FitDance além da coreografia: como dança, técnica e preparo físico se encontram na CON26
Convenção reuniu cerca de 2 mil instrutores em Salvador e mostrou que, por trás das coreografias, há técnica, repertório e muito preparo físico
Durante três dias, foi difícil ficar parado no Centro de Convenções Salvador. Teve funk carioca, pagodão, jazz, capoeira, competições e, claro, muito FitDance. Cerca de 2 mil instrutores passaram pela CON26, realizada entre 21 e 23 de agosto, em uma programação que mostrou diferentes lados de uma modalidade conhecida pelas coreografias que tomam conta das academias e das redes sociais.
Entre uma aula e outra, porém, também apareceram assuntos menos óbvios: preparação física, fortalecimento, técnica, saúde e os cuidados necessários para quem passa boa parte do dia dançando. A Boa Forma acompanhou a convenção de perto e conversou com profissionais para entender o que existe por trás dos passos.
Um pouco de tudo para dançar melhor
A CON26 chegou à nona edição de volta à Bahia, estado onde a modalidade nasceu. Ao longo do fim de semana, os instrutores passaram por workshops de diferentes linguagens, além de atividades de coreografia e performance.
A variedade pode parecer curiosa em uma convenção de FitDance, mas faz parte da formação de quem trabalha com dança. Quanto maior o contato com diferentes estilos, maior também pode ser o repertório de movimentos levado para as coreografias.
Quem explica é Aline Ramos, bailarina formada em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e um dos nomes mais conhecidos da FitDance. “Quanto mais aulas de outros estilos a pessoa puder fazer, só vai melhorar o repertório dela em relação à linguagem corporal. Ela consegue colocar uns detalhes a mais ali na coreografia. Então, é muito válido fazer diferentes aulas, e se puder, de tudo”, conta.
Esse repertório entra em cena também quando é hora de aprender uma nova sequência. Boa parte das coreografias é desenvolvida pelo Centro de Estudos FitDance (CEF) e repassada aos profissionais que participarão das gravações. E o tempo para colocar tudo no corpo pode ser curto. “A gente tira uns 15 a 30 minutos ali para pegar a coreografia e colocar no corpo para gravar, às vezes, um pouco mais quando a música é mais desafiadora, ou a coreografia tem mais detalhes”, explica Aline. “Depois, é hora de gravar. Tem que ter uma boa memória, tem que pegar rápido.”
FitDance também é exercício
A música alta, as coreografias e o clima descontraído podem até fazer o esforço físico passar despercebido. Para o corpo, no entanto, uma aula reúne diferentes estímulos.
A médica do esporte Nathália Figueirêdo, que participou da programação da CON26, destaca potência, flexibilidade, força e capacidade cardiovascular entre as exigências da modalidade. “O FitDance tem muita potência, a gente percebe muita potência neles, que é aquele movimento de explosão. Quando eu vejo eles dançando, vejo que tem muito alongamento, muita flexibilidade, tem muita força e tem muito cardiovascular também.”
Durante uma aula, os movimentos envolvem diferentes partes do corpo enquanto a frequência cardíaca aumenta. Com a prática regular, entram em cena benefícios associados à atividade física, especialmente para a saúde cardiovascular e metabólica. “Assim como qualquer esporte, o FitDance é dança e dança é movimento. Então, quando a gente pensa em movimento, agitação, aceleração do coração, isso aí a gente já está prevenindo diabetes, colesterol alto, pressão alta”, afirma Dra. Nathália.
A médica destaca ainda os efeitos da atividade sobre o bem-estar. A combinação de música e movimento está associada à liberação de neurotransmissores relacionados ao prazer e à sensação de bem-estar, como dopamina e endorfina. “Eu sei que tem muita gente que olha como arte. Eu, como médica do esporte, vejo um esporte fantástico.”
Uma alternativa para quem não gosta de academia
Nem todo mundo se identifica com musculação, corrida ou esportes tradicionais. E encontrar uma atividade que dê vontade de voltar no dia seguinte pode fazer diferença na hora de deixar o sedentarismo.
Para Dra. Nathália, esse é um dos pontos fortes da dança. No consultório, ela conta que costuma perguntar aos pacientes qual esporte gostam de praticar. Quando futebol, basquete ou vôlei não despertam interesse, uma pergunta costuma mudar a conversa: você gosta de dançar? “Aí as pessoas caem na real que a dança também é um esporte”, diz.
A música e a coreografia fazem com que a atenção não esteja concentrada apenas no esforço, o que pode tornar a experiência mais prazerosa. “O FitDance tem esse apelo muito emocional e dá alegria, que as pessoas às vezes nem percebem que estão fazendo um esporte. E isso é muito interessante, principalmente porque ele ‘engana’ você, e você vai fazendo o esporte com prazer. Então, a adesão é muito maior do que um esporte que você faz sem prazer.”
Isso não significa que exista uma modalidade ideal para todo mundo. Mas encontrar uma prática prazerosa pode ajudar a manter algo fundamental para obter os benefícios do exercício: a regularidade.
Só FitDance basta?
O FitDance trabalha diferentes capacidades físicas, mas isso não significa que uma única modalidade dê conta de tudo. “Não existe um esporte 100% completo. Existem esportes complementares”, ressalta Dra. Nathália.
Para quem dança profissionalmente, essa combinação se torna ainda mais importante. Além de acompanhar coreografias, o corpo precisa suportar ensaios, gravações e aulas frequentes. “O FitDance precisa de uma preparação para você ser realmente um atleta de FitDance, se você quer ser nesse nível”, explica a médica.
Fortalecimento muscular e trabalhos de condicionamento podem complementar a dança e ser adaptados às necessidades de cada pessoa. Na rotina de Aline, por exemplo, musculação e treinamento funcional caminham junto com as horas dedicadas à dança. “Eu amo pegar peso, eu amo fazer funcional no parque. Então, eu treino de verdade de segunda a segunda. Não é para ficar com o corpo sarado, ou com o melhor shape, é para fortalecimento do meu joelho, manutenção do corpo todo, para não ter lesão.”
Quando dançar faz parte do trabalho
Para um aluno, uma aula termina quando a música acaba. Para quem trabalha com dança, muitas vezes aquela foi apenas uma entre várias horas de movimento no mesmo dia. E essa diferença muda a exigência sobre o corpo.
“O FitDance, como ele tem muitos movimentos repetitivos, você faz praticamente os mesmos movimentos várias vezes ao dia. É superimportante você fazer fortalecimentos das articulações, os alongamentos, porque são esforços repetitivos”, explica a Dra.
Segundo a médica, coluna, joelhos e tornozelos estão entre as regiões que podem apresentar dores em profissionais que dançam com alta frequência. O quadril também exige atenção pela flexibilidade necessária para executar determinados movimentos. “O quadril, por exemplo, precisa de muita flexibilidade até para você realizar os movimentos com mais plasticidade.”
A discussão também apareceu na própria programação da CON26. Dra. Nathália participou do evento falando sobre os cuidados necessários quando o corpo passa a ser uma ferramenta de trabalho, trazendo a saúde para uma programação que, à primeira vista, poderia parecer dedicada apenas à dança. “É superimportante você ter esse preparo físico, esse condicionamento antes, esse fortalecimento da armadura que a gente chama, que é o corpo, para que você dance na maior performance possível.”
Aline conta que os cuidados fora dos treinos também mudaram ao longo de sua trajetória. Além do acompanhamento médico e dos exames periódicos, ela passou a encarar a fisioterapia como parte da manutenção do corpo, e não apenas como algo a procurar depois de uma lesão. “É algo que hoje em dia eu aprendi a fazer sempre para manutenção, e não procurar uma fisioterapia apenas quando precisa. Hoje não é mais, ‘aconteceu qualquer coisa por isso vou procurar um médico’, eu tenho que fazer esse check-up para manutenção e não acontecer de ter uma lesão.”
Vai fazer uma aula? Comece pelo aquecimento
A rotina de um instrutor está longe de ser a mesma de quem faz FitDance por lazer, mas alguns cuidados valem também para os alunos. Um deles acontece antes mesmo de a música começar. “Aquecimento talvez seja a informação mais importante que eu dou para eles”, afirma a Dra..
Segundo a médica, preparar previamente os músculos e articulações que serão mais exigidos durante a atividade pode diminuir o risco de lesões. “Um músculo que entra aquecido para dar uma aula tem um menor risco de uma lesão muscular, ele tem um menor risco de uma lesão articular.”
Alguns grupos também podem precisar de atenção adicional antes de começar. Pessoas mais velhas ou com fatores de risco cardiovascular devem avaliar suas condições de saúde antes de iniciar uma atividade de alta intensidade. Para os mais jovens, histórico de lesões, força, flexibilidade e possíveis desequilíbrios musculares também são pontos a observar.
Muito além da coreografia
Ao longo dos três dias, a CON26 ainda teve o FitDance Champions, atividades de formação, apresentações e encontros entre instrutores de diferentes lugares do Brasil e do exterior. A programação noturna também entrou no ritmo, com Festa do Branco, Festa Disco e uma micareta encerrando o evento. No meio de tudo isso, os workshops de estilos diferentes e as discussões sobre saúde ajudaram a mostrar um lado menos visível do FitDance.
Para quem está na aula, o desafio pode ser simplesmente conseguir acompanhar a próxima sequência. Para quem está na frente dela, há repertório para construir, coreografias para memorizar, técnica para aprimorar e um corpo que precisa estar preparado para repetir tudo isso muitas vezes.





