Neide Santos usa a corrida para afastar jovens da marginalidade

Após o assassinato do filho por um adolescente, Neide Santos desenvolveu um projeto para envolver jovens em atividades esportivas e afastá-los do crime

Por Maria Lucia Zanutto (colaboradora) - Atualizado em 13 mar 2018, 12h18 - Publicado em 11 mar 2018, 08h00

Foi pela televisão que Neide assistiu à primeira São Silvestre em que foi permitida a participação oficial de mulheres. “Presenciar aquela grande conquista feminina me marcou muito”, conta. Era 1975 e ela mal imaginava que, anos mais tarde, também se tornaria uma referência de força e da capacidade do esporte de transformar realidades. Até então, a adolescente, que adorava correr, havia sido obrigada a dispensar um convite para compor a equipe de atletismo do São Paulo Futebol Clube porque precisava ajudar a cuidar dos irmãos.

Mesmo com a rotina intensa de dona de casa e costureira – Neide se casou aos 18 anos e logo teve seu primeiro filho –, ela nunca deixou de acelerar pelas ruas do Capão Redondo, bairro da periferia de São Paulo. “Para não abandonar o esporte, passei a treinar ao lado do meu marido, que era jogador de futebol.”

O tempo escasso a levou às primeiras provas: eram uma forma de conseguir completar mais quilômetros na semana. Aos 30 anos, já colecionava algumas medalhas de maratona e chamava a atenção das outras mulheres da comunidade, que começaram a acompanhá-la. Passo a passo, o grupo cresceu e, em 1999, já reunia mais de 30 moradoras do bairro.

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“Meu filho mais velho sempre me pedia para envolver as crianças do Capão nas atividades porque sabia da importância da recreação na infância de pessoas carentes. Mas eu não tinha tempo”, relembra. Além de manter o trabalho regular, aos fins de semana Neide organizava festinhas para ganhar um dinheiro extra. Até que um dia seu mundo virou de cabeça para baixo: um jovem de 14 anos tirou a vida do seu primogênito. “A dor da perda fez com que eu parasse de treinar.”

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Depois que o processo de luto passou, Neide foi incentivada por suas companheiras de corrida a transformar a tragédia familiar em um bem coletivo. “Coloquei em prática o que ele havia pedido tempos antes: cuidar das crianças para que elas se afastassem da marginalidade.”

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Todos os sábados, então, a costureira encontrava jovens de diversas idades para lhes ensinar tudo o que sabia sobre o esporte – das técnicas à paixão pela velocidade. “Não tinha noção de que aquilo seria tão relevante para a sociedade”, relembra.

Assim, surgiu o projeto Vida Corrida, que, após ganhar um concurso, passou a contar com o apoio da Nike e com a ajuda de preparadores físicos formados. Hoje, mais de 400 pessoas participam das atividades, que incluem atletismo, tênis e basquete.

O próximo passo da corredora – que também deseja escrever um livro – é construir uma casa para sediar o grupo e continuar mudando a realidade da comunidade. “Quando você se exercita, esquece o mundo lá fora. Aquele é seu momento único”, diz Neide, que treina seis vezes por semana.

Fato: uma hora de esporte por dia pode transformar uma vida inteira. O projeto, além de revelar talentos, incentiva as mulheres a voltar a estudar e a empreender dentro do Capão Redondo.

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Assim, elas têm mais tempo para cuidar de si e da família. “Não vou conseguir criar um novo mundo, mas posso modificar o que está ao meu redor. Sou uma eterna sonhadora.”

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