Composto presente em mirtilos e uvas ajuda células musculares a queimar gordura, mostra estudo
Descoberta científica aponta pterostilbeno, composto de frutas, no manejo de gordura intramuscular. Um novo olhar sobre o metabolismo
Um composto natural encontrado em pequenas quantidades em alimentos como mirtilos e uvas, mas que pode ser suplementado, pode ajudar as células musculares a lidar com o excesso de gordura. É o que aponta um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Shinshu, no Japão, publicado na revista Food Bioscience.
A pesquisa identificou que o pterostilbeno, um polifenol estruturalmente relacionado ao resveratrol, reduziu o acúmulo de lipídios em células musculares cultivadas e aumentou a expressão de genes relacionados à oxidação de ácidos graxos.
“O diferencial do trabalho está no mecanismo observado. Em vez de simplesmente aumentar a entrada ou impedir a entrada de gordura nas células, o pterostilbeno parece favorecer a utilização dos lipídios que já estão armazenados dentro delas. Os pesquisadores observaram maior liberação de glicerol, um marcador compatível com a quebra de gordura, além do aumento da expressão de genes envolvidos na oxidação de ácidos graxos”, explica o farmacêutico Dr. Maurizio Pupo, pesquisador, professor e diretor científico do IPUPO Pós-Graduações.
Por que a gordura dentro do músculo merece atenção
De acordo com o farmacêutico, é normal a associação entre gordura corporal e tecido adiposo, mas o músculo esquelético é um dos principais tecidos envolvidos na utilização de ácidos graxos e glicose.
“O que esse estudo sugere é que um composto de origem alimentar pode interferir nesse metabolismo dentro da própria célula muscular, favorecendo a mobilização e a oxidação dos lipídios armazenados”, explica.
O acúmulo de pequenas gotículas de gordura dentro das células musculares, conhecido como lipid accumulation intramuscular ou miosteatose, tem despertado interesse científico por sua relação com alterações metabólicas.
“O acúmulo de lipídios no músculo pode estar associado à redução da capacidade de utilização adequada de nutrientes e à resistência à insulina, especialmente em contextos como envelhecimento, excesso de peso e sedentarismo”, diz Pupo.
O problema é relevante também no Brasil. Dados do Ministério da Saúde mostram que 61,4% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal apresentavam excesso de peso em 2023, enquanto a prevalência de obesidade chegou a 24,3%, mais que o dobro dos 11,8% registrados em 2006.
“Esses números ajudam a entender por que mecanismos relacionados ao metabolismo de gordura são tão estudados. Mas é importante não fazer uma extrapolação direta: o estudo não demonstrou que consumir mirtilos ou uvas, ou mesmo suplementar pterostilbeno, seja capaz de reduzir a gordura muscular em pessoas. O que temos aqui é uma evidência mecanística bastante interessante obtida em células”, ressalta o Dr. Maurizio.
“Mas sabemos que, com relação aos desfechos, o consumo de frutas vermelhas e roxas apresenta um excelente teor de antioxidantes que têm efeito cardioprotetor. Então, é interessante introduzir alimentos como mirtilos e uvas na dieta, ou suplementar seus compostos”, acrescenta.
Como o composto atua e o que vem pela frente
Na investigação, os cientistas observaram que o pterostilbeno aumentou a atividade de uma proteína chamada PPARδ, um regulador da expressão de genes relacionados ao metabolismo dos lipídios e à oxidação de ácidos graxos. O resultado mais interessante, entretanto, foi a maneira como isso ocorreu.
“Segundo os pesquisadores, o pterostilbeno não parece atuar simplesmente como um ativador direto do PPARδ. É como se o composto não estivesse necessariamente ‘apertando o acelerador’ diretamente, mas ajudando a manter disponível uma proteína que participa do controle desse metabolismo. Essa diferença é importante do ponto de vista farmacológico porque mostra uma forma de modulação que não depende da ativação direta do receptor”, explica o farmacêutico.
Os experimentos também mostraram que o pterostilbeno não reduziu o acúmulo de lipídios simplesmente diminuindo a entrada de ácidos graxos nas células.
“Os pesquisadores encontraram evidências de que o composto aumentou a mobilização dos lipídios armazenados e a atividade de genes relacionados à oxidação dessas moléculas”, comenta.
O estudo, portanto, abre uma linha de investigação sobre o uso de compostos alimentares capazes de modular proteínas envolvidas no metabolismo energético.
“É um resultado interessante não porque tenhamos descoberto uma nova solução para emagrecimento, mas porque identificamos um mecanismo biológico que pode ser explorado em pesquisas futuras. O próximo passo é descobrir se essa modulação permanece quando saímos da placa de laboratório e passamos para organismos vivos”, conclui o farmacêutico.
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