Depoimento: “Um corpo magro não deve ser visto como uma vitória”

Escritora que já esteve acima e abaixo do peso considerado ideal fala sobre como a balança não tem nenhuma ligação com seu valor como pessoa

Por Mariana Amaro Atualizado em 6 abr 2017, 18h19 - Publicado em 4 abr 2017, 19h37

Quando alguém diz: “nossa, como você emagreceu!”, agradecer, feliz, é uma reação comum. Mas a escritora americana Ijeoma Oluo, de 36 anos, que já viveu abaixo e acima do índice de massa corporal considerado ideal, não acredita mais na felicidade de ter um corpo esbelto.

Ela dividiu sua história no Facebook, em um post que já recebeu mais de 700 comentários e foi compartilhada mais de 3 mil vezes, e mostrou como o peso do seu corpo não tem nenhuma ligação com o seu valor como pessoa. Depois de terminar um casamento abusivo e ter sido assediada sexualmente por um ex-namorado, Ijeoma passou a acreditar que era a culpada pelas relações abusivas.

“Decidi que, enquanto eu estivesse gorda, ninguém que não fosse abusivo gostaria de ficar comigo. Sentia, dentro de mim, que enquanto fosse gorda, não seria capaz de parar de me odiar e querer mais. Para a sociedade, se você é gorda, você precisa agradecer por qualquer amor que você conseguir – até se não for amor nenhum. E enquanto uma parte de mim sabia que aquilo estava errado, eu não conseguia encontrar uma forma de realmente acreditar naquilo e viver aquilo. Então, eu perdi peso”, escreveu.

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Ao longo de cinco anos, ela eliminou muito peso mas, apesar dos elogios e do tratamento melhor que recebia quando estava magra, Ijeoma percebeu que aquilo não fazia dela uma pessoa melhor, mais interessante, criativa ou gentil. “Eu não me tornei uma pessoa melhor nem mais interessante – se algo mudou, foi que fiquei bem menos interessante. Não fiquei mais criativa ou gentil. Virei eu mesma, em uma versão menor e absolutamente obcecada com o que colocava na minha boca.”, escreveu.

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Quando engravidou de sua filha mais nova, ela ganhou alguns dos quilos que havia perdido. Três anos depois, após construir uma família, comprar uma casa e lançar uma carreira de sucesso, ela havia voltado ao seu peso original e até ganhado outros quilos extras. “Esses foram os anos com as maiores realizações que já imaginei para a minha vida. Ou foram os anos em que fiquei gorda novamente – depende de para quem você pergunta”, escreveu Ijeoma. E concluiu: “Não vou apoiar a noção prejudicial de que corpos esbeltos são vitórias morais”.

Confira a tradução do post abaixo:

Hoje, mais cedo, postei um pedido de cuidado ao se discutir questões de peso e perda de peso. Isso tocou muitas pessoas, que se sentiam abatidas depois de serem lembradas, constantemente, de que as pessoas estavam tentando evitar ter corpos como os delas. E muitas comentaram que tinham o direito de sentir orgulho de ter perdido peso e que não deveriam ter que adaptar o que diziam para não magoar pessoas gordas. Algumas poucas pessoas comentaram que eu e quem concordava comigo estávamos exagerando. Algumas pessoas ainda insinuaram que deveríamos nos sentir mal por sermos gordos e que deveríamos trabalhar para emagrecer.

Por essa razão, vou contar uma história aqui.

Eu fui magra por cinco anos durante a minha vida adulta. Eu sempre tive o que se chamam de “rosto bonito” e sempre ouvi, com um sentimento de arrependimento, do qual eu compartilhava, que deveria tentar fazer com que o “resto de mim” correspondesse ao rosto. Por cinco anos, eu fiz isso.

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Comecei uma dieta um dia depois de ter sido assediada sexualmente por um ex-namorado. Eu tinha 22 anos. Eu não sabia como entender o que havia acontecido comigo. Depois de sobreviver a uma infância de abusos sexuais e de ter, recentemente, saído de um casamento abusivo, eu não queria ser uma vítima novamente. Então, eu culpei a única pessoa comum em todos os casos: eu. Decidi que isso aconteceu porque eu havia escolhido ficar, novamente, com alguém que nunca nem fingiu que tinha me valorizado. E quando eu tentei descobrir por que alguém que ouviu tantas vezes que havia muitas coisas boas acontecendo em sua vida, poderia se machucar tanto, eu foquei em meu peso. Decidi que, enquanto eu estivesse gorda, ninguém que não fosse abusivo gostaria de ficar comigo. Sentia, dentro de mim, que enquanto fosse gorda, não seria capaz de parar de me odiar e querer mais. Para a sociedade, se você é gorda, você precisa agradecer por qualquer amor que você conseguir – até se não for amor nenhum. E enquanto uma parte de mim sabia que aquilo estava errado, eu não conseguia encontrar uma forma de realmente acreditar naquilo e viver aquilo.

Então, eu perdi peso. No ano seguinte, eu perdi muito peso. Todo mundo percebeu. Era um assunto que aparecia diariamente nas minhas conversas com todas as pessoas que estavam na minha vida. E sabe de uma coisa? Cada uma das horríveis vozes na minha cabeça, cada uma das mensagens contra gordos da sociedade era validada quando eu perdia peso.

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Porque quando eu andava por aí pensando “ninguém nunca vai me enxergar de verdade por causa do meu peso”, isso era verdade. Quando eu pensava “homens não conversam comigo por causa do meu peso”, isso era verdade. Quando eu considerava que “pessoas acham que eu sou preguiçosa e menos ‘valiosa’ por causa do meu peso”, isso era verdade.

Quando perdi peso, de repente, as pessoas se importavam comigo. As pessoas seguravam as portas abertas para mim, em vez de deixá-las bater na minha cara. Eu era melhor servida em restaurantes. As pessoas elogiavam meu “trabalho árduo” e minha “força de vontade” em perder peso. Homens, homens de todos os lugares, me cumprimentavam, começavam conversas, me diziam que eu era bonita, engraçada, inteligente. Mulheres queriam ser minhas amigas, sair comigo e finalmente perceberam que eu também poderia sair e me divertir em público.

E eu podia usar roupas. Eu poderia ir a qualquer loja de roupas e simplesmente comprar algumas peças. Eu poderia usar o que quisesse e minha conta bancária pudesse pagar. Eu não precisava mais me contentar com “disponível em plus size”. Eu poderia relaxar sem me preocupar com alguém olhando para a minha barriga. Eu poderia me espreguiçar ou bocejar sem ter que usar uma das minhas mãos para segurar a minha camiseta, no caso de alguém estar olhando e ver uma gordurinha saltada.

Eu poderia sentar em qualquer lugar que quisesse em show, ônibus e restaurantes. Meu médico agia como se eu tivesse me curado de um câncer, apesar de eu não ter nenhum problema de saúde a menos do que antes.

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Por cinco anos, eu fui tratada como um ser humano.

E isso me irritou profundamente.

Porque eu não havia feito nada – nada além de morrer de fome, contar cada porcaria de caloria que entrava na minha boca de maneira obsessiva, subir em uma balança três vezes por dia, me preocupando com cada mínima mudança, correr todos os dias até que meus joelhos doessem, tirar fotos do meu corpo para comparar, de forma obsessiva, com as fotos dos meses anteriores em busca de mudanças visíveis, medir todas as partes do meu corpo e me sentir muito bem – ou muito mal – pela perda ou o ganho de cada centímetro, pular o jantar para que eu pudesse comer um cookie pela primeira vez em meses, gastar milhares de dólares em cada livro e revista que pudesse me ajudar a manter a motivação, comendo coisas que eu não queria a cada dia. E depois de todo esse trabalho, que tomou conta da minha vida, eu não havia conquistado nada além de um corpo menor.

Eu não me tornei uma pessoa melhor, nem mais interessante – se algo mudou, foi que fiquei bem menos interessante. Não fiquei mais criativa ou gentil. Virei eu mesma, em uma versão menor e absolutamente obcecada com o que colocava na minha boca.

E era isso o que era necessário para ser tratada como alguém que merecia existir em público. Era isso que era necessário para ser tratada como alguém que merecia amor. Era isso que era necessário para poder usar roupas e sentar em cadeiras e ter atenção e cuidados de médicos. E era isso o que era necessário para não mais ser o motivo de piadas.

E eu ressenti cada elogio, sorriso, estabelecimento em que as cadeiras serviam perfeitamente para a minha pequena bunda, cada empregador que me via de maneira mais profissional. Eu ressentia tudo aquilo enquanto, desesperadamente, me agarrava àquilo, morrendo de medo do momento em que eu parasse de dedicar cada hora de meu dia a reduzir minhas medidas. Porque isso significaria que o mundo voltaria a me tratar como uma fracassada e eu não poderia mais amar a mim mesma.

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Porque não há quantidade de amor-próprio que possa neutralizar todo o ódio por gordos que existe no mundo.

Quando engravidei da minha filha mais nova, ganhei metade do peso que havia perdido ao longo daqueles cinco anos. Nos últimos três anos, ganhei a outra metade e um pouco mais.

Nesses últimos anos, tirei minha família de uma crise, comprei uma casa e lancei uma carreira de escritora. Esses foram os anos com as maiores realizações que já imaginei para a minha vida. Ou foram os anos em que fiquei gorda novamente – dependendo de para quem você pergunta. A cada dia em que eu me olhava no espelho, eu lutava com as vozes me dizendo que eu era um fracasso e deveria estar envergonhada. Mas eu amo pessoas gordas. E amo a minha versão gorda. E não amo as pessoas que decidem que eu só era importante quando não estava gorda. Essas pessoas não são minhas aliadas. Minha lealdade está com a minha versão gorda, que perdeu metade de sua vida porque a sociedade disse que ela não tinha o direito de vivê-la. Minha lealdade está com a minha mãe que costumava me perguntar: “você está com vergonha porque eu sou gorda?” sempre que alguém gritava xingamentos para ela apesar de, para mim, ela ser a personificação de amor e beleza. Minha lealdade está com cada pessoa gentil e maravilhosa que já ouviu que não tem nada a oferecer ao mundo porque seu corpo ocupa espaço demais.

Então não, eu não vou falar sobre dietas e não, não vou parabenizar você por perder peso. Não vou apoiar a noção prejudicial de que corpos esbeltos são vitórias morais. Não vou dar a canalhas abusivos que acreditam que são mais importantes que outras pessoas porque pesam menos, a satisfação de ver eu me odiando e me reduzindo a um corpo menor o suficiente para ser amado por elas. E posso fazer isso com quaisquer medidas. Posso fazer isso como uma pessoa gorda e posso fazer isso como uma pessoa magra. Eu posso me recusar a fazer qualquer coisa com o meu corpo que não seja apenas para mim. E eu faço isso recusando colocar o valor do meu corpo em uma balança. Faço isso, enfrentado aqueles que querem tomar de mim a propriedade do meu corpo, decidindo por mim o que eu deveria fazer para agradá-los. E eu faço isso mostrando como o fatshamming perpetua esse abuso.

Não vou debater isso. Eu vivi isso a minha vida inteira e estou lutando por um mundo em que as pessoas sejam tratadas com mais respeito e dignidade e gentileza porque elas são seres humanos. Ponto final.

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