Samorai: o educador físico é o novo colunista da BOA FORMA Treino 3D - Corpo, Mente e Espírito, com Samorai Bacharel em esporte, Samorai (@samorai3d) é criador do método de treinamento 3dimensional para reabilitação, prevenção e tratamento de lesões e performance. Aqui, auxilia praticantes e treinadores na busca por harmonia.

O dia que descobri que existia um ser humano

Por Samorai 7 dez 2021, 22h04

Eu? Eu sou babá de adulto. Era sim que eu me definia quando me perguntavam o que eu fazia profissionalmente. Eu realmente me sentia assim. Eu era um personal trainer e detestava minha profissão. Me sentia desvalorizado, descartável, supérfluo e principalmente considerado limitado intelectualmente, bem ao estilo “Paulo Cintura”. Outra coisa que pegava também era o fato de que naquela época, e estou falando no final do milênio passado e começo deste, personal era um serviço de gente muito rica, com o intuito de melhorar a estética e massagear o ego. Enfim, eu não era feliz. Uma das coisas que sempre digo é que tudo é um caminho de evolução, mas desde que você tenha presença plena e dedicação. Mas essas são características do amor. Então eu só pensava em mudar. De academia, de aluno, de chefe, de cargo, de profissão, pois, ao contrário do estigma do personal, eu sempre gostei de estudar. Sempre fui atrás de me desenvolver intelectualmente e cada dia me preparava mais, porém era extremamente desanimador saber que, nessa área, não importava o quanto você sabia sobre algo, para ter mais cliente valia muito mais a pena ser amigo do coordenador do que dos livros. Sem contar que o modelo de treinamento vigente naquele momento, pensando principalmente em estética e nada funcional, simplificando o corpo a meia dúzia de músculos e um plano de movimento, de uma maneira simplória e, hoje eu sei, equivocada, não tinha muito o que estudar. Os métodos eram basicamente os mesmos em toda parte do mundo e aplicado da mesma forma a qualquer pessoa, desprezando objetivos delas e a singularidade.

Um dia decidi que mudaria de área. Embora parecesse uma decisão fácil, não foi, porque mesmo não gostando eu ganhava bem. Como eu jogava handebol em clubes, consegui uma bolsa de estudos e me matriculei em direito. Fiz um ano e estava amando. Porém, um contratempo na vida pessoal me obrigou a trancar a faculdade ao final do primeiro ano e voltar a dar aulas no período em que eu estudava. Pouco tempo depois comecei a gerenciar uma academia tradicional da cidade. Estando agora na parte administrativa briguei por melhores condições de trabalho para os professores, para valoriza-los e paga-los como profissionais formados, e em contrapartida valoriza-los por estudarem e se qualificarem. Mas meu chefe colocou água no meu chope, dizendo que a conta não fecharia e que era melhor para os negócios comprar uma esteira nova que gastar esse dinheiro com professores. Que os alunos não ligam para professores, mas sim para vestiários modernos e equipamentos novos. Para finalizar me disse que o dia que eu tivesse minha própria academia eu veria que a conta não fecha. Tudo isso me fez lembrar mais uma vez o quanto eu detestava tudo aquilo. Novamente a vida me trazia para cá, e eu, infeliz, não entendia porque.

Um dia um professor da minha equipe me trouxe um livro que falava sobre kettlebell. O ano é 2006. Ano de fundação do YouTube. O livro se chamava “Power to the people” escrito por Pavel Tsatsouline e ensinava a treinar com ketllebells. Num primeiro momento achei aquela bola de ferro meio estranha, nem apostava muito nisso. Mas eu já estava a dez anos na área e há muito tempo não via nada realmente novo. Isso por si só já era empolgante. Estudamos muito e tentamos aprender os movimentos naquele livro. Compramos um kettlebell muito ruim, que tenho até hoje, do único fornecedor que tinha um pra vender naquela época e achava que aquilo funcionava igual musculação. Como não havia YouTube e nem smartphones não tínhamos nenhum vídeo para entender o que era aquele tal de swing, movimento que não tinha nada similar na musculação, nossa referência. Era muito difícil compreender aquele movimento descrito em um livro em inglês, escrito por um russo radicado nos Estados Unidos, que falava cheio de gíria, falando sobre algo que não fazíamos ideia do que tratava, usando termos que desconhecíamos e até sobre vodca ele dissertava. A gente achou que tinha entendido e começamos a treinar. E mesmo fazendo tudo errado eu percebi que eu ficava mais forte e melhorei muito meu rendimento no handebol. E a parte mais legal, pela primeira na minha vida eu era valorizado profissionalmente por um conhecimento. Muitas pessoas me perguntavam e comecei a dar aula disso. Foi um sucesso. Mas eu não podia imaginar o quanto a minha vida iria mudar.

Com o desenvolvimento da internet e das redes sociais, comecei a acompanhar mais o Pavel e descobri que ele tinha um curso de formação que se chamava “RKC – Russian Kettlebell Certification”. O ano agora era 2010 e descobri que teria uma edição deste curso em San Diego, na Califórnia em agosto. Fui ver o preço e entre passagem, hospedagem e o próprio curso, o valor era mais do que eu tinha, mas eu acreditava tanto que era importante ter essa formação, que fiz um monte de parcelamento e embarquei para um sonho. Cheguei lá e foi superbacana. O curso tinha mais de 250 pessoas, acontecia em um campo de futebol americano e tinha pessoas de vários lugares dos Estados Unidos e até de alguns lugares mundo afora. E o mais legal, eu era o primeiro brasileiro a cruzar o continente para fazer aquela certificação. Algo que ouvi do próprio Pavel.

Eu estava empolgado. Entretanto tinha uma coisa que eu não sabia. O curso não era para iniciantes. Tinha ate prova física para ingressar. No primeiro dia tivemos alguns testes físicos pela manhã que se eu não passasse não poderia realizar o curso. Como eu era atleta eu passei. Mas isso já era um bom indicativo do que me esperava os próximos três dias. Era um treinamento militar. Das 9 da manhã até as 7 da noite jogando chaleiras para cima no sol de mais de 40 graus do verão seco californiano. A maioria daquelas pessoas tinha muita experiência nisso e eu tinha aprendido num livro. Ao final do primeiro dia eu não conseguia ficar ereto de pé. Aliás, fiquei curvado por três semanas depois desse dia. Como minha técnica ainda era ruim, eu concentrava carga em lugares errados, estourei toda minha mão, e ainda que tenha aprendido muita coisa, as dores me limitavam a fazer alguns movimentos e isso ia me frustrando muito, porque fui para lá gastando um dinheiro que eu não tinha, então queria aproveitar essa experiência ao extremo.

Tentei me adaptar, criar novas estratégias, superar a dor, ajustar os movimentos, blindar a cabeça. De fato, aprendi muito, mas não valorizei isso porque a frustração era muito maior. Algumas vezes eu conseguia e em outras falhava e não terminava o que era proposto. Até que chega o último dia e muitas tarefas pela frente. E então a ultima prova. Esta consistia em carregar um kettlebell de 24 kgs numa mão e um de 16kgs em outra. Ir para uma das extremidades do campo de futebol americano, fazer 10 agachamento, 10 desenvolvimento de ombros e 20 swings com os dois kettlebells e então dar 3 passos. Feito isso começava tudo de novo. Eventualmente os torturadores, ops, os professores paravam todos e pediam exercícios adicionais como 10 burpees, 15 duplo snatches e mais alguns castigos. Se você não é familiarizado com esses nomes, pense no pior exercício que você já fez e multiplica por dez. Dá mais ou menos a ideia do que se tratava. Concluída essas pausas e continuávamos com os agachamentos, desenvolvimentos e swings, além dos 3 passos.

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Um campo de futebol americano não termina nunca se você só caminhar. Nesse esquema era uma viagem ao infinito. Vinte minutos depois alguns trogloditas já tinham acabado e a maioria dos mortais, literalmente morrendo, se arrastava para conseguir chegar na metade. Eu estava nessa turma. Com muita dor, criando estratégias para terminar. Eu não me permitia não terminar. Eu estava invejando aqueles caras que já tinham terminado quando algo começou a acontecer. Aqueles caras, percebendo que muitos estavam prestes a desistir, pegaram seus kettlebells e voltaram para o campo, vieram junto de nós e começaram a fazer exercícios conosco e gritavam palavras de incentivo o tempo todo. Isso fez toda diferença e foi fundamental para que conseguíssemos terminar. Me lembro até agora a sensação dos últimos swings. E com eles o final do curso.

Após isso pegamos nossos diplomas e, mesmo com meu papel na mão, estava decepcionado. Mas esse curso tem uma coisa legal. Eles dão feedback individual para cada aluno. Esperei ali um pouco até que minha professora, Yoanna Téran, me convidou a entrar na salinha. Vendo meu semblante ela começou falando que estava muito orgulhosa de mim, que eu era a pessoa que mais tinha evoluído em três dias daquele curso. Expliquei para ela que isso não era nenhum mérito, mas que a questão é que eu nunca tinha tido aula de kettlebell e que o pouco que eu sabia eu havia aprendido em um livro, sem ter muita ideia de como eram aqueles movimentos, então a minha evolução se tratava menos de um talento e mais de uma informação mais precisa e uma observação mais acurada do que eu realmente precisava fazer, afinal, aprender movimento jamais visto em um livro, há de se convir, não é uma tarefa das mais fáceis. Ouvindo isso ela se espantou. “Como assim você nunca tinha feito isso antes? Agora sim que você devia estar orgulhoso e feliz.” Então expliquei para ela que eu estava chateado porque não fiz alguns exercícios, não terminei adequadamente algumas provas e que eu tinha depositado todas as minhas fichas nesse curso e não dei conta. Foi quando ouvi a explicação mais incrível que tinha ouvido até então na minha, tão por mim desprezada área. Ela me disse: “E quem falou que era pra fazer tudo?” Obviamente isso não me fez nenhum sentido e retruquei. Claro que era, se está ali é pra fazer. No que ela rebateu. “O curso é feito para que em algum momento você falhe.”

Agora aquilo fazia menos sentido ainda. Oi! Como assim, o curso é feito para eu falhar? E então ela me explicou: “Sim, para você se transformar em um professor melhor. Deixa eu te explicar. Lá no Brasil você dá treinamento físico, não?” Respondi que sim. “Provavelmente você tem facilidade com movimento. Você aprende fácil, nunca é o ultimo a ser escolhido no time de futebol, faz tudo com execução perfeita. Nunca nenhum exercício ou movimento foi desafiador para você e nunca você deixou de fazer algo porque não conseguiu, certo?” O que concordei com a cabeça e ela continuou. “Entretanto, a maioria dos seus clientes não é assim. Eles têm dificuldade, medos, traumas, dores e fogem dos treinamentos porque não se sentem acolhidos, respeitados e compreendidos nas dificuldades deles. E você jamais iria compreender isso se não vivenciasse isso. Jamais teria empatia se não precisasse da empatia do outro para completar uma tarefa. Jamais saberia o que é tentar diversas estratégias e nenhuma dar certo porque seu corpo não responde do jeito que você gostaria. Esse curso não é só para ensinar sobre kettlebell, é pra formar seres humanos que precisam entender que vão trabalhar com outros seres humanos sem julga-los, mas acolhendo-os.”

Fiquei em choque. Tudo isso fazia muito sentido, mas o que mais me impressionava era que eu já estava há 15 anos na área, trabalhei nas maiores academias de São Paulo, estudei na USP e era a primeira vez na minha vida que alguém me falava que tinha um ser humano na minha frente. Que eu precisava me conectar e entender. Acolher e facilitar. Até então eu só existia bíceps, tríceps, abdômen, peito, glúteo, costas, pernas. Só sabia que treinamento tinha que ser um preço duro, como um xarope amargo, que você tem que tomar para ficar sarado. Nunca ninguém me disse que o diferencial desta área é trabalhar com seres humanos e que pra isso, como diria o Jung, eu tinha que ser apenas um. Fiquei maravilhado. Não via a hora de voltar ao Brasil e amar essa área pela primeira vez na vida. Descobri porque detestava o que eu fazia. Isso acontecia porque não colocava o ser humano na equação. Não entendia quanta transformação poderia vir a partir dali. Que eu não seria mais um passador de exercícios, mas um transformador de vidas através do movimento. Voltei ao Brasil cheio de sonhos, e percebi que as academias do modelo malhação na estavam e continuam não estando, interessadas no ser humano.

Nada do que tentei implantar foi aceito. Foi aí que entendi que era hora de trilhar meu próprio caminho. Montei meu próprio negócio que deu muito certo e se estou escrevendo aqui hoje é porque para cada pessoa que gosta de ser tratado como um número, ou um glúteo numa academia tradicional tem outras 99 que preferem ser tratadas como ser humano. Pessoas que buscam uma atividade que seja saudável e agradável e não algo que precisa ser chamado de malhação. No final, a solução sempre esteve dentro de mim e também ao mesmo tempo na minha frente. A solução sempre foi o ser humano. Aquela academia que eu trabalhei, cujo chefe disse que a conta de valorizar o ser humano não fecharia, hoje está fechada. O treinamento 3Dimensional que criei a partir disso está e franco crescimento. Nunca esteve tão grande. E sim, caro ex-chefe. A conta fecha.

Forte abraço

Samorai

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