Do distúrbio alimentar à maratona: “A corrida salvou minha vida”

Rafaela Bueno encontrou no esporte a força que precisava para mudar de vida. Agora, vai viver o sonho de correr a Maratona de Boston, nos EUA

Por Giulia Granchi, Gislene Pereira Atualizado em 17 fev 2020, 15h16 - Publicado em 22 jun 2017, 19h44

“Costumava detestar esportes e era aquela criança que fugia das aulas de educação física. Mas, aos doze anos, estava gordinha e a questão da aparência começou a me incomodar. Daí fiz uma reeducação alimentar sem muitas restrições, apenas diminuindo exageros e consegui chegar ao meu objetivo, um peso saudável. Aos 15, mudei de casa e comecei a fazer academia. Foi aí que comecei a me cobrar cada vez mais — e a perda de peso se tornou um vício.

Não sei explicar exatamente o que é ter um distúrbio alimentar e nem como cheguei até ele. Não é simplesmente ‘quero emagrecer’, é uma questão de controle (ou melhor, a falta dele). De repente, ver o número baixando na balança passou a ser a única coisa que eu queria, nada mais importava. Eu não tinha domínio de outras partes da minha vida, mas de uma coisa eu sabia: se eu não comesse, conseguiria baixar o peso.

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Nesta época, a corrida ainda não fazia parte da minha rotina. Minhas idas à academia eram simplesmente em função de queimar as calorias ingeridas. É difícil entender como se chega a um ponto tão sombrio. Acho que a pessoa vai restringindo cada vez mais a alimentação e, quando, vê o distúrbio já está lá, forte. Passava quatro, cinco dias sem comer e ia pedalar – ainda sim, me olhava no espelho e me achava enorme.

Estava com 16 anos quando atingi o auge do meu problema psicológico. Meus pais me levavam à psicóloga, mas não adiantava nada, já que a motivação para eu mudar não aparecia. Só consegui ouvi-la quando ela afirmou que eu seria internada se não mudasse meus hábitos. Foi como um balde de água fria. Eu vi como meus pais estavam sofrendo e resolvi tentar melhorar, ocupar minha cabeça com outras coisas.

O equilibro foi muito difícil de ser encontrado. Depois da anorexia, tive bulimia. Mesmo com acompanhamento nutricional, comia e me sentia culpada, queria vomitar. Entre muitos altos e baixos, passei a ler sobre nutrição e querer dar ao meu corpo apenas o melhor combustível possível.”

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CONTATO COM A CORRIDA

“Comecei a apostar na musculação para ganhar massa magra; correr era só aquecimento. Mas um belo dia continuei o aquecimento para ver até onde conseguia chegar – olha só a cabeça de fundista — e corri 10 quilômetros. Não me lembro, mas provavelmente demorei muito para completar o trecho. O importante é que fiquei motivada, passei a querer percorrer essa distância uma vez por semana, e aos poucos, fui aumentando. Estava com 17 anos, e quando vi, o ‘bichinho’ da corrida já tinha me picado. Mas o melhor: venci meu vício. Minha primeira prova foi de cara uma meia maratona, um bom exemplo de como as longas distâncias ganharam meu coração!

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Depois que me apaixonei pelo esporte, tudo melhorou. Posso dizer que sou agora a versão mais saudável e equilibrada de mim que já existiu. Antes, queria ser mais magra. Hoje, quero ser forte e que as pessoas olhem pra mim e digam ‘a Rafa tá correndo muito, tá ótima!’ e me sentir assim também. Sem dúvidas a corrida me salvou, mudou minha vida completamente.”

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FAMÍLIA

“Meus pais têm muito orgulho de mim. Toda vez que completo uma prova, eles falam sobre isso de boca cheia. Foi muito legal ouvi-los dizendo ‘minha filha é maratonista!’ quando completei meus primeiros 42K, em 2016, na Maratona do Rio. Eles adoram me acompanhar e sentem-se felizes pela minha reviravolta — e por eu ser hoje a pessoa mais saudável que eles conhecem.”

PRÓXIMA LARGADA, BOSTON!

“Acabei de completar minha segunda maratona, em Porto Alegre, no tempo de 3h27min10s, com direito a primeiro lugar na minha categoria e o passaporte carimbado para viver meu sonho: a Maratona de Boston, em abril de 2018.

A prova gaúcha foi perfeita: dia lindo, temperatura ideal e de quebra estava rodeada de pessoas queridas. Apesar do nervosismo, sabia que estava preparada. Só pra ter uma ideia, não olhei o relógio até faltar 500 metros para acabar. O momento que vi meu tempo, dentro do índice para correr em Boston, queria gritar de felicidade! Foi sem dúvidas um dos melhores dias da minha vida, fiquei muito orgulhosa de mim.

A maratona nos EUA, considerada a mais tradicional no mundo, parecia um sonho distante, mas resolvi acreditar em mim. E com o plano estabelecido por meu treinador Nelson Evencio e por meu nutricionista Marco Jafet deu certo! Demorei para perceber que estava dentro de verdade e que era tudo real, mas agora já estou ansiosa e com muita vontade de treinar e quebrar tudo em Boston!”

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