Por que algumas pessoas têm mais dificuldade para fazer certos movimentos?
Nem sempre a dificuldade para alcançar determinada posição significa simplesmente falta de alongamento
Tem gente que se agacha até quase encostar no chão sem pensar duas vezes. Outra pessoa tenta fazer o mesmo movimento e, antes de chegar perto, já sente o quadril ou o tornozelo impedindo a descida. Na hora de tocar os pés com as mãos, abrir as pernas ou movimentar os ombros, as diferenças também aparecem.
É fácil resumir tudo isso dizendo que uma pessoa é mais flexível e outra é “dura”. Só que a amplitude de um movimento não depende apenas do quanto um músculo consegue alongar. Anatomia, sistema nervoso, força, controle e até os movimentos que fazem parte da rotina entram nessa conta.
Nem todo corpo consegue chegar à mesma posição
O primeiro motivo está na própria estrutura corporal. O formato dos ossos e das articulações varia de uma pessoa para outra e pode favorecer ou limitar determinadas amplitudes.
Isso é especialmente importante no quadril. Variações na orientação do acetábulo, região da pelve onde o fêmur se encaixa, e na própria anatomia do fêmur podem modificar quanto essa articulação consegue flexionar ou girar.
Uma revisão publicada no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy mostra como diferenças estruturais do quadril podem alterar sua mecânica e influenciar os movimentos dos membros inferiores.
Por isso, duas pessoas podem executar um agachamento de formas diferentes sem que uma delas esteja necessariamente “menos alongada”. Em alguns casos, tentar copiar exatamente a amplitude de outra pessoa simplesmente não combina com a anatomia daquele corpo.
Mas nem toda sensação de rigidez vem dos ossos
Se a estrutura não explica tudo, entra outro componente menos óbvio. O sistema nervoso também participa de quanto movimento o corpo permite naquele momento.
Uma revisão publicada em 2010 no Physical Therapy in Sport, analisou os mecanismos envolvidos no aumento da flexibilidade. Os autores mostram que parte dos ganhos observados após programas de alongamento pode estar relacionada ao aumento da tolerância à sensação de alongar, e não necessariamente a um músculo que ficou fisicamente mais comprido.
É uma das razões pelas quais flexibilidade não pode ser resumida a músculos “curtos” ou “longos”.
A rotina também ensina o corpo a se movimentar
Passar grande parte do dia utilizando poucas amplitudes significa, naturalmente, ter menos contato com outras posições.
Um estudo publicado na Frontiers in Sports and Active Living avaliou o que acontecia após 4,5 horas contínuas sentado e identificou alterações agudas nas propriedades mecânicas de músculos do tronco e do quadril.
Isso não quer dizer que algumas horas na cadeira “encurtem” definitivamente os músculos ou deixem a fáscia colada. Mas ajuda a entender por que permanecer muito tempo na mesma posição pode contribuir para uma sensação temporária de rigidez.
Às vezes, não falta flexibilidade, falta controle
Existe ainda uma diferença importante entre conseguir chegar a uma posição passivamente e conseguir produzir e controlar aquele mesmo movimento sozinho.
É aí que força e coordenação entram na história. Inclusive, alongamento não é a única maneira de ganhar amplitude. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2023 na Sports Medicine encontrou que o treinamento de força também pode melhorar a amplitude de movimento, apresentando resultados semelhantes aos do alongamento em algumas comparações.
Antes de concluir que um corpo é simplesmente “duro”, portanto, é preciso entender o que está por trás daquela limitação. Às vezes é tolerância ao alongamento, às vezes é controle, às vezes é hábito e, em determinados movimentos, a própria anatomia estabelece até onde faz sentido chegar.





