O que é salutarismo e como isso pode interferir na saúde mental?
Conceito criado nos anos 1980 ajuda a explicar como a busca obsessiva pela saúde perfeita pode gerar culpa, ansiedade e sofrimento emocional
Nunca houve tanta informação sobre saúde disponível. Aplicativos contam passos, relógios monitoram sono, redes sociais mostram rotinas de treino e influenciadores compartilham diariamente o que comem, quanto se exercitam e quais hábitos seguem para viver melhor.
Mas existe um ponto em que a busca por saúde deixa de ser saudável, e esse fenômeno recebe o nome de salutarismo. O conceito foi criado pelo cientista político Robert Crawford em 1980 para descrever a tendência de transformar a saúde em uma responsabilidade exclusivamente individual.
Na prática, a ideia sugere que basta fazer as escolhas certas para permanecer saudável, ignorando fatores como genética, renda, ambiente, acesso à saúde e condições de vida.
Quando a saúde vira uma questão moral
Segundo Crawford, um dos principais problemas do salutarismo é que ele cria uma espécie de “moralidade da saúde”. Nessa lógica, pessoas que seguem determinados hábitos passam a ser vistas como disciplinadas, responsáveis e bem-sucedidas. Já quem adoece, vive em um corpo fora do padrão ou não consegue manter uma rotina considerada ideal pode ser julgado como desleixado ou pouco esforçado.
Pesquisadores que estudam o tema apontam que essa visão costuma gerar sentimentos de culpa, inadequação e baixa autoestima. Afinal, se a saúde depende apenas das escolhas individuais, qualquer dificuldade pode ser interpretada como uma falha pessoal.
A busca pela saúde perfeita pode gerar ansiedade
Outro efeito observado pelos especialistas é a ansiedade provocada pela tentativa constante de atingir um ideal de bem-estar. A necessidade de monitorar alimentação, exercícios, sono e produtividade cria uma sensação permanente de vigilância. Em vez de melhorar a qualidade de vida, o autocuidado passa a funcionar como uma fonte de cobrança.
Em muitos casos, essa pressão faz com que a pessoa sinta que nunca está fazendo o suficiente, mesmo quando já mantém hábitos considerados saudáveis.
O risco da ortorexia
Entre os impactos mais estudados está a relação entre o salutarismo e a ortorexia nervosa. Pesquisas da USP revisadas por especialistas em psicologia da saúde mostram que a preocupação excessiva com alimentação saudável pode evoluir para um comportamento obsessivo, marcado por restrições alimentares rígidas e medo constante de consumir alimentos considerados inadequados.
Embora o objetivo inicial seja cuidar da saúde, o resultado pode ser justamente o contrário: sofrimento psicológico, isolamento social e piora da qualidade de vida.
Nem toda questão de saúde mental se resolve com hábitos
Nos últimos anos, pesquisadores também passaram a investigar o chamado “salutarismo mental”. Um estudo da Murdoch University analisou como redes sociais e discursos de bem-estar frequentemente sugerem que transtornos como ansiedade e depressão podem ser resolvidos apenas com alimentação saudável, atividade física ou mudanças de rotina.
Os autores alertam que essa narrativa pode criar preconceitos em relação a tratamentos psicológicos e psiquiátricos. Algumas pessoas passam a enxergar o uso de medicamentos ou a necessidade de acompanhamento profissional como um fracasso pessoal, o que pode atrasar a procura por ajuda adequada.
O impacto do estigma
O salutarismo também influencia a forma como a sociedade enxerga diferentes corpos. Estudos sociológicos, como o da psicóloga social Rebecca Puhl, da University of Connecticut Rudd Center for Food Policy & Health mostram que corpos magros e atléticos costumam ser associados a características positivas, como disciplina e autocontrole.
Em contrapartida, pessoas gordas ou que convivem com limitações físicas frequentemente enfrentam julgamentos relacionados à preguiça ou falta de esforço. Esse tipo de estigma está associado ao aumento do risco de depressão, ansiedade, isolamento social e sofrimento emocional.
Saúde também envolve equilíbrio
Especialistas defendem que hábitos saudáveis continuam sendo importantes para a prevenção de doenças e para a qualidade de vida. O problema surge quando esses hábitos se transformam em uma obrigação permanente ou em um critério para medir o valor das pessoas.
Por isso, compreender que a saúde é influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais e econômicos é um passo importante para construir uma relação mais equilibrada com o corpo e com o bem-estar.





