Samorai: o educador físico é o novo colunista da BOA FORMA Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

Crianças NÃO têm facilidade em aprender

Elas aprendem muito, mas não por facilidade, e sim por uma dedicação e resiliência que nenhum adulto chega nem perto

Por Samorai Atualizado em 22 set 2021, 00h08 - Publicado em 21 set 2021, 21h02

Há exatos 5 anos eu conhecia o maior, mais abrangente e transformador amor que já senti. Minha filha aparecia aqui nesta terra pela primeira vez. Assim que a peguei no colo eu sabia que essa jornada seria para sempre e que nada nunca mais seria igual.

Bom, a verdade é que com ela ou sem ela não seria mesmo, porque nada é fixo ou permanente, mas o fato é que as mudanças seriam imensas, como poucas vezes são. Se seriam melhores ou não eu não poderia saber, mas seriam transformadoras. Já falei aqui algumas vezes que acredito que tudo pode ser um agente de transformação espiritual. O seu trabalho, seus hobbies, seu esporte, jardinagem, cuidar de alguém. Tudo, se feito com presença, é um meio. Não há melhores ou piores, mas diferentes caminhos. A paternidade é um deles. E dos maiores. Isso porque evolução implica em aprendizado e, ao contrário do muitos pensam, ser pai ou mãe para mim é muito, mas muito mais, uma tarefa de aprender do que ensinar.

Então, ali eu estava conhecendo não só minha filha, mas uma nova jornada que, se bem aproveitada e vivida, me possibilitaria dar mais alguns passinhos no sentido de uma maior evolução. Jornada essa que nunca tem fim. Metaforicamente falando, me matriculei em mais uma escola para eternidade.

Nesses 5 anos tive o privilégio e a oportunidade de presenciar (e aqui o verbo faz uma referência à presença plena mesmo) o início da vida terrena de um ser e pude aprender mais sobre o ser humano, elemento indispensável na minha vida profissional. Desde sempre sou um observador. Tenho amor pela vida e sua expressão por meio do movimento.

Desenvolvi toda minha forma de trabalho essencialmente observando e agora a vida se formava na minha frente e eu estava na área VIP, e também no setor de serviços gerais. Quase uma onipresença. Agora eu poderia observar de perto esses pequenos seres que aprendem todo dia. Que tem uma facilidade imensa de aprender. Que seus degraus de aprendizagem são tão grandes que eles parecem outros seres de um dia para o outro. Quando foi que ela aprendeu essa palavra? Quem ensinou esse movimento? Uma criança é uma metamorfose ambulante, rolante, tropeçante. É a vida na sua essência. Agora eu poderia ver esse ser que aprende tudo com tanta facilidade em ação e me deslumbrar.

E o que eu vi? Que crianças não têm facilidade em aprender. E não pela minha filha, que tem um talento motor como poucas vezes vi. Uma inteligência cognitiva e emocional que muitos dos adultos que conheço não têm nem perto. Acredito ser ela um talento em especial quando o quesito é aprendizagem. Mas, mesmo ela e todas as crianças não são feitas para aprender. E aqui explico essa tese.

Para aprender temos alguns requisitos necessários. Primeiro a fonte de aprendizado, as condições e os recursos. Até aí isso está disponível a todos. No entanto, tem um elemento que eu acho essencial e esse falta em uma criança. Repertório e lugar de armazenamento desta informação. Deixe-me exemplificar.

Se eu te falo uma palavra aleatória do tipo Paris, você armazena essa palavra em várias gavetas. Você pode colocá-la na gaveta Europa, na gaveta França, na gaveta capital de países, em gavetas específicas de conhecimentos que você adquiriu e valoriza, por exemplo, Sartre, Louvre, Paris Saint Germain, Sena (aqui o rio), dá para chegar até em Henry Muller. Tudo isso porque você tem algum lugar no seu repertório para colocar essa palavra. Se eu falo Paris para uma criança em bem pouco tempo será esquecida. Tudo que você não tem onde armazenar se perde ou fica guardado em algum lugar genérico, mais ou menos o que você fez com o logaritmo, que no máximo está na gaveta matemática perdido em algum lugar. E olha que logaritmo já ocupou algumas gavetas do tipo prova de matemática ou a gaveta vestibular. E quantas coisas não tinham gavetas e se perderam.

Para deixar mais claro, vou falar sobre algo que você não tem nenhum lugar para armazenar. Vou falar da guarda de la riva. Com a guarda de la riva você tem um controle muito bom do seu adversário, gerenciando bem a distância e possibilitando muitas oportunidades de raspá-lo. Entendeu? Quantos diálogos nesse formato uma criança presencia por dia? Diálogos que não se escoram em nada no repertório dela. Se eu te perguntar amanhã sobre guarda de la riva, há grandes chances de você dizer que nunca ouviu falar. Porque o que não tem correlação com o repertório, um lugar para ser amarrado, se perde. Esta é a realidade das crianças. Sob essa ótica elas têm muito menos facilidade de aprender que um adulto. E mesmo adultos têm diferenças de possibilidades de aprendizado em função de mais ou menos repertório também.

E antes que você se revolte, obviamente eu sei que aprendizagem tem muito mais variáveis que ter ou não repertório ou gavetas, mas apenas quero olhar para a frase “crianças têm mais facilidade em aprender”. Se ela for verdadeira, significa que dado qualquer assunto ou tema e se eu colocar uma criança e um adulto e der o mesmo tempo de aprendizado, uma criança terá mais êxito. Não importa o tema. Então, se vou ensinar física quântica ou salto com vara, para essa frase ser verdadeira em ambos os casos e em todos os outros, ao menos na maioria das vezes as crianças teriam que ter um resultado melhor. Mas claramente isso não é verdade.

Porém, o fato é que crianças aprendem muito. Aprendem diversas coisas todos os dias. E se você está dizendo que não tem facilidade em aprender, por que elas aprendem tanto? Aqui existem dois pontos. Um é o impacto de cada aprendizado. Por ter menos repertório, cada aprendizado em uma criança representa muitos ganhos e muita autonomia. Vamos dar um exemplo simples. Eu tenho “100 conhecimentos” e uma criança tem um. Se nós dois aprendemos um eu melhoro o meu conhecimento geral em 1% já a criança, em 100%. Ela dobra seu conhecimento. E isso dá uma impressão de que ela aprendeu mais.

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Outra coisa é que a maioria dos aprendizados dela é básica e muitas vezes relacionada à comunicação e área motora, o que impacta na mesma hora na vida dela. Por exemplo, ao aprender a andar fica muito clara a diferença entre não andar e andar. Muda completamente a vida dela e de todos à sua volta. Ao aprender algumas palavras novas, ela se comunica muito melhor. Agora se nesse mesmo tempo você aprende fórmulas novas no Excel e algumas palavras novas em francês, talvez ninguém note. Então isso chama atenção e, de novo, nos traz a impressão de que elas aprendem com mais facilidade.

Pode parecer que eu esteja defendendo os adultos aqui. Dizem que criança aprende com mais facilidade, mas a verdade é que são os adultos, eles são melhores e tal. Mas o que quero dizer é exatamente o oposto. O que aprendi com as crianças. O segundo ponto que nos faz ter a percepção que elas têm facilidade em aprender é que, de verdade, elas aprendem muito, mas não por facilidade, e sim por uma dedicação e resiliência que nenhum adulto chega nem perto.

O que quero aqui é justamente valorizar as crianças. Ao afirmar que elas têm facilidade, desvalorizo o que elas têm de melhor. O esforço, a dedicação, o empenho, o foco e a persistência. Eu pude acompanhar minha filha aprendendo a andar. Levou um mês e nesse período ela caiu milhares de vezes. E toda vez que ela caiu, ela levantou e tentou de novo. E de novo, e de novo. E a cada pequena vitória, um sorriso imenso. Uma satisfação de quem conseguiu dois passos em sequência. Ainda está longe do seu objetivo final, porém foi um pequeno avanço. E ela sabe que para chegar ao final precisa desse avanço. Isso se repetiu quando aprendeu a pular, a assobiar, a estalar o dedo e quando deixou de falar “elão” para falar leão.

Confesso que esse foi o aprendizado que eu preferia que demorasse um pouco mais. O fato é que ela só para de tentar quando consegue. E agora eu te pergunto: Quantas coisas na sua vida recentemente você tentou e falhou ao menos umas 100 vezes e não desistiu? Quantas vezes você não conseguiu fazer algo e pensou que aquilo não é para você? Não nasci para jogar tênis. Sou uma porcaria fazendo bolo. Esse negócio de finanças ou política não é para mim. Meus bolos são uma tragédia, já tentei e desisti porque queimo todos.

Você está sendo adulto, porque se fosse criança esses pensamentos não passariam na sua cabeça. O adulto tem uma tendência a fugir do erro como se isso o desvalorizasse e isso torna o processo de aprendizagem muito complicado, porque como podemos aprender sem errar? As crianças, por outro lado, vivem errando e por isso estão acostumadas a falhar. Fazem xixi na cama, derrubam a comida do garfo, caem toda hora. Elas não têm resistência ao erro, com isso desenvolvem a percepção da tarefa que querem aprender e aliam à prática e à correção de uma forma natural. Aprender passa a ser natural em todas as etapas. Do erro ao acerto, sem julgamento de valor, de caráter e de capacidade durante esse processo.

 Por isso que ao dizer que as crianças não têm facilidade em aprender não estou desvalorizando, e sim valorizando e, principalmente, aprendendo com elas algo que pode me ser muito útil, assim como para você também. Porque veja, se eu acho que uma criança aprende com mais facilidade e eu não sou mais criança, eu sempre posso dizer que não sou mais criança, por isso não aprendo ou que para mim é muito mais difícil. E isso não me permite fazer nada para melhorar meus processos de aprendizagem. No entanto, quando observo que não, elas não têm mais facilidade que eu para aprender, mas muitas vezes aprendem mais que eu, posso estudar como isso acontece. Ao perceber que é porque elas não julgam, não temem o erro e persistem até conseguir, tudo isso está acessível a mim. Posso aprender com elas a ser um melhor “aprendedor”, me espelhar e me inspirar nelas. Colocar em prática esse aprendizado. E elimino a desculpa de que estou velho para aprender algo. Com menos desculpas talvez eu produza muito mais.

Paralelo a esse aprendizado tem um outro que me chama a atenção. Criança está sempre no presente. Elas têm presença plena. Elas fazem tudo de corpo e alma.  Veja uma criança brincando. Ela nunca brinca pela metade. Ela não racionaliza nada, ela se entrega à brincadeira. O mundo dela é só a brincadeira. O mesmo vale para a pintura, a soneca, o tetê. E isso produz leveza e, por que não, aprendizado? Mais uma vez te pergunto, quando foi a última vez que você fez algo com presença plena? Quando foi que você fez algo sem julgar, sem se distrair, se entregou de verdade? Por isso que eu digo, dizer que crianças têm facilidade em aprender, além de não me ajudar em nada, é uma baita sacanagem com elas.

 Agora tem uma coisa que eu posso dizer. Crianças não têm nenhuma facilidade em aprender, mas tem um talento absurdo em ensinar. Sim, se criança tem alguma facilidade em algo no contexto de aprendizagem é em ensinar. Nós é que desaprendemos a aprender. Prova disso é que falei sobre isso no começo do texto, mas só agora te chamou atenção. Que crianças ensinam. E não enquanto aprendem, mas enquanto vivem. Crianças ensinam sendo, não dando aulas ou lições de moral. Elas são ótimas professoras. Talvez não tenhamos essa percepção porque estamos distraídos, sejam em nossos pensamentos no passado ou no futuro, ou no mundo virtual, em nossos celulares, quando a vida e o aprendizado está aqui. No mundo real. Onde elas estão nos ensinando através do amor e da vida. E como sempre, com muita resiliência te lembrando que a vida está aqui quando insistentemente te chamam para ela. “Papai olha isso, olha aquilo, o que é isso?” Você tem tudo isso dentro de você. Porque você já foi criança. E essa criança ainda vive aí. É só convidá-la ao que ela faz de melhor. Ensinar.

Minha pequena Amora. Obrigado por tantos ensinamentos e me desculpe quando achei que minha tarefa era ensinar. Eu ainda estou aprendendo.

Forte abraço,

Samorai

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