Proteína demais pode atrapalhar a longevidade? O que a ciência já descobriu

Entenda como o consumo ideal de proteína se adapta à sua idade, garantindo mais saúde e longevidade, principalmente após os 65 anos.

Por Redação Boa Forma Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 ago 2026, 20h00
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A proteína virou queridinha de quem treina e quer envelhecer bem, mas pesquisas mostram que a quantidade ideal pode mudar conforme a idade, e que, depois dos 65 anos, garantir proteína suficiente ganha ainda mais importância.

Se existe um nutriente que virou protagonista das dietas nos últimos anos, é a proteína. Ela está no prato de quem quer ganhar massa muscular, aparece nos shakes de whey, virou destaque nos produtos “high protein” e é frequentemente associada a emagrecimento, músculos e envelhecimento saudável.

Mas será que quanto mais proteína, melhor?

A resposta pode não ser tão simples.

Pesquisas sobre longevidade vêm mostrando que a relação entre consumo de proteína e saúde pode mudar de acordo com a fase da vida. E um dos estudos que mais chamou atenção nessa área encontrou um resultado que parece contraditório: entre pessoas de meia-idade, uma maior ingestão de proteína foi associada a maior mortalidade, enquanto entre os mais velhos a associação se inverteu.

“Isso não significa que as pessoas devam simplesmente cortar a proteína da alimentação. O que os estudos mostram é que precisamos olhar para a quantidade adequada para cada fase da vida”, explica o nutricionista Lucas Moraro.

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O que a proteína tem a ver com longevidade?

A proteína é essencial para o organismo. Ela fornece os aminoácidos utilizados na construção e manutenção dos músculos, além de participar de diversas funções do corpo.

Ao consumir proteína, também ativamos mecanismos envolvidos no crescimento e na produção de proteínas pelo organismo. Um deles é a chamada via mTOR, que participa do crescimento e da renovação dos tecidos.

Outro mecanismo estudado é o IGF-1, relacionado ao crescimento e ao metabolismo.

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A questão é que os pesquisadores vêm tentando entender se estimular essas vias constantemente, especialmente por meio de uma ingestão muito elevada de proteína, pode ter alguma relação com processos envolvidos no envelhecimento.

É daí que surgiu parte do interesse científico pela chamada restrição proteica. Mas atenção: isso não significa que uma dieta pobre em proteína seja uma estratégia comprovada para aumentar a expectativa de vida.

O estudo que mudou a conversa

Em 2014, um estudo publicado na revista Cell Metabolism analisou a relação entre consumo de proteína, IGF-1 e mortalidade. O resultado chamou atenção porque a idade pareceu fazer toda a diferença.

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Entre os participantes de 50 a 65 anos, uma maior ingestão de proteína foi associada a maior mortalidade geral e por câncer. Mas o resultado foi diferente entre os participantes com mais de 65 anos: nessa faixa etária, uma maior ingestão de proteína esteve associada a menor mortalidade.

“É justamente aí que está o paradoxo. Não podemos pegar um resultado observado na meia-idade e aplicá-lo automaticamente a uma pessoa idosa”, explica Lucas.

E existe uma ressalva importante: o estudo encontrou associações, mas isso não significa que ele tenha provado que comer mais proteína causa maior mortalidade ou que comer menos proteína faça alguém viver mais.

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Então proteína pode ser boa ou ruim?

Nem uma coisa, nem outra de forma absoluta. A proteína é um nutriente essencial. A questão está na quantidade, na idade, na condição de saúde, no nível de atividade física e também na qualidade da alimentação.

Outro estudo, publicado em 2008, mostrou que reduzir a ingestão de proteína de aproximadamente 1,67 g/kg para 0,95 g/kg de peso corporal por dia levou a uma redução significativa dos níveis de IGF-1 nos participantes.

Esse tipo de resultado ajuda os pesquisadores a entender possíveis mecanismos relacionados à restrição proteica e envelhecimento. Mas novamente: reduzir um marcador no organismo não significa automaticamente viver mais. É justamente por isso que o tema continua sendo estudado.

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Uma revisão publicada em 2025 na Annual Review of Nutrition analisou as evidências disponíveis sobre dietas com restrição de proteína, saúde metabólica e envelhecimento, mostrando que a área continua em investigação.

E depois dos 65 anos?

Aqui a história muda bastante. Com o envelhecimento, nosso organismo passa a ter mais dificuldade para responder aos estímulos responsáveis pela construção e manutenção da massa muscular.

Isso contribui para a perda progressiva de músculos e força que pode acontecer com a idade. E perder músculo não significa apenas mudar a aparência do corpo. Pode significar ter mais dificuldade para levantar de uma cadeira, subir escadas, carregar compras, caminhar ou manter a independência.

Por isso, especialistas em nutrição e envelhecimento recomendam uma ingestão adequada de proteína para pessoas mais velhas. O grupo PROT-AGE recomenda, em geral, pelo menos 1,0 a 1,2 g de proteína por quilo de peso corporal por dia para idosos saudáveis.

As recomendações da ESPEN também trabalham com essa faixa e indicam que alguns idosos com doença, desnutrição ou risco de desnutrição podem precisar de 1,2 a 1,5 g/kg/dia.

Ou seja: para uma pessoa idosa, 1,0–1,2 g/kg não significa necessariamente “comer muita proteína”. Pode representar justamente uma quantidade adequada para ajudar a preservar músculos e funcionalidade.

E o whey? Quanto mais, melhor?

É aqui que a discussão fica especialmente interessante para quem treina. O fato de a proteína ser importante para os músculos não significa que seja necessário consumir quantidades enormes.

O objetivo não é transformar toda refeição em uma corrida para atingir o máximo possível de proteína. Para algumas pessoas, o whey pode ser uma maneira prática de complementar a alimentação. Para outras, a necessidade pode ser facilmente alcançada por meio dos alimentos.

A quantidade adequada depende da pessoa e do contexto. “Não existe uma quantidade de proteína que seja ideal para todo mundo. Uma pessoa jovem e sedentária não tem necessariamente a mesma necessidade de uma pessoa idosa que pratica musculação ou de alguém que está se recuperando de uma doença”, explica Lucas.

E a fonte da proteína importa?

Sim. Não é apenas uma questão de contar gramas.

Estudos também analisaram a relação entre proteínas de origem vegetal e animal e diferentes desfechos de saúde. Uma pesquisa publicada no JAMA Internal Medicine encontrou associações diferentes entre o consumo de proteínas animais e vegetais e mortalidade, reforçando que a origem da proteína também merece atenção.

Isso não significa que proteína animal seja “ruim” ou que toda proteína vegetal seja automaticamente melhor. Significa que a alimentação precisa ser analisada como um todo.

Feijão, lentilha, grão-de-bico, soja, castanhas e outros alimentos vegetais podem contribuir para o consumo de proteína e ainda fornecer fibras e outros nutrientes importantes.

Afinal, devemos comer menos proteína para viver mais?

Não é essa a conclusão. A ciência ainda não permite transformar os estudos sobre restrição proteica em uma recomendação geral para que as pessoas reduzam drasticamente o consumo de proteína.

O que as pesquisas mostram é algo muito mais interessante: a necessidade e os efeitos do consumo de proteína podem mudar ao longo da vida.

Na meia-idade, talvez não seja necessário perseguir uma alimentação extremamente rica em proteína apenas porque o nutriente virou uma tendência.

Depois dos 65 anos, garantir proteína suficiente pode se tornar ainda mais importante para preservar massa muscular, força e autonomia.

Por isso, em vez de perguntar simplesmente se devemos comer “muita” ou “pouca” proteína, talvez a pergunta mais importante seja: “Qual é a quantidade adequada para mim, na minha idade, considerando meu nível de atividade física e minha condição de saúde?”.

“Quando falamos de longevidade, não queremos apenas viver mais anos. Queremos viver mais anos com força, mobilidade e independência”, resume Lucas Moraro.

E talvez esse seja o verdadeiro ponto da discussão sobre proteína: não existe uma fórmula única para todas as idades.

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Qualidade ou quantidade de proteína? O que é mais importante?

 

 

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