seu corpo. Foi ao passar o feriado de Páscoa no Brasil e contar o que estava acontecendo para sua irmã, Mirian, que ela começou a se preocupar. Logo que voltou para a Alemanha, fez todos os exames que detectaram a doença. “A médica foi muito radical. Disse que era um tipo bem invasivo e agressivo, que tende a se espalhar para outras partes do corpo (metástase).”

Felizmente, o câncer de Joselita não tinha evoluído para nenhuma outra região. Apenas para as axilas, o que é comum de acontecer. A partir daquele momento, ela precisou começar imediatamente o tratamento: uma pequena cirurgia para otimizar o efeito dos medicamentos; 4 sessões de quimioterapia vermelha, considerada mais forte; mais 12 sessões da branca, a mais fraca; e, por fim, a retirada parcial da mama. “O quanto da mama é removida depende do tamanho e localização do tumor. Minhas quimioterapias fizeram com que o tumor regredisse de 4 cm para 0,5 mm. Foi uma benção dos céus!”

Nessa época, ela recebeu uma visita especial. “Minha mãe, que com 70 anos, atravessou o oceano e encarou o frio europeu para cuidar de mim por três meses.”

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Joselita Figueiredo/Acervo pessoal

“Meus dois grandes medos eram ter que parar de trabalhar com o que eu amo (as aulas na academia) e perder o meu cabelo”, conta. Foi então que ela encontrou alguém para se inspirar. Joselita trabalha em uma creche do governo da Alemanha. Mas também é especializada e dá aulas de Zumba e Piloxing (uma mistura de pilates, boxe e coreografias de dança). A ideia de não ter forças durante o tratamento para ensinar a atividade física a apavorava. “Então eu lembrei de uma aluna minha que passou pela mesma coisa que eu. A convidei para vir à minha casa, e contei o que estava acontecendo. Foi quando ela respondeu: ‘eu estou aqui, firme. Me use como exemplo para você”, e foi o que fiz.

No começo, não foi tão fácil. A professora conta que sentia cansaço na primeira semana de cada sessão de quimio vermelha, mas que, depois, voltava à rotina normal. “Em alguns momentos, me deitava na cama e pensava que não ia conseguir, que ia chamar alguém para me substituir. Mas então colocava na cabeça que eu precisava fazer aquilo, e dava tudo de mim nas aulas. Os alunos até elogiavam”, lembra. “O esporte ajuda a pessoa a não entrar em depressão, e a não regredir no tratamento. E foi o que aconteceu comigo. Também sinto que, por ter sido uma pessoa ativa a minha vida toda, meu corpo já estava forte e preparado para enfrentar a doença.”

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Joselita Figueiredo/Acervo pessoal

Até do cabelo Joselita desapegou. “Toda vez que eu lembrava que ia perder meu cabelo cacheado, ficava muito triste. Chorei e fiquei uma semana em casa pensando na possibilidade. Com o tempo fui aceitando melhor e, com a ajuda do meu filho, fui ao salão e cortei bem curtinho pela primeira vez. Depois, vi que não tinha mais jeito – começaram a surgir buracos bem aparentes na minha cabeça. Foi quando disse chega, tinha que desapegar e mandei raspar! No mesmo dia postei uma foto com a minha careca para todo mundo ver”, conta.

Atualmente, ela já realizou todas de quimio, a cirurgia, e mais 31 sessões de radioterapia. “Além disso, iniciei um novo ciclo de 14 sessões de anticorpos com uma quimio chamada Kadcyla. Agora, faltam somente 4 sessões dela; em dezembro, poderei finalmente dizer adeus ao tratamento!”

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Joselita Figueiredo/Acervo pessoal

Quando perguntamos a ela quais recados dar para pessoas que estão passando por problemas parecidos, ela é enfática: “As atividades físicas me deram e dão a certeza que o câncer de mama está de passagem e levará tudo de ruim embora. Sobre os cabelos caírem, foi com a dor e a perda que eu evoluí e aprendi a me aceitar melhor!”