O que é salutarismo e como isso pode interferir na saúde mental?

Conceito criado nos anos 1980 ajuda a explicar como a busca obsessiva pela saúde perfeita pode gerar culpa, ansiedade e sofrimento emocional

Por Helena Saigh 8 jun 2026, 18h00
Mulher jovem de pele clara, cabelo escuro preso, expressão pensativa, encostada em uma parede escura com os braços cruzados, vestindo camisa branca aberta sobre regata branca e calça jeans
Quando o autocuidado se transforma em obrigação moral, a relação com a saúde pode acabar se tornando uma fonte de estresse. (freepik/Freepik)
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Nunca houve tanta informação sobre saúde disponível. Aplicativos contam passos, relógios monitoram sono, redes sociais mostram rotinas de treino e influenciadores compartilham diariamente o que comem, quanto se exercitam e quais hábitos seguem para viver melhor.

Mas existe um ponto em que a busca por saúde deixa de ser saudável, e esse fenômeno recebe o nome de salutarismo. O conceito foi criado pelo cientista político Robert Crawford em 1980 para descrever a tendência de transformar a saúde em uma responsabilidade exclusivamente individual.

Na prática, a ideia sugere que basta fazer as escolhas certas para permanecer saudável, ignorando fatores como genética, renda, ambiente, acesso à saúde e condições de vida.

Quando a saúde vira uma questão moral

Segundo Crawford, um dos principais problemas do salutarismo é que ele cria uma espécie de “moralidade da saúde”. Nessa lógica, pessoas que seguem determinados hábitos passam a ser vistas como disciplinadas, responsáveis e bem-sucedidas. Já quem adoece, vive em um corpo fora do padrão ou não consegue manter uma rotina considerada ideal pode ser julgado como desleixado ou pouco esforçado.

Pesquisadores que estudam o tema apontam que essa visão costuma gerar sentimentos de culpa, inadequação e baixa autoestima. Afinal, se a saúde depende apenas das escolhas individuais, qualquer dificuldade pode ser interpretada como uma falha pessoal.

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A busca pela saúde perfeita pode gerar ansiedade

Outro efeito observado pelos especialistas é a ansiedade provocada pela tentativa constante de atingir um ideal de bem-estar. A necessidade de monitorar alimentação, exercícios, sono e produtividade cria uma sensação permanente de vigilância. Em vez de melhorar a qualidade de vida, o autocuidado passa a funcionar como uma fonte de cobrança.

Em muitos casos, essa pressão faz com que a pessoa sinta que nunca está fazendo o suficiente, mesmo quando já mantém hábitos considerados saudáveis.

O risco da ortorexia

Entre os impactos mais estudados está a relação entre o salutarismo e a ortorexia nervosa. Pesquisas da USP revisadas por especialistas em psicologia da saúde mostram que a preocupação excessiva com alimentação saudável pode evoluir para um comportamento obsessivo, marcado por restrições alimentares rígidas e medo constante de consumir alimentos considerados inadequados.

Embora o objetivo inicial seja cuidar da saúde, o resultado pode ser justamente o contrário: sofrimento psicológico, isolamento social e piora da qualidade de vida.

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Nem toda questão de saúde mental se resolve com hábitos

Nos últimos anos, pesquisadores também passaram a investigar o chamado “salutarismo mental”. Um estudo da Murdoch University analisou como redes sociais e discursos de bem-estar frequentemente sugerem que transtornos como ansiedade e depressão podem ser resolvidos apenas com alimentação saudável, atividade física ou mudanças de rotina.

Os autores alertam que essa narrativa pode criar preconceitos em relação a tratamentos psicológicos e psiquiátricos. Algumas pessoas passam a enxergar o uso de medicamentos ou a necessidade de acompanhamento profissional como um fracasso pessoal, o que pode atrasar a procura por ajuda adequada.

O impacto do estigma

O salutarismo também influencia a forma como a sociedade enxerga diferentes corpos. Estudos sociológicos, como o da psicóloga social Rebecca Puhl, da University of Connecticut Rudd Center for Food Policy & Health mostram que corpos magros e atléticos costumam ser associados a características positivas, como disciplina e autocontrole.

Em contrapartida, pessoas gordas ou que convivem com limitações físicas frequentemente enfrentam julgamentos relacionados à preguiça ou falta de esforço. Esse tipo de estigma está associado ao aumento do risco de depressão, ansiedade, isolamento social e sofrimento emocional.

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Saúde também envolve equilíbrio

Especialistas defendem que hábitos saudáveis continuam sendo importantes para a prevenção de doenças e para a qualidade de vida. O problema surge quando esses hábitos se transformam em uma obrigação permanente ou em um critério para medir o valor das pessoas.

Por isso, compreender que a saúde é influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais e econômicos é um passo importante para construir uma relação mais equilibrada com o corpo e com o bem-estar.

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