Seis mulheres que venceram a gordofobia no esporte

"Quando uma pessoa gorda fala que se exercita pra cuidar da sua saúde, ela vai contra a maré", conta Natália Mota, educadora física idealizadora do Saúde GG

Por Amanda Ventorin Atualizado em 23 mar 2021, 19h29 - Publicado em 24 mar 2021, 09h00

“Você deveria se exercitar mais” ou “E se você começasse uma academia?” são frases que quase todas as pessoas gordas já ouviram. Por trás delas, o objetivo do emagrecimento aparece sempre ligado à questão estética. Todos os corpos podem se beneficiar da atividade física, mas os praticantes em busca de saúde e bem-estar (não apenas necessariamente mudar seu corpo) encontram muita resistência nos ambientes esportivos. Conheça histórias de quem está quebrando preconceitos para abraçar o esporte.

Ellen, atleta de peso, posando para foto em uma quadra de basquete com a bola apoiada no chão
@atleta_de_peso/Reprodução Instagram

ACOLHIMENTO E ACEITAÇÃO?

Teve uma vez que uma aluna falou alto dentro da sala de musculação que eu orientava que professor de educação física tem que ser exemplo e que jamais faria treinos orientados por profissionais gordinhos”, relata Natália Mota, profissional de educação física e idealizadora do Saúde GG, “Na época eu era mais tímida e não aceitava meu corpo fora do padrão, então fingi que não ouvi e andei pra longe. Lembro o quanto me senti constrangida.”

“Teve uma aluna que falou que professor de educação física tem que ser exemplo e que jamais faria treinos orientados por profissionais gordinhos”

Constrangimento e pressão são queixas constantes. “A academia é um ambiente hostil para pessoas gordas. Se eu for agora, vou sofrer preconceito até mesmo do profissional de educação física, que já vai me julgar como se eu não fosse uma pessoa que faz atividade física. E se eu não abrir a minha boca, vai achar que eu quero emagrecer. Fora os olhares daqueles que frequentam também” completa Ellen Valias que criou o Atleta de Peso para expôr nas redes sociais sua realidade de mulher gorda, jogadora de basquete e extremamente ativa. 

“Já me colocaram para fazer aulas em turmas de nível intermediário, mesmo eu estando em um nível avançado”

O mundo da dança não é muito diferente. Júlia Del Bianco, professora de Ballet e idealizadora do Dance For Plus (primeira escola itinerante de Dança Plus Size Friendly) conta sua experiência: “Já me colocaram para fazer aulas em turmas de nível intermediário, mesmo eu estando em um nível avançado. Geralmente quando eu entro em uma turma pela primeira vez como aluna, as pessoas acham que eu não vou conseguir fazer a aula “, comenta. “Em alguns ambiente,s eu vejo uma tentativa de mudança, mas não é a grande maioria. No caso da dança ainda é muito pouco, ou então existe um preconceito velado. Tem aqueles que acolhem pessoas gordas mas às vezes ainda fazem um comentário, uma brincadeira ou algo constrangedor.”

Natália Mota, do Saúde GG, em um fundo branco e pesinhos de mão amarelos

UMA QUESTÃO (DE PESO) QUE COMEÇA MUITO CEDO

“Desde muito nova eu lembro de ouvir comentários das outras crianças sobre o corpo das colegas e consequentemente isso nos faz julgar o nosso corpo também, esperando estar dentro daquele padrão para ser aceito. Nas minhas aulas eu vi alguns episódios de gordofobia e eu sempre parava, conversava, se era algo mais sério eu levava o caso para a professora responsável ou diretora. Acredito que também é nossa parte evitar que outras crianças e pessoas passem pelas mesmas situações que a gente passou”, relata Júlia.

É na infância que a ideia de incapacidade em relação aos esportes pode despertar. A psicóloga Paula Dutra explica que a gordofobia na escola acaba criando um círculo vicioso. “A criança que tem problemas com o peso precisa da prática esportiva para ajudar no emagrecimento. Esse preconceito durante a atividade deixa ela com vergonha e, com isso, passa a não ter vontade de fazer a educação física ou fazer de qualquer jeito.”

Como essa criança gorda é tratada na escola, nesse primeiro contato com a atividade física? Ela sofre gordofobia, rejeição, porque ela nunca é escolhida para o time, ou quando é escolhida ela vai pra o gol para “tapar o gol”, ela nunca está 100% na atividade pela preocupação se vai cair e as pessoas vão rir dela sendo motivo de chacota para o resto da vida, entre outras diversas violências com essas crianças”, comenta Vanessa Joda, professora e idealizadora do Yoga Para Todes. 

Mulheres gordas fazendo yoga ao ar livre, no pôr-do-sol
Vanessa Joda conduzindo aula de yoga com Lourrani Baas, estilista plus size Isabele da Costa/Divulgação

Atividade Física x Emagrecimento

A libertação do estereótipo de que a prática de esporte para pessoas gordas deve estar diretamente e exclusivamente ligada ao emagrecimento não quer dizer que esse não possa ser seu objetivo.

“Não que os olhares recriminatórios tenham diminuído, mas com certeza o meu posicionamento mudou e as opiniões alheias não me importam mais”

“Hoje, com o meu processo de empoderamento mais evoluído sobre a liberdade do meu corpo, essa relação (de se exercitar para emagrecer) mudou… Não que os olhares recriminatórios tenham diminuído, mas com certeza o meu posicionamento mudou e as opiniões alheias não me importam mais. A prática de exercícios físicos é algo fundamental para o bom funcionamento do nosso corpo, e por este motivo que busco sempre continuar e nunca desistir diante do preconceito”, diz Lourrani Baas, estilista plus size que compartilha sua rotina de exercícios que incluem boxe e yoga no seu perfil no Instagram, @freesiize. 

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A dinâmica das redes sociais revela diferenças de tratamento entre influenciadores fitness com corpos magros e gordos. “Existem muitas pessoas gordas que postam vídeo se exercitando na internet, mas estão sempre ligadas ao emagrecimento, porque é toda uma pressão. Elas não sabem que têm o direito de fazer exercícios físicos sem ser por emagrecer.  Eu não queria ser só uma pessoa gorda que postava fazendo atividades físicas. Eu queria falar pras pessoas gordas porque elas não estão nesses ambientes, porque esse acesso é negado e não somos bem acolhidas”, completa Ellen.

“Todo mundo acha que devemos ir atrás desse corpo padrão. Quando uma pessoa gorda fala que se exercita pra cuidar da sua saúde, ela vai contra a maré. Esse ato em si é revolucionário”

“Todo mundo acha que devemos ter um corpo padrão e ir atrás desse corpo com todas as nossas forças. Quando uma pessoa gorda fala que não está nessa corrida pelo padrão, que se exercita pra cuidar da sua saúde, ela vai contra a maré. Esse ato em si é revolucionário e incomoda bastante aqueles que pensam como a maioria”, conta Natália.

Muitas vezes, essa junção de emagrecimento, punição e sofrimento em relação aos esportes afasta pessoas gordas das academias, parques e aulas de dança trazendo problemas à saúde pela falta de movimentação. “Pratico esportes desde a adolescência, sempre gostei. Depois de adulta acabei vendo o esporte como uma forma de ficar dentro do ‘padrão’ e com isso o prazer em praticar esporte foi diminuindo. A corrida surgiu em um momento em que levei um susto do cardiologista quando ele disse que eu poderia morrer dormindo se não fizesse algo por mim. Comecei na esteira e aos poucos fui pra rua, e olha que eu detestava correr. Mas passei a me dedicar e ver que era possível sim e acabei correndo 4 meias maratonas”, conta Fernanda Azevedo, meia maratonista e profissional de marketing.

Fernanda Azevedo correndo ao ar livre
Fernanda Azevedo/Arquivo pessoal

Há ainda a pressão colocada sobre os corpos gordos a respeito de seu condicionamento. “É engraçado que há uma cobrança com as pessoas gordas que as pessoas magras não têm. Se uma pessoa gorda está ofegante, sem força, sem flexibilidade ou fazendo mais devagar sempre associam que é por conta do peso e nunca por conta de que talvez ela está iniciando a atividade, ou já teve alguma lesão, ou qualquer outra coisa desse tipo”, diz Júlia. 

“Uma vez em uma viagem, resolvi praticar arvorismo e no grupo que o instrutor reuniu, eu era a única gorda. Antes de começarmos, ele deu o aviso de que não queria ninguém desistindo e fez isso olhando diretamente para mim”

A cobrança e a pressão implícita podem ser um impedimento para quem decide explorar modalidades pela primeira vez. “Uma vez, em uma viagem, resolvi praticar arvorismo e no grupo que o instrutor reuniu, eu era a única gorda. Antes de começarmos, ele deu o aviso de que não queria ninguém desistindo e por pura coincidência, fez isso olhando diretamente para mim. Durante o percurso, algumas pessoas desistiram pelo cansaço, mas meu único pensamento era de que se eu não conseguisse, todos achariam que era por conta do tamanho do meu corpo” comenta Amanda Ventorin, redatora desta matéria.

Como se libertar da pressão estética e aproveitar as atividades físicas?

O amor próprio e aceitação são ferramentas poderosas para qualquer um e se sentir bem na própria pele é um ato revolucionário. O processo não é fácil e precisa ser feito de maneira gentil e persistente até o reconhecimento de que o tamanho do corpo não importa e que ele não determina sua capacidade ou seu valor.  “Foi um aprendizado escutar meu corpo e reconhecer os limites dele, saber descansar e saber me manter saudável independente da estética de um padrão específico”, relata Júlia.

“Lembre-se que a gordofobia é estrutural e por isso a desconstrução é um processo. Entender seu corpo, conhecer seu corpo, é uma parte importante deste processo também. Seguir pessoas gordas que falem de gordofobia ajuda bastante nesse processo de se conhecer. A culpa não é sua e sim desta sociedade e estrutura gordofobica”, aconselha Vanessa Joda.

 “Procure um esporte que você se identifique e goste. Caso tenha uma amiga, vizinha, parente que possa fazer junto, melhor ainda! É sempre bom ter alguém pra te motivar”

Há algumas outras coisas que você pode fazer para fazer as pazes com os esportes e abraçar sua prática necessária (e extremamente gostosa!). Foque em todo o bem que ela pode fazer para a sua saúde. “Procure um esporte que você se identifique e goste. Caso tenha uma amiga, vizinha, parente que possa fazer junto, melhor ainda! É sempre bom ter alguém pra te motivar. Não deixe que os comentários de outras pessoas, só porque você começou a se mexer, te desestimulem. Com certeza a pessoa gostaria de estar no seu lugar. Aproveite e a convide para fazer também! E o principal é tenha paciência, procure acompanhamento profissional e seja feliz!”, aconselha Fernanda.

“Busque resignificar, tirando os aspectos de medo e tortura, para algo que seja bom e prazeroso. Depois é trabalhar a continuação, para que vire uma ação com constância e frequência na sua vida, e não algo de momento. Outra dica de ouro é contar com profissionais capacitados que entendam e trabalhem respeitando os limites do seu corpo, para uma evolução gradual. Algo muito importante é que tais profissionais trabalhem com humanidade e respeito, pois grande quantidade de queixas se dar a falta de atenção dos profissionais de educação física a pessoas gordas. Escolha aquele look confortável, coloca o sorriso na cara e se joga, pois você tem todo o direito a prática de exercícios”, completa Lourrani. 

Júlia fazendo alongamento, com o joelho próximo a lateral do rosto, no quarto, com sapatilha de ballet
Júlia del Bianco Dhebora Schenoor/Divulgação

Se permita fazer esportes de uma maneira leve, para seu aproveitamento. Tamanho nunca foi um problema ou impedimento e saiba que esse espaço também é seu por direito 😉

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